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“A Liderança constrói-se na forma como Inspiramos os Outros”

Num universo tradicionalmente marcado por uma presença masculina, como é o da mobilidade e da tecnologia, Catarina Cruz tem vindo a traçar um caminho de liderança, criatividade e impacto. Enquanto Campaigns & Social Media Manager da KINTO Portugal — marca global de soluções de mobilidade — assume um papel de destaque não só na comunicação estratégica da empresa, mas também na representação de uma nova geração de Mulheres que transformam, inspiram e lideram com propósito.

Nesta entrevista à Business Voice, Catarina Cruz fala abertamente sobre os desafios específicos que enfrentou como mulher num setor em constante evolução, a importância da representatividade feminina em cargos de decisão e o que ainda falta fazer para que o talento feminino seja plenamente reconhecido e valorizado. Uma conversa franca e inspiradora sobre equidade, inovação e o futuro da mobilidade — com voz no feminino.

 

 

Olhando para o seu percurso profissional até à posição de Campaigns & Social Media Manager na KINTO Portugal, que desafios específicos enfrentou como mulher neste setor como o da mobilidade e tecnologia, e de que forma essas experiências moldaram a sua visão de liderança?

Ao longo do meu percurso profissional, senti que, sendo mulher, é mais desafiante alcançar cargos de liderança. Embora tenha conseguido atingir posições de responsabilidade, a verdade é que ainda existem perceções enraizadas que tornam este caminho mais exigente. Em muitas situações, nota se uma espécie de desvalorização subtil, quase invisível, que nos faz sentir que temos de provar constantemente o nosso valor, não apenas uma vez, mas de forma contínua. O fator idade agrava essa perceção. Um homem com cerca de 30 anos é frequentemente reconhecido como alguém com elevado potencial, já uma mulher da mesma idade precisa de vencer mais barreiras até ser levada com a mesma seriedade. Estas experiências moldaram a minha visão de liderança, com o tempo, percebi que não basta apenas trabalhar bem, é preciso ser visível, ser ouvida e criar impacto com confiança. Acredito que a liderança não se impõe, constrói-se com base na competência, coerência e na forma como inspiramos os outros, e é essa a abordagem que tento cultivar diariamente.

 

Na sua opinião, que impacto tem a representatividade feminina nos cargos de gestão e decisão dentro de empresas como a KINTO, e como acredita que a cultura organizacional pode ser transformada quando há mais mulheres em posições de influência?

A representatividade feminina nos cargos de gestão e decisão é fundamental para garantir uma cultura organizacional mais equilibrada, inclusiva e sensível à diversidade de perspetivas que o mercado e a sociedade exigem hoje. Quando as mulheres ocupam posições de influência, trazem consigo não só competências técnicas e estratégicas, mas também uma abordagem mais empática, colaborativa e orientada para o impacto social, o que enriquece o processo de tomada de decisão. Na KINTO, é bastante positivo ver que temos mulheres em cargos de direção. Este equilíbrio demonstra a valorização da competência, independentemente do género, o que se reflete num ambiente onde diferentes perspetivas são não só ouvidas, como valorizadas, o que contribui para a criação de equipas mais diversas, promove uma cultura de inclusão e serve de inspiração para outras colaboradoras.

 

Considera que o foco atual das empresas deve estar mais na criação de igualdade de oportunidades para as mulheres ou na garantia de igualdade de resultados, especialmente em áreas como marketing, inovação e mobilidade sustentável?

Na minha perspetiva, o foco das empresas deve estar, em primeiro lugar, na criação de igualdade de oportunidades, garantindo que todas as pessoas, independentemente do género, tenham acesso às mesmas condições para demonstrar o seu valor. A progressão na carreira, sobretudo em áreas estratégicas como o marketing, a inovação ou a mobilidade sustentável, deve ser sempre baseada no mérito, nos resultados alcançados e na capacidade de liderança. Não considero adequado promover profissionais apenas com base em critérios de representatividade se estes não estiverem preparados para assumir responsabilidades. No entanto, é fundamental reconhecer que, na prática, muitas mulheres, mesmo apresentando desempenhos de excelência, continuam a enfrentar barreiras no acesso a cargos de topo. E quando chegam ao topo, muitas vezes não são reconhecidas pelo impacto das suas funções. No setor automóvel e na área da mobilidade, ainda persiste o estereótipo de que é um universo masculino, ligado culturalmente à figura do homem. Contudo, esta visão está ultrapassada. Funções como marketing e inovação exigem, sobretudo, visão estratégica, criatividade e foco no consumidor, competências que não estão condicionadas pelo género.

 

Tendo em conta a sua experiência no marketing digital e na comunicação de marcas orientadas para a inovação como a KINTO, sente que as mulheres estão a conquistar cada vez mais espaço nestas áreas? E que papel podem desempenhar na redefinição da forma como comunicamos a mobilidade do futuro?

As mulheres estão a conquistar cada vez mais espaço nas áreas do marketing digital e da comunicação, especialmente em contextos orientados para a inovação. Hoje já é possível identificar profissionais femininas de grande renome que se têm destacado pelo seu contributo estratégico e criativo, e isso é um sinal claro de progresso. Acredito que as mulheres trazem uma sensibilidade especial para estas áreas, não apenas pela vertente emocional e empática, que permite criar mensagens mais humanas e próximas do consumidor, mas também pela sua capacidade de pensar de forma criativa e multidisciplinar. Estas competências tornam-se particularmente valiosas quando falamos da comunicação da mobilidade do futuro, um setor que exige novas narrativas, centradas nas pessoas, na sustentabilidade e na transformação digital.

 

Ao longo da sua carreira, teve figuras femininas que a inspiraram ou acompanharam como mentoras? E, agora que ocupa um cargo de destaque, sente que tem também a responsabilidade de ser uma referência para outras jovens profissionais que querem entrar no mundo dos negócios?

Ao longo da minha carreira, tive poucas oportunidades de trabalhar diretamente com líderes femininas. No entanto, sempre valorizei mais a experiência e o conhecimento técnico dos líderes, sobretudo em áreas como o marketing, do que o seu género. Apesar de não ter tido mentoras diretas, fui acompanhando várias profissionais portuguesas de referência na área do marketing digital, que se destacam pela sua consistência e capacidade de liderança. Hoje, enquanto profissional com responsabilidades acrescidas, sinto que é essencial devolver aquilo que fui aprendendo. Os jovens profissionais são o futuro do setor, e acredito que todos temos a responsabilidade de ser uma referência positiva, especialmente quando lidamos com recém-licenciados. Muitos chegam ao mercado de trabalho com dúvidas legítimas e alguma incerteza quanto ao caminho a seguir. Cabe-nos a nós partilhar a realidade do dia a dia, os desafios enfrentados e as escolhas que nos permitiram crescer. Acredito que, a transparência e a transmissão de valores, tanto ao nível das competências técnicas (hard skills), como das competências humanas (soft skills), são fundamentais para preparar a próxima geração de profissionais.

 

Apesar de avanços visíveis, ainda há barreiras invisíveis que dificultam o crescimento das mulheres no mundo corporativo. Quais considera serem as mais persistentes e como acredita que podem ser superadas, quer a nível individual, quer institucional?

Apesar dos avanços significativos no que diz respeito à igualdade de género, persistem barreiras invisíveis que dificultam o crescimento das mulheres no mundo corporativo. Uma das mais evidentes é a necessidade constante que muitas mulheres sentem de terem de provar mais, durante mais tempo, para serem reconhecidas como competentes e merecedoras de cargos de liderança. Esta exigência contínua conduz ao desgaste profissional e pessoal, tornando o caminho para o topo desproporcionalmente mais difícil para as mulheres do que para os homens. Enquanto um homem pode ascender a posições de liderança em pouco tempo, com base no reconhecimento das suas competências, é comum que uma mulher tenha de manter um desempenho de excelência durante vários anos até conquistar o mesmo tipo de reconhecimento. Este desequilíbrio revela um enviesamento estrutural que, ainda que muitas vezes não seja intencional, continua presente nas organizações. A nível institucional, é essencial que a gestão de topo promova uma cultura organizacional baseada na equidade, no mérito e na valorização da diversidade. Esta transformação cultural não se faz apenas através de incentivos externos, mas sim através da sensibilização e formação dos decisores sobre os mecanismos subtis que perpetuam a desigualdade. No campo individual, é igualmente importante apoiar o desenvolvimento pessoal e profissional das mulheres, através de programas de mentoria, redes de apoio e espaços seguros de partilha. A autoconfiança, aliada à visibilidade dentro da organização, pode ajudar a desmistificar a ideia de que é necessário “provar-se mais” para se ser aceite. Por fim, importa também refletir sobre a persistência de estereótipos associados ao papel tradicional da mulher, muitas vezes vista como cuidadora e não como líder. Mesmo quando as mulheres alcançam posições de topo, continuam a existir desigualdades em termos de reconhecimento, remuneração e influência. Estas diferenças devem ser enfrentadas com transparência e responsabilidade por parte das organizações, se queremos, de facto, construir empresas mais justas, humanas e orientadas para o talento, independentemente do género.

 

Como imagina o futuro da liderança feminina em Portugal nos próximos anos, e que conselhos daria às jovens mulheres que ambicionam fazer carreira em áreas competitivas como a tecnologia, mobilidade e marketing?

Acredito que o futuro da liderança feminina em Portugal será cada vez mais promissor. Embora ainda existam desafios estruturais e culturais a ultrapassar, é notório que as mulheres estão a conquistar mais espaço em cargos de responsabilidade, com impacto real nas decisões estratégicas das organizações. Vejo com otimismo a próxima década, na qual as mulheres estarão mais presentes na linha da frente, não apenas pela necessidade de equidade, mas sobretudo pelo mérito, competência e visão. Para as jovens mulheres que desejam construir uma carreira nestas áreas competitivas, o meu conselho é que trabalhem com dedicação, que se esforcem por ir sempre mais além e, acima de tudo, que nunca deixem de aprender. No início da carreira, é comum sentirmos que já dominamos muita coisa, mas é fundamental manter uma atitude de humildade e abertura. Ouvir quem já tem mais experiência, observar com atenção e absorver boas práticas é algo que marca a diferença ao longo do tempo. Vivemos num mundo em constante mudança, onde as tecnologias evoluem rapidamente e os modelos de negócio se transformam de forma contínua. É por isso que a aprendizagem deve ser constante. Acredito que cada jovem mulher deve confiar no seu valor, mesmo quando o contexto parece mais adverso. É possível criar impacto, influenciar positivamente as organizações e liderar com confiança, desde que se esteja bem preparada e consciente das suas capacidades. O futuro da liderança feminina depende do talento que estamos a formar hoje, nesse sentido, acredito que cada passo dado com esforço, ambição e integridade fará toda a diferença.

 

O que podemos continuar a esperar de si para o futuro?

Continuarei a dedicar-me ao aprimoramento do meu conhecimento. Estou convicta de que o estudo constitui uma das bases mais sólidas para garantir uma evolução sustentada, sobretudo nas duas áreas que mais me fascinam: o marketing e a educação. São setores que exigem uma atenção permanente às tendências e uma elevada capacidade de adaptação às suas constantes transformações. Estou comprometida a agir com rigor e orientada por um sentido claro de propósito, focada em resultados. Procurarei sempre estar envolvida em projetos que que me inspiram a evoluir, a fazer a diferença e deixar uma marca positiva no mercado. Espero, naturalmente, continuar a desenvolver-me no contexto onde atuo, contribuindo de forma ativa com ideias que impulsionem os projetos em que acredito. Com a minha natureza inquieta, a paixão pelo que faço e o gosto pelo trabalho, não posso prever com exatidão o futuro, mas sei que, certamente, estarei envolvida na criação de algo novo, algo que me desafie, que me inspire e que me continue a dar o combustível necessário para seguir em frente com propósito.


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