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“A Saúde Mental já ultrapassou o estatuto de tema passageiro”


Nem todas as batalhas são visíveis. Algumas acontecem em silêncio, no pensamento, nas emoções e na forma como conseguimos — ou não — continuar a viver, trabalhar e relacionar-nos. Falar de Saúde Mental é, por isso, falar muito para além da doença. É falar de prevenção, de ambientes que podem proteger ou fragilizar, de equilíbrio e da necessidade de criar espaços onde as pessoas possam existir sem terem de esconder aquilo que sentem. À Business Voice, Tânia Gaspar, Psicóloga Clínica, Doutorada em Psicologia e Gestão e Coordenadora do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis, traz uma perspetiva que cruza ciência, pessoas e contexto profissional. Uma conversa sobre Saúde Mental, mas também sobre a responsabilidade de construir ambientes mais saudáveis, humanos e capazes de cuidar de quem deles faz parte.

Vivemos numa sociedade que nos pede para estar permanentemente disponíveis, produtivos, conectados e capazes de responder a múltiplas exigências em simultâneo; estaremos a normalizar níveis de pressão que, há alguns anos, consideraríamos insustentáveis?
Sim. Um dos grandes desafios atuais é a aceleração constante, acompanhada pela diversidade de exigências nas diferentes áreas da vida. Espera-se que sejamos competentes no trabalho, presentes na família, disponíveis para os amigos, felizes e em boa forma. Não conseguimos estar a cem por cento em tudo, ao mesmo tempo, sem fazer escolhas.
Há uma parte deste processo que podemos influenciar, parando para reconhecer o que é importante, definir prioridades e decidir o que queremos prosseguir, adiar ou deixar. Mas essa reflexão precisa de encontrar espaço nas condições em que vivemos e trabalhamos. Um esforço adicional pode fazer sentido em certos períodos, o problema surge quando a exceção passa a regra e desaparece a possibilidade de recuperar.
Podemos continuar a cumprir e perder sono, paciência e disponibilidade para quem nos é próximo, o trabalho pode ser uma fonte de realização, mas precisa de deixar espaço para viver.

Fala-se cada vez mais de saúde mental, mas falar sobre o tema significa necessariamente que estamos a cuidar melhor dela, ou corremos o risco de transformar a saúde mental apenas numa tendência, numa palavra da moda ou até num novo produto de consumo?
Penso que a saúde mental já ultrapassou o estatuto de tema passageiro. Reconhecer que queremos mais do que ausência de doença e que o bem-estar faz parte de uma vida com qualidade representa uma mudança importante. Existe maior abertura para conversar, embora o preconceito não tenha desaparecido e ainda possa dificultar o pedido de ajuda.
O desafio está em transformar essa consciência em investimento continuado de tempo, recursos e atenção. Uma campanha dá visibilidade ao tema, mas o compromisso revela-se no que acontece depois.
Numa empresa, a diferença percebe-se quando alguém diz que está sobrecarregado: reveem-se prioridades ou questiona-se a sua dedicação? Cuidar exige coerência entre o que se comunica, o que se financia e o que se recompensa. Atualmente a questão não é a valorização da saúde mental, mas sim que recursos, políticas e programas a empresa tem para prevenir e intervir na promoção de bem-estar e saúde mental

Quando uma pessoa chega ao limite, é frequente perguntarmos “o que se passa contigo?”; não deveríamos começar a perguntar também “o que se está a passar à tua volta?” e olhar para os contextos familiar, profissional e social que podem estar a contribuir para o seu sofrimento?
Sim, e o burnout é um exemplo claro dessa necessidade. Está ligado ao stress crónico no trabalho que não foi adequadamente gerido, pelo que reduzi-lo a uma dificuldade individual deixa de fora uma parte essencial do problema. A sobrecarga, a injustiça, relações desgastantes e a perceção de que nada pode mudar devem fazer parte da avaliação.
É esta perspetiva ecológica, que relaciona a pessoa com os contextos em que vive, que orienta o Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis, o LABPATS. Analisamos a cultura organizacional, as lideranças, as condições de trabalho, a saúde mental e os recursos disponíveis para a proteger. No estudo relativo a 2025, com 5 549 participantes, apenas 36,7% consideravam que a liderança via o bem-estar dos trabalhadores como uma prioridade e 44,5% referiam exaustão nas quatro semanas anteriores.
Estes resultados convidam a olhar para além da capacidade individual de resistir. A história pessoal conta, tal como a família e as condições sociais. Precisamos de compreender o conjunto e intervir nos vários níveis. A responsabilidade é partilhada, mas quem define recursos, horários e regras tem um poder de mudança diferente de quem procura responder às exigências.

No mundo profissional, existe uma contradição difícil de ignorar: as organizações falam cada vez mais de bem-estar, mas continuam muitas vezes a valorizar a disponibilidade permanente, a velocidade, os resultados e a produtividade; é possível construir verdadeiramente saúde mental no trabalho sem repensar a própria cultura organizacional?
Conciliar desempenho e bem-estar pode exigir decisões difíceis, mas faz parte da responsabilidade de gestão. As organizações precisam de resultados e de condições que permitam continuar a produzi-los com saúde, qualidade e respeito.
A cultura revela-se nas decisões quotidianas: quem é promovido, como se reage a um erro, se uma liderança pode negociar um prazo e se sair a horas é interpretado como falta de ambição. O reconhecimento precisa de se traduzir em remuneração justa, oportunidades de desenvolvimento e valorização do contributo de cada pessoa. A autonomia, a flexibilidade e a conciliação devem ter expressão na organização do trabalho.
Precisamos também de compreender diferenças geracionais e momentos de vida, sem transformar a idade num rótulo. As necessidades de quem inicia uma carreira podem diferir das de quem cuida de filhos ou familiares, mas todas merecem ser ouvidas. Ignorar esta diversidade pode dificultar a atração e a permanência de profissionais. 
Cuidar das pessoas integra a capacidade de uma organização construir o seu presente e futuro.

A Inteligência Artificial, as redes sociais e a hiperconectividade estão a alterar profundamente a forma como trabalhamos, comunicamos e nos relacionamos; na sua perspetiva, estamos perante ferramentas que podem melhorar a nossa saúde mental ou perante novas fontes de pressão para as quais ainda não estamos preparados?
Podem ser ambas as coisas. A inteligência artificial pode apoiar tarefas, facilitar a aprendizagem e criar condições para maior autonomia e conciliação. As redes sociais podem aproximar pessoas e permitir acesso a informação e apoio. Mas estas ferramentas também podem intensificar a vigilância, a comparação, a insegurança e a pressão para responder cada vez mais depressa.
A preparação deve incluir competências técnicas e emocionais, aprender a utilizar as ferramentas, avaliar criticamente a informação, lidar com a incerteza e adaptar-se à mudança. Essa aprendizagem precisa de tempo, acompanhamento e participação dos profissionais. Pedir adaptação permanente sem oferecer apoio pode acrescentar desgaste e uma sensação de desvalorização do próprio trabalho.
Para a gestão, há uma pergunta decisiva: o que fazemos com o tempo que a tecnologia permite poupar? Se cada ganho de eficiência originar mais tarefas, podemos acelerar o trabalho sem melhorar a vida. O benefício depende das escolhas sobre recursos, privacidade, autonomia e descanso, e deve ser avaliado também pela experiência de quem trabalha.

Se a prevenção é frequentemente apontada como uma das grandes respostas aos problemas de saúde mental, porque continuamos tantas vezes a agir apenas quando a pessoa já está em sofrimento? O que teria de mudar na escola, na família, nas empresas e nas políticas públicas para que cuidar da saúde mental começasse muito antes da doença?
Porque a crise é visível e urgente, enquanto a prevenção exige continuidade e um horizonte que ultrapassa o resultado imediato. Ainda temos dificuldade em reconhecer o valor de problemas que conseguimos evitar. Na investigação e na prática, procuramos mostrar como ambientes mais saudáveis se relacionam com maior bem-estar, envolvimento e satisfação. Podem também favorecer a qualidade do serviço e o desempenho, mas esses benefícios precisam de ser acompanhados e avaliados em cada organização.
Para mobilizar as empresas, importa tornar visíveis os custos da inação, ausências, trabalho realizado com a saúde comprometida, erros, conflitos e saída de profissionais. O investimento deve partir de um diagnóstico, envolver as equipas e ter objetivos e responsáveis definidos. A saúde deve entrar no plano estratégico e no orçamento.
Na escola, precisamos de ambientes seguros e competências socioemocionais, na família, de relações de apoio e partilha dos cuidados. Nas empresas, é essencial atuar sobre a sobrecarga, o assédio e a injustiça. Nas políticas públicas, importa articular saúde, educação, trabalho e proteção social, garantindo acesso atempado a cuidados. Prevenir começa nas condições que criamos todos os dias para as pessoas viverem e se desenvolverem.

Se pudesse deixar uma única pergunta na cabeça de cada pessoa para o Dia Mundial da Saúde Mental — uma pergunta capaz de a fazer parar, olhar para si própria e perceber como realmente está — que pergunta escolheria?
«A forma como estou a viver deixa-me disponibilidade para aquilo que é importante para mim?»
Escolheria esta pergunta porque podemos estar a cumprir todas as tarefas e a adiar aquilo que dá sentido à nossa vida. A disponibilidade envolve tempo, mas também energia e presença, estar em casa com o pensamento permanentemente no trabalho pode deixar pouco espaço para a relação.
Reconhecer essa distância é um começo. Mudar implica escolhas, ganhos e perdas, pode exigir recusar um compromisso, partilhar responsabilidades ou aceitar que não conseguimos fazer tudo. É um processo com avanços e recuos, que precisa de objetivos realistas e, muitas vezes, de apoio. O primeiro passo pode ser pequeno, desde que nos aproxime do que valorizamos. É esse o convite que deixo: escolher algo importante que deixou de caber na vida e começar a devolver-lhe lugar.


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