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O Direito na era da Inteligência Artificial: Inovar sem perder a essência

A tecnologia pode acelerar processos. Mas será sempre o pensamento humano a fazer a diferença. Num mundo onde a Inteligência Artificial desafia métodos, redefine rotinas e promete transformar a prática jurídica, uma questão ganha cada vez mais relevância: até que ponto a tecnologia pode mudar a advocacia sem alterar aquilo que a torna indispensável?
Para Marina Silva, Advogada e Sócia Fundadora da Marina Silva – Advogados, RL, a resposta não passa por escolher entre o Direito e a inovação, mas por compreender como ambos podem coexistir. Como afirma: «Um advogado terá de saber trabalhar com tecnologia e compreender as ferramentas que utiliza. Mas não será isso que fará a diferença». À Business Voice, Marina Silva reflete sobre a verdadeira essência da Advocacia 4.0: num setor cada vez mais digital, dominar ferramentas será importante — mas saber interpretar, decidir, aconselhar e construir relações de confiança continuará a ser determinante. Porque, no futuro do Direito, a tecnologia poderá ser o instrumento. A diferença continuará a estar em quem sabe usá-la com inteligência, critério e sentido humano.

Fundar um escritório de advocacia é também assumir uma visão sobre a forma como queremos exercer o Direito. Quando criou a Marina Silva – Advogados, RL, que princípios quis colocar no centro do projeto e de que forma essa visão tem acompanhado a transformação digital da profissão?
Quando criei o escritório, em 2008, tinha muito presente a forma como queria exercer a advocacia: com proximidade ao cliente, rigor técnico e independência. Esses princípios mantêm-se. O que mudou foi a forma de trabalhar. A desmaterialização, as reuniões à distância e, mais recentemente, a inteligência artificial alteraram o quotidiano. Sempre que a tecnologia nos permite trabalhar melhor, deve ser aproveitada. Mas continua a ser um instrumento ao serviço do trabalho jurídico e da relação com o cliente.

A Inteligência Artificial já está a entrar nos escritórios, desde a pesquisa jurídica à análise documental e à automatização de tarefas. Na sua perspetiva, estamos perante uma ferramenta que vai libertar o advogado para aquilo que realmente importa ou perante uma transformação que poderá alterar profundamente a própria profissão?
Acho que as duas coisas vão acontecer. Já é possível poupar tempo em pesquisa, organização e análise de informação. Esse tempo pode ser usado no estudo do processo, na definição da estratégia, na ponderação dos riscos e no aconselhamento ao cliente. Há, porém, uma cautela indispensável: estas ferramentas erram, por vezes de forma muito convincente. O que produzem tem de ser confirmado e validado. No final, continuamos a ser nós a assinar, a aconselhar e a responder pelo trabalho que fazemos.

Um advogado pode hoje estar mais próximo do cliente através da tecnologia — reuniões à distância, plataformas digitais, comunicação instantânea — mas também pode acabar por transformar a relação numa sucessão de emails, mensagens e processos automatizados. Onde deve estar a fronteira entre uma advocacia mais digital e uma advocacia menos humana?
A tecnologia aproximou os clientes dos escritórios. Hoje podemos reunir com alguém noutra cidade ou noutro país, partilhar documentos e resolver questões práticas com mais rapidez. O cuidado está em não confundir facilidade com qualidade da comunicação. Há assuntos que se resolvem por email e outros que exigem uma conversa. Explicar uma estratégia, transmitir uma avaliação que pode não corresponder às expectativas do cliente, ponderar riscos ou decidir sobre um acordo são exemplos disso. A tecnologia deve facilitar a relação, não empobrecê-la.

A digitalização promete maior rapidez, eficiência e acessibilidade, mas o Direito lida diariamente com informação extremamente sensível e com decisões que podem mudar vidas. Que desafios colocam a cibersegurança, a proteção de dados e a utilização responsável da Inteligência Artificial à advocacia contemporânea?
São desafios sérios porque um escritório de advogados trabalha diariamente com informação confidencial e sensível. A cibersegurança deixou há muito de ser apenas uma questão informática. Passa pelos procedimentos internos, pelas ferramentas utilizadas e pela forma como a informação é partilhada. Com a inteligência artificial surge uma preocupação adicional. Não basta perceber o que uma ferramenta faz. É preciso saber que tratamento é dado à informação introduzida e que garantias existem de confidencialidade. O dever de sigilo profissional mantém-se, qualquer que seja a tecnologia utilizada.

O cliente de hoje é mais informado, mais exigente e está habituado a serviços digitais rápidos e transparentes. Como deve um escritório de advocacia reinventar a experiência do cliente para responder a estas novas expectativas sem transformar a relação advogado-cliente numa simples prestação de serviço?
Não diria que seja necessário reinventar a relação com o cliente. Clareza, disponibilidade, informação e confiança sempre fizeram parte de uma boa prática profissional. O que a tecnologia alterou foi sobretudo a rapidez e a facilidade com que o cliente espera aceder à informação e comunicar com o escritório. Muitos clientes chegam hoje à consulta depois de pesquisarem o problema e, cada vez mais, de recorrerem a ferramentas de inteligência artificial. Isso muda a conversa, mas torna ainda mais necessária a contextualização da informação e a análise do caso concreto.

Olhando para a próxima década, que advogado encontrará o mercado: um profissional cada vez mais tecnológico, apoiado por ferramentas de Inteligência Artificial, ou um profissional que terá precisamente de reforçar as suas competências humanas — pensamento crítico, empatia, capacidade de ouvir e confiança — para continuar a fazer a diferença?
Não vejo uma oposição entre as duas coisas. Um advogado terá de saber trabalhar com tecnologia e compreender as ferramentas que utiliza. Mas não será isso que fará a diferença. A capacidade de perceber um problema, fazer as perguntas certas, distinguir o essencial do acessório, antecipar consequências e aconselhar com independência continuará a ser determinante. A inteligência artificial pode ajudar-nos a chegar mais depressa à informação. Não conhece, porém, o cliente, o contexto em que o problema surgiu nem todas as variáveis que pesam numa decisão. Podemos ter ferramentas muito diferentes das que tínhamos há vinte anos, mas o cliente continua a procurar no advogado alguém em quem possa confiar.




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