Antecipar a Metastização: o Desafio que pode mudar o futuro do Cancro da Mama
Joana Cancela de Amorim Falcão Paredes - Investigadora Principal e Líder do grupo Cancer Metastasis do i3S (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto)
E se o verdadeiro avanço no combate ao cancro estiver em antecipar aquilo que ainda não conseguimos ver?
É precisamente nesse território — entre o que a ciência já conhece e aquilo que ainda procura compreender — que se desenvolve o trabalho de Joana Paredes, Investigadora Principal e Líder do grupo Cancer Metastasis do i3S (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto). À Business Voice, fala-nos de uma das questões mais complexas da investigação oncológica: a metastização e a necessidade de a antecipar antes que se torne uma ameaça maior.
“O maior desafio é antecipar.” Detetar a metastização quando ainda é mínima, compreender os mecanismos que lhe permitem avançar e, sobretudo, encontrar formas de impedir que aconteça são desafios que colocam a investigação perante uma corrida contra o tempo.
Uma conversa sobre ciência, inovação e conhecimento, mas também sobre esperança: a possibilidade de transformar a investigação de hoje em respostas mais precoces, eficazes e capazes de mudar o futuro de quem enfrenta um diagnóstico de cancro
O seu percurso na investigação tem sido profundamente ligado ao cancro da mama e, em particular, à metastização; o que a levou a dedicar a sua carreira a esta área e que pergunta científica continua, hoje, a motivá-la mais?
A minha dedicação ao cancro da mama está diretamente relacionada com o meu primeiro contacto com a investigação, que foi durante o estágio de licenciatura que fiz no IPO de Coimbra, cujo projeto era neste tipo de cancro. Isso levou a que percebesse cedo que a maioria das mortes por cancro da mama não se deve ao tumor inicial, mas à sua disseminação para outros órgãos, por vezes muitos anos depois de um tratamento aparentemente bem-sucedido. Isso fez com que decidisse especializar-me mais no estudo deste tipo de cancro; primeiro durante o meu doutoramento, e depois como líder de um grupo de investigação. A pergunta que continua a motivar-me é simples de formular, mas difícil de responder: porque é que algumas células conseguem sair do tumor, sobreviver em circulação e instalar-se noutro órgão, e outras não? Perceber os mecanismos moleculares que regulam esse processo, e os sinais que o antecedem, é perceber onde e quando podemos intervir antes de ser tarde demais.
O Outubro Rosa coloca a prevenção e o diagnóstico precoce no centro da discussão, mas ainda existe uma distância entre a informação disponível e a capacidade de agir atempadamente; onde considera que estamos a falhar e como podemos transformar conhecimento em prevenção efetiva?
A informação existe, mas nem sempre chega a quem mais precisa, nem se traduz em ação. Apesar de Portugal ser um dos países europeus com o maior avanço nos programas organizados de rastreio, em especial o do cancro da mama, falhamos ainda no acesso desigual ao rastreio, na adesão e no tempo entre um sinal de alerta e a consulta. Transformar conhecimento em prevenção exige proximidade: comunicação clara, rastreio organizado e adaptado ao risco de cada mulher, e circuitos rápidos quando algo não está bem. Temos também de falar de prevenção de forma positiva, dando às mulheres ferramentas concretas, e não apenas alertas que geram medo. O rastreio faz com que os números de cancro aumentem, pois a probabilidade de detetar uma lesão também aumenta. No entanto, estas lesões são maioritariamente de baixo grau e por isso com maior probabilidade de serem tratadas de forma eficiente. Prova disso, é que apesar das taxas de incidência aumentares, a taxa de mortalidade tem vindo a diminuir de forma significativa.
A metastização continua a representar um dos grandes desafios no combate ao cancro da mama; até que ponto compreender antecipadamente o comportamento das células tumorais poderá permitir identificar quem apresenta maior risco de desenvolver doença metastática?
É precisamente esse o objetivo. Hoje estimamos o risco sobretudo com base no tamanho do tumor, no comprometimento dos gânglios axilares e no subtipo molecular, mas duas doentes com o mesmo perfil podem ter percursos muito diferentes. Se conseguirmos ler, no próprio comportamento e biologia das células tumorais, a capacidade de invadir e sobreviver fora do tumor, poderemos identificar mais cedo quem precisa de vigilância e tratamento mais intensivos e poupar outras a terapêuticas desnecessárias e aos seus efeitos secundários. Não se trata de prever o futuro com certeza, mas de tomar melhores decisões com mais informação.
A investigação que desenvolve através da análise de células tumorais circulantes e das chamadas biópsias líquidas poderá mudar a forma como acompanhamos estas doentes; estamos perante uma nova geração de ferramentas capazes de detetar sinais da doença antes de serem visíveis pelos métodos convencionais?
Acredito que sim. Uma simples colheita de sangue permite analisar células tumorais circulantes, fragmentos de ADN tumoral, assim como biomarcadores secretados pelas células tumorais e vários estudos mostram que estes sinais podem surgir meses antes de a doença ser visível em exames de imagem. Além disso, podem ser repetidas ao longo do tempo, acompanhando a evolução do tumor praticamente em tempo real, algo impossível com biópsias de tecido, que são invasivas e captam apenas um momento. O desafio agora é validar em larga escala e demonstrar que agir mais cedo muda, de facto, o prognóstico.
Cada cancro da mama tem características próprias e diferentes respostas ao tratamento; até que ponto a medicina personalizada poderá permitir substituir uma abordagem baseada em modelos gerais por estratégias terapêuticas verdadeiramente adaptadas a cada doente?
Já demos passos enormes nesse sentido: a classificação por subtipos moleculares e as terapêuticas dirigidas mudaram a vida de muitas doentes. O próximo passo é ajustar o tratamento não só ao tumor no diagnóstico, mas à forma como ele evolui. Os modelos gerais continuarão a ser a base, mas cada vez mais serão afinados com informação individual, recolhida de forma contínua. A biópsia líquida pode ter aqui um papel central, ao mostrar quando um tratamento deixa de funcionar e permitir mudar de estratégia atempadamente.
A investigação científica é feita de dados, células e resultados, mas por detrás de cada descoberta existe uma pessoa e uma família; de que forma o contacto com a realidade das doentes influencia o seu trabalho enquanto investigadora e a forma como encara os próximos desafios da ciência?
Cada amostra que analisamos pertence a alguém que aceitou contribuir para que outras pessoas tenham melhores respostas. Isso dá um sentido de responsabilidade e de urgência ao trabalho. Aliás, quando fui Presidente da ASPIC (Associação Portuguesa da Investigação em Cancro) comecei a convidar as associações de doentes a estarem presentes nos nossos congressos, para que os investigadores pudessem explicar de forma simples os trabalhos que estão a desenvolver e sentissem a responsabilidade de que estamos a trabalhar em prol daquelas pessoas. É importante lembrar que o objetivo não é apenas publicar e fazer teses de mestrado e doutoramento, mas sim caminhar com o objetivo de chegar à prática clínica e responder às perguntas que as próprias doentes nos colocam.
Entre aquilo que hoje já conseguimos diagnosticar e tratar e aquilo que a ciência ainda procura descobrir, qual é o maior desafio que precisamos de vencer para que o cancro da mama metastático deixe de ser encarado como uma inevitabilidade e passe a ser cada vez mais uma doença controlável?
O maior desafio é antecipar. Precisamos de detetar a metastização quando ainda é mínima, ou mesmo prevenir que esta possa vir a acontecer. Precisamos de compreender como as células resistem aos tratamentos. Isso exige investigação sustentada e uma ligação estreita entre laboratório, clínica e doentes. Muitas doentes vivem hoje mais e melhor com doença metastática; o caminho é fazer disso a regra, e não a exceção. Sou otimista: a ciência nunca avançou tão depressa como hoje.