“Fui aprendendo que há espaço para Todos”
Na advocacia, a lei define os limites. A liderança tem o poder de os transformar. Num setor onde a competência se constrói com conhecimento, estratégia e confiança, liderar é muito mais do que conquistar um lugar à mesa: é ter a coragem de questionar padrões, abrir novos caminhos e provar que a ambição não tem de apagar a identidade de quem a assume.
À Business Voice, Filipa Caeiro, Advogada e Cofundadora da Caeiro & Fontiela Simões Advogados, partilha a sua visão sobre os desafios de liderar no feminino, conciliando a exigência da profissão com a gestão de um projeto próprio. Responsável pelas áreas de Direito da Família e Menores e Direito Imobiliário, leva também o conhecimento jurídico para além dos tribunais e dos escritórios, através dos conteúdos que assina nas páginas de Instagram @familialegal.pt e @imobiliariolegal.pt.
Entre o rigor jurídico, a proximidade humana e a capacidade de inovar na comunicação, esta é uma conversa sobre mulheres que não esperam que as portas se abram: constroem as suas próprias entradas, afirmam a sua voz e redefinem o significado de liderar — sem perder a essência.
Como nasceu a sua ligação à advocacia e que experiências foram determinantes para a profissional e líder que é hoje?
Creio que a maioria de nós chega ao Direito movida por uma ideia de justiça que tem tanto de nobre como de ingénuo, e comigo assim foi. A escolha tornou-se definitiva quando integrei um projeto em Angola e em Cabo Verde, onde participei na elaboração de propostas de lei, e ver o Direito a ser construído de raiz mostrou-me que cada norma é a resposta a pessoas concretas e que a sua qualidade se mede pelo impacto que tem na vida delas. Confrontei-me também com modelos de organização e de liderança muito diferentes, onde aprendi que liderar obriga a conjugar critérios que raramente apontam no mesmo sentido. Trouxe dessa experiência a convicção de que por detrás de cada processo há uma vida que os números jamais esgotam.
Que desafios teve de superar para afirmar a sua identidade enquanto advogada e empreendedora?
Comecei a exercer jovem e mulher, e cedo percebi que cada uma dessas condições, por si só, pedia provas adicionais, ao passo que juntas exigiam o dobro. Senti essa subestimação em clientes e até em colegas, o que me levou a afinar a forma como comunico e a ocupar o meu lugar sem pedir licença. Fundar o escritório trouxe um desafio de outra natureza, porque deixei de responder apenas pelo meu trabalho e passei a responder por uma visão, decidindo sem a rede de segurança de uma estrutura instalada. Ainda hoje recebo comentários que revelam surpresa perante um desempenho implacável vindo de uma mulher, e aprendi a ler essa surpresa como um elogio que denuncia, sem querer, o preconceito de quem o faz.
Na sua experiência, que barreiras ainda precisam de ser ultrapassadas pelas mulheres para que o seu mérito e a sua competência sejam reconhecidos sem reservas?
A imagem do advogado de referência continua a ser a de um homem mais velho, e é com essa figura que uma advogada é comparada antes mesmo de abrir o processo. O mérito de uma mulher tende a ser medido pelo que já provou, enquanto o de um homem é muitas vezes presumido pelo que promete. A mesma firmeza que num homem é lida como autoridade é, numa mulher, interpretada como dureza, o que nos obriga a calibrar o tom em permanência. A maternidade continua a ser vista como um assunto da mulher, com custos que raramente recaem sobre os homens, e as redes informais onde circulam referências e oportunidades permanecem sobretudo masculinas. Prefiro, ainda assim, ver nestes obstáculos aquilo que levou muitas de nós a desenvolver uma acuidade na leitura dos contextos que hoje faz toda a diferença.
Como concilia o rigor jurídico e a defesa dos interesses dos clientes com a sensibilidade humana necessária para lidar com decisões que podem transformar vidas?
Decidimos que cada advogado se dedica exclusivamente a uma área do Direito, por entendermos que a excelência exige profundidade. Praticamos uma advocacia de proximidade, longe do distanciamento que muitas sociedades cultivam, por sabermos que nos momentos mais difíceis o advogado é muitas vezes a primeira pessoa a quem o cliente confia aquilo que ainda não contou a ninguém, antes até do psicólogo. Essa confiança impõe um dever acrescido de lucidez, pois quem está fragilizado precisa de ser orientado com bom senso e de ouvir com franqueza o que é razoável esperar. O rigor e a sensibilidade reforçam-se mutuamente, porque só compreendendo a pessoa se consegue definir a estratégia que realmente a protege.
Que conselho deixaria às mulheres que ambicionam construir o seu próprio caminho na advocacia, crescer profissionalmente e assumir posições de liderança sem deixarem de ser fiéis a si mesmas?
Fui aprendendo que há espaço para todos, porque cada cliente procura no advogado algo diferente e, numa relação assente na confiança, é essencial que se identifique com quem escolheu. Há contextos que pedem firmeza e objetividade e outros que pedem escuta e compreensão, e uma advogada deve saber transitar entre eles sem perder o centro, sendo certo que adaptar o registo é uma competência e abdicar da própria identidade é uma perda. Aconselho, por isso, que aprendam cedo a dizer que não e a impor limites a todos os intervenientes, porque é aí que a autoridade se constrói. Convém também aceitar que um cliente pode preferir outro estilo sem que isso diga alguma coisa sobre a nossa competência, e essa aceitação liberta-nos da tentação de nos moldarmos à imagem que os outros esperam de nós.