“Pedir ajuda não é desistir, é escolher Cuidar de Si”
No âmbito da reflexão sobre a Saúde Mental, a Business Voice esteve à conversa com Ana Ruivo, CEO e Fundadora da UKSI, empresa que apoia as organizações na promoção da saúde mental e do bem-estar das suas pessoas, através de uma abordagem integrada, preventiva e tecnológica.
Com um percurso marcado pelo impacto e pela dedicação a esta causa, a nossa interlocutora já tornou possível o apoio a mais de 200 mil pessoas e acompanhou mais de 100 líderes de empresas portuguesas. Speaker, professora convidada e voz reconhecida na área do wellbeing e da liderança, partilha a sua visão sobre a importância de colocar a saúde mental no centro das organizações e de construir ambientes de trabalho mais saudáveis, humanos e sustentáveis.
Durante dez anos, cuidou dos outros como enfermeira e acabou por viver, na primeira pessoa, uma experiência de burnout que durante muito tempo não reconheceu nem nomeou. O que é que essa experiência lhe ensinou sobre a importância de reconhecer os sinais de alerta antes de chegarmos ao limite?
Enquanto enfermeira, vi muita dor física, mas a maior dor nos corredores dos hospitais era a emocional: a dos doentes, a dos familiares e a dos próprios profissionais.
Vivia num ambiente tóxico, com lideranças que não cuidavam das suas pessoas, sem progressão nem reconhecimento. Muitas vezes perguntava-me que sociedade é esta que não cuida de quem cuida dos outros.
Durante dez anos fui “sobrevivendo”. Nunca faltei, mas tinha cada vez menos força e menos vontade. Cuidar de quem estava pior do que eu fez com que nunca parasse para me ouvir. Só quando percebi que já não tinha forças para cuidar do outro é que parei e mudei de vida, e só depois compreendi que já não estava bem há muito tempo.
Aprendi que o burnout não aparece de um dia para o outro: instala-se em silêncio, disfarçado de dedicação. Conhecer o nosso corpo e os nossos padrões, e parar quando algo está diferente, é fundamental. Reconhecer os sinais a tempo não é fraqueza, é responsabilidade, connosco e com quem cuidamos.
A sua experiência pessoal acabou por transformar-se numa missão profissional: levar a Saúde Mental para dentro das organizações numa altura em que o tema ainda era visto, muitas vezes, como tabu. O que mudou desde então na forma como as empresas e as lideranças encaram o bem-estar psicológico das suas pessoas?
Quando comecei, em 2018, a Saúde Mental era um tema tabu e a minha ideia era vista pelas empresas como demasiado “fora da caixa” e pouco necessária.
Desde então, o tema passou a ser amplamente estudado pela OMS, pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e por grandes consultoras, e o paradigma mudou. Primeiro, a Saúde Mental surgiu como um benefício extrassalarial valorizado pelos colaboradores, usado para atrair e reter talento.
Hoje caminhamos para um entendimento mais maduro: a Saúde Mental é um ativo estratégico de negócio, com impacto real na produtividade, no absentismo e na rotatividade, e com retorno efetivo para as organizações.
Num país onde as PME são a esmagadora maioria do tecido empresarial, esta visão ainda não é transversal. Mas o caminho está a ser feito, e vamos chegar lá mais depressa do que alguém imaginou.
Depois de apoiar mais de 100 líderes e chegar a mais de 200 mil pessoas, que padrões ou fragilidades encontrou com maior frequência nas organizações e que continuam a exigir uma resposta mais séria e estruturada?
Há dois desafios que encontro quase sempre e que continuam a ser os mais exigentes para as empresas.
O primeiro é passar da consciência à ação. Muitas organizações já perceberam que a Saúde Mental é importante, mas não sabem por onde começar nem o que fazer, de forma concreta, para a promover.
O segundo é ainda mais difícil e persiste mesmo quando as empresas contam com o apoio de profissionais especializados: encontrar o equilíbrio entre criar boas condições de trabalho, que respeitem a vida pessoal e familiar das pessoas, sem perder o foco nos objetivos do negócio. Este equilíbrio não se resolve com uma medida isolada; exige uma resposta estruturada e contínua, e um compromisso real por parte das lideranças.
A UKSI nasce com uma ambição particularmente relevante: garantir que ninguém fica sem apoio psicológico por causa do estigma, do custo ou da hora a que precisa dele. O que é necessário mudar na sociedade para que pedir ajuda deixe definitivamente de ser encarado como um sinal de fragilidade?
É preciso mudar consciências e mindsets, e isso é uma responsabilidade de toda a sociedade. As empresas têm aqui um papel decisivo, não só pela sua responsabilidade social, mas porque é nelas que as pessoas passam a maior parte do tempo em que estão acordadas. Quando uma organização trata a Saúde Mental com naturalidade, está a mostrar que pedir ajuda é um ato de coragem e não de fragilidade. A UKSI nasce precisamente para isso: tornar o apoio acessível a todos, sem barreiras de estigma, custo ou horário.
A UKSI combina acompanhamento humano e profissional com tecnologia, disponibilizando apoio psicológico 24 horas por dia, de forma anónima e sem custo para quem o procura. Como pode esta combinação ajudar a aproximar a Saúde Mental de pessoas que, por diferentes razões, continuam a não procurar ajuda?
A Saúde Mental é, e será sempre, humana. Numa era em que a inteligência artificial e a automação ocupam cada vez mais espaço, é urgente compreender que as emoções devem continuar entregues a especialistas. A tecnologia pode e deve ser usada como facilitadora e catalisadora, e é exatamente isso que a UKSI faz. Através de uma app, as pessoas podem aceder a psicólogos certificados a qualquer hora do dia ou da noite, sem custos, a partir de casa ou de onde estiverem, de forma anónima e confidencial, sem deslocações nem procedimentos administrativos. A Saúde Mental passa a estar, literalmente, na palma da nossa mão.
Fala-se cada vez mais de Saúde Mental, mas entre falar sobre o tema e garantir acesso real aos cuidados existe ainda uma distância significativa. Que futuro gostaria de ajudar a construir através da UKSI e que mensagem deixaria a quem sente que precisa de ajuda, mas continua a adiar esse primeiro passo?
Gostaria que a UKSI fosse um verdadeiro agente de mudança de mindsets e de comportamentos, nas pessoas e nas organizações. A nossa missão é levar a Saúde Mental a todos os que já precisam dela e aos que ainda não sabem que precisam. Queremos ser agentes de literacia, sensibilização e prevenção e, a médio e longo prazo, contribuir para reduzir as perturbações psicológicas em Portugal, o consumo de psicofármacos e a perda de produtividade das empresas. Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses, o stresse e os problemas de saúde psicológica no trabalho custaram às empresas portuguesas cerca de 13,3 mil milhões de euros em 2024, mais do quádruplo de 2020. Não podemos ficar indiferentes perante estes números. A UKSI quer ajudar a inverter esta tendência e a tirar Portugal do pódio da OCDE no consumo de psicofármacos.
A quem continua a adiar o primeiro passo, deixo apenas isto: pedir ajuda não é desistir, é escolher cuidar de si e fazer do bem-estar uma prioridade. Não é preciso chegar ao limite para abrir a porta a dias melhores.