“A IA reforça o valor da Contabilidade na decisão empresarial”
A Inteligência Artificial está a transformar a contabilidade, elevando-a de uma função de registo a uma ferramenta estratégica para as empresas. Mas como transformar tecnologia e números em decisões mais inteligentes? Em entrevista à Business Voice, Mário Moura, CEO da Mário Moura Contabilidade (MMC), reflete sobre o futuro da contabilidade e o papel da inovação no crescimento das PME, defendendo uma visão em que a informação ganha valor quando ajuda o empresário a decidir melhor.
Desde 1998 que acompanha a evolução da contabilidade e, desde 2017, a Mário Moura Contabilidade (MMC) tem vindo a apostar numa forte componente tecnológica através da sua aplicação web e mobile. O que o levou a perceber que a tecnologia não iria apenas transformar a forma de fazer contabilidade, mas também o próprio papel do contabilista dentro das empresas?
A minha visão da contabilidade também vem da minha experiência como empresário. Tenho desenvolvido atividade em setores como o turismo, a tecnologia e o imobiliário, e sei o que significa ter de decidir, assumir riscos e responder pelos resultados. Para gerir, preciso de informação concreta, atualizada e que reflita a realidade do negócio. É essa mesma necessidade que reconheço nos empresários que acompanho desde 1998.
Sempre procurei que a contabilidade ajudasse o empresário a organizar a empresa, compreender os números e simplificar a gestão. Não basta apresentar-lhe um balanço ou uma demonstração de resultados. É preciso que consiga perceber o que esses números significam e utilizá-los para decidir: posso investir, contratar ou assumir mais um compromisso financeiro?
Foi com essa preocupação que criámos, em 2017, o OyO |Organize Your Office, um software de gestão para PME disponível para todas as empresas e que disponibilizamos gratuitamente aos clientes da MMC. O objetivo era dar ao empresário maior controlo sobre o negócio, simplificar processos e permitir-lhe decidir mais rapidamente, com acesso à informação em tempo real.
Nessa altura, a inteligência artificial ainda não tinha a presença que tem hoje no quotidiano das empresas, mas já estávamos a trabalhar nessa direção: aproximar a informação de quem precisa dela para gerir. A IA reforça esse caminho e abre novas possibilidades de análise e de apoio à decisão. É por isso que continuamos a integrá-la no nosso dia a dia e no apoio aos clientes. Para mim, a evolução do papel do contabilista está ligada a esta capacidade de transformar informação em orientação útil para o empresário.
Fala-se muito da Inteligência Artificial como uma ferramenta para automatizar tarefas e ganhar eficiência. Na sua perspetiva, o verdadeiro potencial da IA na contabilidade estará menos em fazer mais depressa e mais em permitir ao contabilista pensar melhor? Que mudança de paradigma estamos a viver?
Sim. Ganhar tempo é importante, mas interessa-me sobretudo o que fazemos com esse tempo. Se o usarmos apenas para processar mais documentos, estaremos a aproveitar uma parte pequena do potencial da IA.
Vejo uma mudança na forma como trabalhamos a informação: podemos explorar hipóteses, comparar cenários e preparar análises com maior rapidez. Isso dá-nos espaço para fazer melhores perguntas. Porque uma análise só é útil quando ajuda a perceber um problema ou a tomar uma decisão. A ambição, na MMC, é usar a IA para melhorar esse trabalho e dedicar mais atenção ao empresário.
Se a IA consegue processar grandes volumes de informação, identificar padrões e produzir análises em segundos, o que passa a distinguir um contabilista verdadeiramente relevante numa PME? Poderá o futuro da profissão estar cada vez mais na capacidade de interpretar dados, questionar resultados e aconselhar o empresário?
O que distingue um contabilista é conhecer a empresa e saber ligar os números à sua realidade. Uma quebra de margem pode resultar de um aumento de custos, de descontos comerciais ou de uma alteração nos produtos vendidos. O número pode ser o mesmo; a resposta de gestão será diferente.
Por isso, considero essencial interpretar, questionar e explicar. Também precisamos de saber dizer ao empresário quando a informação ainda não permite uma conclusão. A confiança constrói-se com rigor e proximidade. Quero que o cliente sinta que tem alguém com quem pode discutir uma contratação, um investimento ou uma dificuldade de tesouraria.
Na MMC estão a investir fortemente em Inteligência Artificial para aumentar a eficiência interna, mas também para melhorar as respostas e análises financeiras disponibilizadas aos clientes. Que tipo de decisões poderá um empresário tomar melhor quando deixa de olhar para a contabilidade apenas como uma obrigação e passa a utilizá-la como uma ferramenta de inteligência para o negócio?
Na MMC, investimos em IA para melhorar os processos internos e a qualidade das respostas e análises aos clientes. Já entregamos relatórios de gestão mensais em Power BI aos clientes que acompanhamos de forma mais próxima. A IA permite-nos aprofundar a leitura desses números.
Com essa informação, o empresário pode avaliar melhor se tem condições para contratar, investir, rever preços ou assumir um financiamento. Pode perceber onde ganha margem e onde a perde. E compreender uma diferença fundamental: aumentar a faturação nem sempre significa ganhar mais dinheiro, e ter lucro não significa ter dinheiro disponível para pagar as contas. É essa leitura que ajuda a assumir compromissos sem colocar a tesouraria sob pressão.
Uma das grandes promessas da IA é transformar dados dispersos em informação útil. Numa PME, onde tempo e recursos são frequentemente limitados, poderá a Inteligência Artificial democratizar o acesso a análises financeiras sofisticadas e aproximar o pequeno empresário de uma gestão mais profissional e estratégica?
Acredito que sim, e é uma das possibilidades que mais me entusiasma. Uma grande empresa pode ter uma direção financeira e uma equipa de controlo de gestão. Numa PME, muitas vezes é o próprio empresário que acumula essas funções, com pouco tempo e poucos recursos.
A IA pode reduzir o trabalho necessário para preparar análises e tornar esse acompanhamento mais acessível, mesmo numa empresa com cinco ou dez pessoas. Mas precisamos de dados organizados e de validar os resultados.
Depois, a informação tem de ser simples e útil. O empresário precisa de perceber o que está a acontecer e que opções tem, sem ter de decifrar relatórios. É nessa conversa que o contabilista continua a fazer a diferença.
Existe também uma questão incontornável: quanto mais dependemos de tecnologia e Inteligência Artificial, maior terá de ser a intervenção humana na validação, interpretação e responsabilização pelas decisões? Onde coloca a MMC a fronteira entre aquilo que deve ser entregue à IA e aquilo que nunca deverá deixar de depender do conhecimento e julgamento de um profissional?
Quanto mais tecnologia usamos, maior tem de ser o cuidado com a sua utilização. A IA pode apoiar a classificação de documentos, as reconciliações, a deteção de anomalias e a preparação de análises. Mas as suas propostas exigem validação.
Na MMC, o princípio é claro: a ferramenta apoia e o profissional assume a responsabilidade pelo trabalho. A validação final de uma declaração, o enquadramento fiscal de uma operação ou o aconselhamento sobre um investimento exigem conhecimento e julgamento profissional. Uma resposta convincente pode estar errada, e temos de saber questioná-la. Cabe-nos explicar as conclusões ao empresário, a quem compete decidir sobre a gestão.
A confidencialidade é igualmente essencial. A informação dos clientes exige proteção, e esse cuidado tem de orientar a escolha das ferramentas e dos dados que nelas utilizamos. A eficiência só faz sentido quando preserva o rigor e a confiança.
Olhando para os próximos anos, que transformação gostaria de ver acontecer na relação entre contabilista, tecnologia e empresário? E poderá a Inteligência Artificial ser precisamente a oportunidade para devolver ao contabilista aquilo que talvez tenha ficado em segundo plano durante demasiado tempo: tempo para pensar, aconselhar e criar valor para o negócio?
Gostava de ver o contabilista envolvido mais cedo nas decisões. Que o empresário nos procurasse para discutir um investimento antes de o concretizar, ou uma contratação antes de assumir esse custo. Há muito valor nessa conversa.
A IA pode dar-nos tempo para reforçar essa relação, mas também temos de investir na formação da equipa e na capacidade de comunicar. De pouco serve uma análise sofisticada se o cliente não a compreender. Para mim, o futuro da contabilidade passa por conseguir explicar melhor o negócio e ajudar o empresário a decidir com mais segurança. É nessa direção que quero continuar a levar a MMC.