Revolução Digital na Construção: O Papel do BIM na Sustentabilidade e Eficiência dos Projetos
Num setor onde tradição e inovação se cruzam diariamente, o BIM – Building Information Modeling tem vindo a afirmar-se como uma ferramenta essencial para a gestão inteligente e eficiente do património arquitetónico. Em conversa com Cristina Pedrosa, Arquitecta e Gestora de Projectos de Arquitectura e Conservação Patrimonial, e Afonso Onofre, Arquitecto e BIM Modeller, da Conservation Practice, exploramos o impacto crescente do BIM na conservação do património, os desafios da sua implementação e o futuro da digitalização no contexto da arquitetura patrimonial.
A Conservation Practice é hoje um player de relevo no mercado, tendo sido edificada para promover valor e para preencher uma lacuna no mercado português, focando-se exclusivamente na preservação do património construído. Neste sentido, quais diria que são, na sua opinião, as valias que a marca apresenta?
A Conservation Practice é especializada na consultoria e projeto na área do Património Construído, reunindo características singulares no contexto nacional. É uma empresa privada, de natureza técnica, constituída por uma equipa que engloba as especialidades de Arquitetura, Conservação e Restauro, História de Arte e Engenharia Civil, contando também com um especialista na área do Património Mundial. Esta abrangência multidisciplinar permite-nos trabalhar nas diferentes escalas envolvidas na conservação e gestão do património, com o desenvolvimento de projetos de restauro, o apoio a projetistas, a consultoria a instituições gestoras de sítios classificados, até à escala do Património Mundial.
A Conservation Practice encontra-se numa fase de transição bastante avançada no que concerne à utilização da metodologia BIM - Building Information Modeling no âmbito do restauro do património arquitetónico. Quais são as motivações para este processo de transição e como está o mesmo a correr?
Reconhecendo o potencial do BIM para proporcionar um conhecimento aprofundado dos edifícios e permitir uma gestão centralizada de toda a informação associada, consideramos essencial a sua aplicação no setor do património construído. Foi com esse propósito que, em 2023, iniciámos o processo de transição para esta metodologia – tendo, entretanto, desenvolvido um manual interno para os nossos procedimentos e a nossa própria biblioteca de objectos BIM (um work in progresso contínuo). Os projetos de restauro de edifícios apresentam uma elevada complexidade, exigem uma colaboração interdisciplinar rigorosa e a conciliação de múltiplos requisitos, muitas vezes contraditórios.
No caso específico dos edifícios históricos, a informação existente encontra-se frequentemente dispersa, tanto em formato físico como digital. Além disso, os levantamentos gráficos disponíveis, quando digitais, são maioritariamente bidimensionais e elaborados manualmente, o que pode implicar margens de erro significativas. As tecnologias associadas ao BIM oferecem novas possibilidades para a otimização destes processos, representando, assim, um contributo valioso para o registo, preservação e salvaguarda do património edificado.
Para que o nosso leitor compreenda melhor, de que forma é que o BIM está a ser integrado nos processos de restauro e conservação?
Estamos focados em explorar o BIM como recurso, com todas as suas potencialidades, adaptando-o às nossas necessidades. Começámos este caminho com o projecto de Restauro do Tecto Mudéjar da Capela do Palácio Nacional de Sintra, com o apoio científico do Instituto Superior Técnico, partindo de uma nuvem de pontos já existente e procurando aplicar a metodologia de restauro ao processo de modelação e ao tratamento da informação (como valor patrimonial, patologias, análises de laboratório e ações de restauro). Para além da modelação, este processo envolveu a programação de bases de dados que comunicam com o modelo e que permitem “alimentá-lo” com informação de forma expedita, num processo exaustivo de experimentação que foi evoluindo e amadurecendo, focado nos outputs que pretendíamos obter. Este processo levou a uma grande adaptação da equipa, das funções, do modo de trabalho e da gestão de tempos de trabalho.
A experiência adquirida foi, mais tarde, fundamental para o desenvolvimento do projeto de Conservação e Restauro, Requalificação e Modernização do Teatro Nacional de São Carlos – um projeto coordenado pelo Arq.º João Mendes Ribeiro, no qual somos os responsáveis pela especialidade de Conservação e Restauro. Este projeto foi desenvolvido em BIM, em ambiente comum de dados e com a produção de modelos federados (BIM Level 3), permitindo-nos dar um “salto” de maturidade BIM e desenvolver uma abordagem inovadora no próprio projeto de restauro. Explorámos o BIM a diversas escalas, desde a análise do valor patrimonial dos vários espaços até à modelação criteriosa dos elementos decorativos, fazendo a articulação direta com mapas de quantidades de trabalhos e estimativas orçamentais – com recurso ao Dynamo, uma ferramenta de programação que permite automatizar tarefas complexas.
A integração do BIM no restauro de património arquitetónico também pode ter um impacto significativo na sustentabilidade dos projetos. Desta forma, em que medida o BIM tem vindo a contribuir para a sustentabilidade na conservação do património, em termos de eficiência energética, utilização de materiais e gestão de recursos?
A nossa abordagem centra-se na preservação, tanto quanto possível, dos elementos com valor histórico, construtivo ou arquitetónico, assumindo também um papel de mediação junto dos promotores nesse sentido. A metodologia BIM proporciona uma visão integrada de todos os componentes de um edifício, permitindo a sua quantificação e a atribuição de parâmetros como a energia incorporada. Esta capacidade possibilita-nos, de forma eficiente, a simulação de cenários que favorecem a utilização racional de materiais. É fundamental para nós gerir as transformações nos edifícios — entre a construção e a demolição — com o propósito de melhorar o seu desempenho energético e ambiental. Valorizamos especialmente a reutilização de materiais e elementos, bem como a preservação física das estruturas pré-existentes.
A adoção de novas tecnologias e da inovação são essenciais. Assim, de que forma é que o BIM se assume como uma tendência crescente na conservação do património?
A Portaria n.º 255/2023 de 7 de agosto veio abrir caminho para a implementação faseada do BIM nas obras públicas - em linha com o que tem sido a prática em diversos países nos últimos anos – pelo que a transição para BIM será inevitável em todos os segmentos da construção, não obstante a resistência que ainda se verifica no mercado, pelos motivos óbvios (mudança de processos de trabalho, investimento em formação e em equipamento, curva de aprendizagem, entre outros).
Apesar do avanço significativo das ferramentas BIM, estas continuam fortemente orientadas para projetos de construção nova, o que representa um desafio adicional quando aplicadas a contextos de reabilitação e restauro. A adaptação dessas ferramentas a edifícios existentes exige um esforço acrescido por parte das equipas técnicas, para explorar o seu potencial e contornar as suas limitações. Neste contexto de transição, os projetistas têm um papel central. Mais do que acompanhar a evolução tecnológica, será necessário que contribuam ativamente para moldá-la através de projetos de investigação, colaboração com empresas de software no desenvolvimento de novas soluções e adquirindo competências em programação e automatização de processos de trabalho.
Olhando para os próximos anos, quais são os grandes desafios e desideratos da Conservation Practice?
O setor da conservação patrimonial está em constante transformação, impulsionado por fatores tecnológicos, sociais e institucionais. Com isso em mente, estamos focados em algumas aspirações estratégicas.
Antes de mais, frisamos a questão da sustentabilidade. Perante o impacto cada vez mais evidente das alterações climáticas na conservação dos edifícios, pretendemos desenvolver e promover metodologias de intervenção sustentáveis e resilientes. A Conservation Practice pretende liderar na criação de boas práticas sustentáveis aplicáveis a edifícios históricos com recurso ao BIM, com o foco na reutilização de estruturas.
Pretendemos, também, continuar a investir na integração de tecnologias digitais nos processos de diagnóstico, intervenção, manutenção e gestão do património (digital twin). Entendemos que o tema da digitalização do património ainda é um mundo por explorar e pretendemos ser uma referência nesta transição no setor do Património Cultural.
Estamos também a começar a direcionar-nos para a internacionalização, já que as oportunidades no plano nacional são limitadas por orçamentos restritivos e um mercado privado muito pequeno. Pretendemos focar-nos em países com património classificado pela UNESCO, tirando partido do nosso corpo técnico multidisciplinar e altamente qualificado, com expertise em Património Mundial.
Por fim, pretendemos tornar-nos mais ativos na comunicação e sensibilização pública, reconhecendo que o Património, enquanto bem coletivo, nem sempre é percebido e valorizado pela sociedade em geral. No futuro, gostaríamos de assumir competências como polo de formação, mentoria e transmissão de conhecimento, promovendo programas de capacitação e divulgando as potencialidades das novas tecnologias na área da Património Cultural Construído.
Legenda: Cristina Pedrosa e Afonso Onofre