“Que se sintam bem, Confiantes e Seguras, ao olharem-se ao espelho
Há marcas que o tempo não apaga. Mas há formas de devolver à mulher aquilo que a doença, por vezes, lhe tentou tirar: confiança, identidade e autoestima. No Outubro Rosa, falar de prevenção e de saúde é também falar da dimensão humana que existe depois do diagnóstico e dos tratamentos. À Business Voice, Daiane Bicalho, Especialista em micropigmentação de lábios e sobrancelhas e Cofundadora da 5 Senses Clinic, partilha uma perspetiva onde a estética assume um papel muito mais profundo: o de contribuir para a reconstrução da autoestima e para a recuperação da relação da mulher com a sua própria imagem. Porque cuidar também pode ser ajudar alguém a voltar a reconhecer-se ao espelho — com mais confiança, dignidade e esperança.
A Daiane Bicalho é especialista em micropigmentação de lábios e sobrancelhas e Cofundadora da 5 Senses Clinic. Gostaria que nos desse a conhecer o seu percurso, os projetos que tem desenvolvido e, sobretudo, a forma como tem vindo a direcionar o seu trabalho para a vertente clínica e para a micropigmentação oncológica reconstrutiva.
Tenho mais de 12 anos de percurso na micropigmentação e um dos marcos mais importantes da minha carreira foram quase 4 anos a viver e a trabalhar em Hong Kong. Foi lá que a minha busca pela naturalidade extrema se consolidou. As sobrancelhas orientais — muito finas, ralas, com fios extremamente delicados — exigiam uma precisão quase cirúrgica. Especializei-me nessa técnica minuciosa e, durante essa vivência, trabalhei com várias etnias e tipos de pele diferentes — o que me deu uma leitura do rosto que hoje é a base de tudo o que faço.
Quando cheguei a Portugal, tornei-me cofundadora da 5 Senses Clinic, em Lisboa, e percebi que muitas mulheres desejam o procedimento mas hesitam, receosas de resultados artificiais — micropigmentações antigas que mudaram de cor e desenhos totalmente desproporcionais. Hoje, o que mais oiço de quem me procura é justamente isso: viram a naturalidade do meu trabalho em pessoas que as indicaram. O meu foco é fazer apenas o necessário, de forma estratégica — por vezes bastam alguns fios pontuais para preencher uma falha ou elevar um olhar, aproveitando o melhor ângulo de cada sobrancelha, dos lábios ou da linha das pestanas. Foi essa mesma filosofia de naturalidade e respeito que levei para a vertente oncológica: a paciente chega até mim fragilizada e cheia de receios, e encontra um resultado suave, que devolve o que foi pedido sem o impacto de uma mudança drástica.
Quando uma mulher atravessa um processo oncológico, existem marcas que vão muito além daquilo que é visível no corpo. Que papel pode ter a micropigmentação reconstrutiva na recuperação da identidade e da relação da mulher consigo própria?
Ao longo de mais de 8 anos dedicados à micropigmentação oncológica reconstrutiva, compreendi que o meu papel é ajudar a restabelecer a ligação da mulher com a sua própria imagem: mesmo que os pelos não estejam presentes naquele momento delicado, a sua identidade permanece — e a micropigmentação entra como ferramenta de construção e de acolhimento.
Cada desenho é estruturado de acordo com a originalidade da paciente, respeitando o posicionamento natural dos fios, a densidade, cor e a espessura que identifico ao criar o projeto. Não existem moldes padrão: estas mulheres viram a vida inteira as suas sobrancelhas reais, e é isso que o procedimento lhes devolve, para que ao olharem no espelho vejam a mulher que sempre foram. E o mesmo se aplica aos lábios, que também são cor, também são vida — e ficam tão apagados como o resto do rosto neste percurso.
Muitas pacientes chegam-me ainda antes de iniciar o tratamento, para fazerem as sobrancelhas preventivamente — para nem terem de viver a ausência dos pelos. O procedimento também pode ser realizado durante o tratamento, mas aconselho que só seja realizado com a devida autorização médica. Acredito genuinamente que a autoestima faz parte do tratamento: num momento tão delicado de uma doença, ela é um fator quase medicinal.
Existe uma diferença profunda entre micropigmentar por uma opção estética e fazê-lo para reconstruir algo que foi perdido na sequência de uma doença ou intervenção médica. O que muda na sua abordagem quando está perante uma mulher que carrega uma história clínica e emocional tão delicada?
Na micropigmentação estética tradicional, o meu foco é realçar a beleza e trazer praticidade ao dia a dia. Na vertente oncológica, a realidade é completamente diferente: trabalho diretamente com a dor da perda e com o desejo profundo de restabelecimento. A minha abordagem muda desde o primeiro contacto.
Muitas das mulheres que me procuram nunca realizaram qualquer procedimento e chegam ao gabinete recarregadas de receios: o medo de que o resultado pareça artificial, de que as pessoas reparem que "fizeram alguma coisa", de não gostarem do resultado e, muito frequentemente, de associarem o procedimento a uma tatuagem pesada e definitiva. Há ainda um receio que atravessa tudo o resto: o medo de ficar diferente daquilo que ela é. E há uma dúvida mais silenciosa: e se durar demasiado? O que ficará depois do tratamento?
A minha prioridade é a clareza. Explico detalhadamente todo o processo e desmonto um mito importante: a micropigmentação não é permanente. Tem uma durabilidade definida e resulta de um equilíbrio — a técnica está nas minhas mãos, os cuidados estão nas mãos dela, mas a renovação celular da própria pele também é responsável pela forma como o pigmento evolui e esbate. É um processo interno, natural, que não está ao controlo de ninguém — e é precisamente isso que as tranquiliza: o procedimento apoia-as no momento difícil e pode ser repetido no futuro, se assim o desejarem. Este atendimento exige muito mais do que precisão técnica: exige alma, sensibilidade, segurança e um acolhimento genuíno.
O Outubro Rosa fala sobretudo de prevenção, rastreio e diagnóstico precoce, mas será que ainda se fala pouco sobre aquilo que acontece depois do tratamento? Que importância assume a reconstrução na recuperação e na qualidade de vida das mulheres?
Sem dúvida! Celebramos, com toda a razão, a sobrevivência e a cura clínica, mas o pós-tratamento é uma fase de profunda vulnerabilidade sobre a qual ainda se fala muito pouco. Muitas mulheres sentem-se curadas fisicamente, mas emocionalmente fragmentadas pelas marcas que restaram e pelas dores que viveram. Há um peso invisível que quase ninguém vê: o medo constante de que o cancro regresse, que ecoa diariamente na mente destas mulheres, numa fase em que o psíquico exige um equilíbrio delicado e os cuidados mantêm a mulher permanentemente vigilante.
E há aquilo que o espelho devolve. Sobrancelhas, pestanas e lábios são precisamente onde o rosto tem cor — e é uma fase em que o semblante está mais pálido, mais apagado. É por isso que falar abertamente sobre o depois do tratamento é fundamental. A reconstrução, seja ela cirúrgica ou através da micropigmentação, surge como o fecho de um ciclo doloroso. Assume um papel vital na recuperação e na qualidade de vida destas mulheres, devolvendo-lhes a autoestima, a dignidade e o bem-estar integral.
Uma sobrancelha, uma aréola ou outro elemento reconstruído pode parecer um pequeno detalhe para quem olha de fora, mas representa uma enorme transformação para quem o recebe. Que histórias e emoções estão, muitas vezes, por detrás desse momento?
No meu dia a dia na 5 Senses Clinic, percebo que o que muitos consideram um pormenor é, na verdade, um ponto de viragem no bem-estar de uma paciente. Por detrás de cada procedimento reconstrutivo há histórias de silêncio, de recolhimento e de afastamento do próprio espelho: mulheres que deixam de tirar fotografias com a família, que evitam sair à rua, que deixam de levar os filhos à escola, que sentem a própria presença como algo que desperta curiosidade e perguntas.
E é isso, muitas vezes, que mais pesa — mais do que a ausência dos traços em si. O olhar das pessoas, a necessidade de repetir sempre a mesma história de sofrimento, o questionamento silencioso dos filhos. São as explicações que a mulher tem de dar aos outros — e que muitas vezes não quer dar nem a si própria.
Quando realizo a reconstrução de uma sobrancelha ou de uma aréola, ou devolvo cor a um lábio apagado, ou desenho a linha das pestanas — onde nenhuma cola é possível, e um traço delicado no nascimento dos pelos faz o papel da sombra de uma pestana —, o meu objetivo é devolver a normalidade à rotina daquela pessoa. A emoção que testemunho no gabinete, traduzida em lágrimas de alívio, é o reflexo de quem finalmente vê o espelho devolver a sua verdade — e pode retomar a vida sem o peso visual da doença.
Trabalhar na área da micropigmentação oncológica exige técnica, precisão e conhecimento, mas também escuta, empatia e sensibilidade. Onde termina o procedimento técnico e começa, para si, o verdadeiro cuidado humano?
Para mim, o verdadeiro cuidado começa no momento em que a paciente entra na minha clínica, quando se senta à minha frente e me conta a sua história. A partir daí, o rigor técnico e a sensibilidade humana tornam-se indissociáveis. A precisão milimétrica e o estudo minucioso da pele perdem todo o sentido sem a escuta de quem é aquela mulher e do que realmente precisa.
Há um detalhe que conheço bem: ao contrário do cabelo, que pode ser substituído por uma prótese ou por um lenço, as sobrancelhas e as pestanas não têm substituto. E a maioria das mulheres não sabe desenhá-las — quando o fazem, ficam com formatos e espessuras diferentes, que acabam por chamar ainda mais atenção do que a própria ausência dos pelos. O meu papel é devolver aquilo que sempre foi seu, sem que ninguém repare na diferença.
O procedimento técnico termina quando finalizo o trabalho e entrego o espelho a ela. Mas o verdadeiro cuidado humano não termina nunca — porque essa mulher nunca fica sozinha. Continua comigo na cicatrização, nos retoques, em cada mensagem e em cada regresso ao gabinete. Compreender que não estou apenas a restaurar traços faciais, mas a devolver a uma mulher a sua própria identidade, é o que transforma este trabalho num espaço de segurança onde ela se sente verdadeiramente ouvida e respeitada — antes, durante e muito depois do procedimento.
Se pudesse deixar uma mensagem a uma mulher que terminou ou está a atravessar um percurso oncológico e que sente que perdeu parte da sua identidade pelo caminho, o que gostaria que ela soubesse sobre a possibilidade de reconstruir, recuperar e voltar a reconhecer-se?
Gostaria que ela soubesse, antes de mais nada, que a sua identidade não se perdeu no caminho — ela continua a ser a mesma mulher de sempre, apenas atravessou uma fase que exigiu tudo dela. O diagnóstico e o percurso oncológico trazem um choque profundo e uma dor que abalam não só a estrutura individual da mulher, mas também a dos seus amigos e familiares. Mas, nessa travessia tão delicada, é essencial que saiba que não está sozinha.
Se sente que perdeu parte de si, é preciso compreender que o processo de reconstrução e recuperação é, na verdade, a preservação e a manutenção daquilo que já é seu. Não se trata de criar algo artificial, de inventar ou impor estilos, desenhos ou cores com que ela não se venha a reconhecer no dia seguinte. A naturalidade é a peça-chave de todo o procedimento — nas sobrancelhas, nos lábios, na linha das pestanas.
E há, muitas vezes, uma descoberta inesperada: muitas destas mulheres nunca tinham olhado com atenção para as próprias sobrancelhas — e é no momento mais delicado que percebem o quanto pequenos detalhes as embelezam e elevam a autoestima. Não é raro que, terminado o tratamento, queiram continuar a cuidar de si. O objetivo final é esse: que se sinta bem, confiante e segura ao olhar-se ao espelho — com as características que sempre teve, devolvidas de forma extremamente natural.