Pesquisar

Utilizamos cookies para garantir que tenha a melhor experiência no nosso site. Ao continuar a utilizar o nosso site, você aceita o uso de cookies e a nossa Política de Privacidade.

“Acredito verdadeiramente que não existe uma Liderança Feminina ou Masculina”

Liderar não é apenas ocupar um lugar de destaque. É ter a coragem de antecipar o futuro, desafiar modelos instalados e construir um caminho coerente com aquilo que somos. É precisamente essa visão que marca o percurso de Marília Teixeira Lopes, visionária pragmática, empreendedora portuguesa e mãe de dois filhos, que encontrou na antecipação de tendências e na construção de pontes entre o potencial humano e a sua expressão no mundo a sua verdadeira vocação. Pioneira desde 2010, quando trabalhar online e construir uma vida profissional com maior liberdade ainda parecia uma ideia ousada, a nossa interlocutora acredita que a verdadeira felicidade nasce da coerência entre a nossa essência e aquilo que fazemos.
Nesta entrevista à Business Voice, falamos de liderança feminina, empreendedorismo, maternidade, futuro e propósito — mas, sobretudo, da importância de uma mulher poder construir sucesso sem deixar para trás quem verdadeiramente é. Porque talvez a liderança do futuro não seja sobre chegar mais longe. Seja sobre chegar mais longe sem deixar de ser nós próprios.

Liderar no feminino é, muitas vezes, apresentado como uma questão de igualdade, representatividade e acesso a posições de poder. Mas será que a verdadeira transformação acontece quando as mulheres passam a ocupar os lugares tradicionalmente reservados aos homens, ou quando conseguem transformar a própria forma de exercer o poder, introduzindo novas perspetivas, valores e formas de relação?
Precisamos de separar dois conceitos fundamentais: ter autoridade e exercer liderança. Quando associamos a liderança feminina a posições de poder tradicionais, corremos o risco de replicar modelos ultrapassados baseados na força.
A verdadeira transformação ocorre quando a mulher lidera a partir da sua essência. A empatia, a intuição e a capacidade de escuta são dons naturais que devem ser encarados como vantagens competitivas nas empresas. Isto não significa superioridade em relação aos homens, significa complementaridade.
O caminho não passa por rivalizar papéis, mas por reconhecer a riqueza da diversidade. Em última análise, o sucesso de uma organização mede-se pela capacidade de liderar pessoas como seres humanos, transcendendo as questões de género.

Existe ainda uma espécie de paradoxo na liderança feminina: espera-se que uma mulher seja determinada, ambiciosa e firme, mas, quando demonstra essas mesmas características, pode ser considerada excessivamente dura, autoritária ou pouco conciliadora. Na sua perspetiva, até que ponto as mulheres continuam a ter de encontrar um equilíbrio entre aquilo que são e aquilo que a sociedade espera que sejam enquanto líderes?
Fomos socialmente educados sob a premissa de que a mulher é mais frágil e menos ambiciosa, uma construção cultural que não corresponde à realidade. A ambição, a firmeza e a determinação não têm género; são características individuais de qualquer ser humano.
Contudo, a verdade é que o duplo critério persiste. Quando um homem demonstra firmeza e ambição, isso é visto como liderança natural e assertividade. Quando uma mulher demonstra exatamente as mesmas qualidades, é frequentemente rotulada de rígida ou autoritária.
Há uma confusão fundamental na sociedade: confunde-se liderança com autoritarismo. Um verdadeiro líder, homem ou mulher, deve ser determinado, claro e ambicioso, mas também conciliador. A diferença é que a exigência sobre a mulher no topo é incomparavelmente maior. A sociedade ainda está a aprender a aceitar a firmeza no feminino sem a conotar negativamente, mas o nosso papel passa justamente por demonstrar que é possível ser profundamente firme, ambiciosa e extraordinariamente humana.

Fala-se muito de “empoderar” mulheres, mas talvez o verdadeiro desafio esteja em criar condições para que elas não precisem de pedir licença para assumir o seu lugar. O que considera que ainda falta mudar — nas organizações, na sociedade e, sobretudo, dentro das próprias mulheres — para que ambição, liderança e poder deixem de ser conceitos que algumas mulheres sentem necessidade de justificar?
O próprio facto de ainda precisarmos de entrevistas focadas na 'liderança no feminino' demonstra que o caminho não está concluído e que o 'pedir licença' ainda é um obstáculo real. Durante algum tempo, acreditei que tínhamos feito progressos irreversíveis. Contudo, o cenário recente revela retrocessos preocupantes, e o mais alarmante é ver este recuo alimentado, por vezes, dentro da própria esfera feminina.
Esta conjuntura obriga-nos a reforçar a nossa posição e a demonstrar que o espaço conquistado não é negociável. Há uma distinção fundamental que precisamos de fazer: nós não estamos a empoderar as mulheres; estamos a resgatar o poder delas. Quando mudarmos esta perspetiva nas empresas, na sociedade e na mente das próprias mulheres, a ambição deixará de ser um pedido de licença e passará a ser o que realmente é: naturalidade.

Uma mulher que chega a uma posição de liderança não leva apenas competências profissionais para essa função: leva experiências, desafios, aprendizagens e, muitas vezes, batalhas que foram travadas muito antes de chegar ao topo. Na sua visão, de que forma essas experiências podem transformar a maneira como uma mulher lidera pessoas, toma decisões e constrói equipas?
Uma mulher que chega hoje ao topo traz consigo a garra inabalável de fazer acontecer e a empatia moldada por todos os obstáculos do caminho. Quem conhece o peso do percurso lidera com outra sensibilidade, transformando a sua experiência numa generosidade autêntica para apoiar e abrir portas a outros. As batalhas travadas não nos endurecem o coração, dão-nos a força e a legitimidade para liderar de forma autêntica. Uma mulher que lidera a partir dessa vivência constrói equipas baseadas na confiança, no respeito mútuo e na superação, demonstrando que a verdadeira força e a humanidade não são conceitos opostos, mas sim o motor da excelente gestão. 

Há quem defenda que não existe propriamente uma “liderança feminina”, mas sim diferentes formas de liderar, independentemente do género. Outros entendem que as mulheres podem trazer para a liderança características e perspetivas particularmente relevantes, como maior capacidade de escuta, colaboração, empatia ou inteligência relacional. Onde se posiciona neste debate e o que significa, para si, verdadeiramente, “liderar no feminino”?
Acredito verdadeiramente que não existe uma liderança feminina ou masculina. Existem líderes e existem seres humanos. O que por vezes associamos a perfis mais 'femininos' ou 'masculinos' não tem a ver com género, mas sim com a energia e o estilo com que cada pessoa se expressa. Não há certos nem errados na forma de liderar, desde que exista um compromisso inegociável com o respeito pelo próximo.
A meu ver, existem simplesmente líderes mais humanos e líderes menos humanos. O dia em que deixarmos de precisar de termos como 'liderança feminina' ou 'empoderamento feminino' será o verdadeiro dia da vitória. Ficarei imensamente feliz no momento em que a sociedade passar a falar de liderança, competência e humanidade sem precisar de olhar para o género.

Talvez uma das maiores revoluções da liderança feminina não seja chegar ao topo, mas abrir caminho para que outras mulheres também consigam lá chegar. Na sua opinião, que responsabilidade tem hoje uma mulher líder perante as gerações que estão a começar — e que legado gostaria que as mulheres que lideram atualmente deixassem para aquelas que ainda estão a construir o seu percurso?
Como mãe de uma menina e de um menino, sinto que a minha primeira e maior responsabilidade de liderança começa em casa: formar a minha filha para que nunca ceda a preconceitos sociais e formar o meu filho para que nunca olhe para as mulheres através de lentes ultrapassadas.
O nosso verdadeiro legado é ensinar o respeito pela diferença e compreender que respeito não significa igualdade. Há uma célebre premissa que diz 'todos diferentes, todos iguais', mas a verdade é que não somos iguais, e não precisamos de fazer de conta que o somos. Homens e mulheres são diferentes, com sensibilidades, perfis e perspetivas distintas.
A igualdade de oportunidades não exige a negação da nossa individualidade. O legado que devemos deixar às novas gerações é a capacidade de abraçar a diferença com um respeito profundo, compreendendo que ser diferente não torna ninguém melhor nem pior. O futuro da liderança constrói-se ensinando os nossos jovens a valorizar a diversidade humana em toda a sua riqueza.









Mais Artigos Relacionados "Sociedade"