"A Liderança Feminina deve passar a fazer parte da realidade das organizações"
Num setor cada vez mais estratégico para as famílias portuguesas, a intermediação de crédito tem vindo a afirmar-se como uma atividade onde a competência, a ética e a proximidade fazem toda a diferença. Também aqui, as mulheres têm conquistado um espaço de crescente relevância, assumindo posições de liderança e contribuindo para uma transformação assente na confiança, na transparência e na excelência do serviço prestado.
É neste contexto que conversamos com Susana Morais Barbosa, Mortgage Broker da Maxfinance Atlas Mortgage, uma profissional que acredita que liderar é muito mais do que alcançar resultados comerciais: é criar relações de confiança duradouras, pautadas pela integridade, credibilidade e profissionalismo. Para a nossa interlocutora, cada processo representa a oportunidade de colocar o cliente no centro da decisão, conciliando rigor técnico, sensibilidade humana e um profundo respeito pelos parceiros de negócio, sempre em conformidade com as exigências regulatórias.
Nesta entrevista, refletimos sobre o papel das mulheres no setor da intermediação de crédito, os desafios que ainda persistem, a evolução da profissão e a importância de uma liderança que alia conhecimento, ética e compromisso com as pessoas. Uma conversa inspiradora sobre o presente e o futuro de uma atividade essencial para a literacia financeira e para a concretização dos projetos de vida de milhares de portugueses.
No sentido de contextualizar o nosso leitor, o que a levou a entrar neste setor e em que momento percebeu que tinha encontrado uma área onde poderia fazer a diferença na vida das pessoas?
Trabalhei 27 anos na banca de investimento, mas sentia que era altura de mudar. Em 2017 descobri a Intermediação de Crédito e percebi que podia fazer a diferença na vida das pessoas. Encontrei uma área onde o conhecimento financeiro se alia à proximidade humana, ajudando clientes a tomar decisões importantes com mais segurança, confiança e tranquilidade.
Durante muito tempo, as áreas financeira e do crédito foram percecionadas como universos predominantemente masculinos. Na sua experiência, sente que essa realidade está efetivamente a mudar ou ainda existem barreiras invisíveis que condicionam a afirmação das mulheres em funções de liderança e decisão?
Quando comecei a trabalhar no setor financeiro, nos anos 90, a presença feminina em funções comerciais era reduzida. Felizmente, essa realidade mudou e hoje vemos cada vez mais mulheres a ocupar diferentes posições. Apesar dos progressos alcançados, ainda persistem barreiras que dificultam o acesso a cargos de liderança. O setor tornou-se mais inclusivo, mas continua a ser importante criar condições para uma representação mais equilibrada nos níveis de decisão.
A liderança feminina é frequentemente associada a competências como empatia, escuta ativa e proximidade. Na intermediação de crédito, onde as decisões envolvem projetos de vida, património e estabilidade financeira das famílias, acredita que estas características representam uma vantagem competitiva? Ou considera que ainda persistem estereótipos que desvalorizam este estilo de liderança?
A liderança feminina traz empatia, escuta ativa e uma forte componente humana, competências que, na intermediação de crédito, são uma verdadeira vantagem. Lidamos com projetos de vida e decisões que afetam famílias, e a capacidade de nos envolvermos e lutar por cada caso faz muitas vezes a diferença. Sem essa proximidade, muitos processos não teriam sucesso.
Apesar dos avanços, persistem alguns estereótipos que tendem a desvalorizar este estilo de liderança. No entanto, a experiência mostra que a proximidade e a sensibilidade geram confiança e ajudam a alcançar melhores resultados.
A pressão por resultados é uma constante neste setor. Como se constrói uma liderança capaz de equilibrar objetivos comerciais, exigência regulatória e, simultaneamente, colocar o cliente no centro de todas as decisões? Que princípios nunca aceita comprometer?
A minha liderança assenta em integridade, credibilidade e profissionalismo. Procuro tratar cada processo com rigor técnico e proximidade humana, colocando sempre o cliente em primeiro lugar. Valorizo igualmente o respeito pelos parceiros de negócio e acredito num projeto construído com ética, confiança e foco no cliente, conciliando objetivos comerciais com as exigências regulatórias.
Muitas pessoas continuam a associar o intermediário de crédito apenas à obtenção de melhores condições de financiamento. Na sua perspetiva, qual é hoje o verdadeiro valor acrescentado destes profissionais e de que forma podem contribuir para uma gestão financeira mais consciente e sustentável das famílias e das empresas?
O intermediário de crédito é, na prática, uma extensão da banca comercial na distribuição de crédito. Com menos balcões e gestores disponíveis, assumimos um papel essencial na análise, preparação e apresentação dos processos aos bancos.
O nosso trabalho vai muito além de negociar taxas. Avaliamos a situação financeira do cliente, explicamos conceitos complexos de forma simples, comparamos propostas e identificamos a solução mais adequada aos seus objetivos. Garantimos transparência, ajudamos a reduzir riscos e acompanhamos o cliente ao longo de todo o processo, incluindo após a contratação.
Também promovemos a literacia financeira, explicando a relação entre custo, risco e flexibilidade.
O nosso valor está em transformar o crédito numa solução responsável, sustentável e ajustada às necessidades de cada cliente.
Num contexto económico marcado por inflação, taxas de juro voláteis e maior pressão sobre os orçamentos familiares, qual tem sido o papel da intermediação de crédito na reorganização financeira dos clientes? Que casos ou situações a fazem sentir que esta profissão tem também uma importante dimensão social?
Num contexto de inflação elevada e taxas de juro voláteis, a intermediação de crédito tem sido essencial para ajudar as famílias a reorganizar as suas finanças. Mais do que procurar melhores condições, analisamos cada situação, esclarecemos dúvidas e identificamos soluções que permitam aliviar os encargos mensais e reduzir o risco de incumprimento.
É também nestes momentos que se revela a dimensão social da profissão. Recordo famílias preocupadas com a subida das prestações, reformados com rendimentos limitados ou pequenas empresas sob forte pressão financeira. Ao ajudá-los a encontrar soluções sustentáveis e a recuperar alguma tranquilidade, percebemos que não estamos apenas a intermediar crédito, estamos a contribuir para a estabilidade financeira e o bem-estar das pessoas.
A literacia financeira continua a ser um dos grandes desafios em Portugal. Considera que os intermediários de crédito devem assumir um papel mais ativo na educação financeira da população? Que conhecimentos essenciais acredita que todos os portugueses deveriam dominar antes de tomar decisões relacionadas com crédito, habitação ou investimento?
Sim, sem dúvida. Estamos na linha da frente e temos a responsabilidade de transformar conceitos financeiros complexos em decisões práticas, ajudando os clientes a evitar erros, ansiedade e incumprimentos.
Não basta falar de TAEG ou spread, é necessário explicar o impacto real na prestação mensal, no orçamento familiar e na capacidade de lidar com imprevistos. Ajudamos os clientes a compreender custos, prazos, tipos de taxa e responsabilidades do crédito.
A literacia financeira deve fazer parte de cada atendimento, através de explicações simples e simulações claras. Clientes mais informados tomam melhores decisões, reduzem riscos e ganham confiança. Assumir este papel não é apenas uma mais-valia para o setor, é um contributo para uma sociedade mais preparada.
Se pudesse deixar uma mensagem às jovens mulheres que procuram construir uma carreira no setor financeiro ou da intermediação de crédito, qual seria? E que mudanças gostaria de ver acontecer nos próximos dez anos para que a liderança feminina deixe de ser uma exceção e passe a ser encarada como uma realidade natural?
Vai em frente e acredita nas tuas capacidades. Este setor precisa não só de conhecimento técnico, mas também de empatia, comunicação e capacidade de resolver problemas.
Investe primeiro numa base técnica sólida e, ao mesmo tempo, desenvolve competências humanas como ouvir, explicar de forma simples e criar relações de confiança. Procura mentoria, participa em iniciativas do setor, faz networking e aposta na formação contínua. Não tenhas receio de assumir desafios e ambicionar posições de responsabilidade.
Para promover uma maior presença feminina na liderança, é importante reforçar a flexibilidade no trabalho, a igualdade nas políticas de parentalidade, a transparência salarial e os programas de desenvolvimento de liderança. A liderança feminina deve deixar de ser vista como uma exceção e passar a fazer parte, de forma natural, da realidade das organizações.