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O Futuro começa em casa: dar acesso hoje para que a Voz das Mulheres construa o amanhã

Helena Anastácio, PEOPLE MANAGER at SHARKCODERS || Coach, Mentora & Consultora | Desenvolvimento Humano & Organizacional

Não são as mulheres que se afastam das áreas tecnológicas.
É, muitas vezes, a própria sociedade — e as próprias famílias — que o fazem, mesmo sem intenção. Desde cedo, vamos normalizando caminhos diferentes para meninos e meninas. Para eles, tecnologia, jogos, futebol, programação. Para elas, ginástica, ballet, dança, atividades que também são importantes, mas que acabam por se tornar quase exclusivas. Crescemos a achar que é “natural” que seja assim. Não é. É cultural. E é aí que começa uma diferença que só mais tarde se torna visível.

O futuro começa em casa.
Começa nas escolhas aparentemente inocentes que fazemos por quem ainda não tem voz para escolher. Começa nos estímulos que damos, nas oportunidades que abrimos — ou fechamos — sem nos darmos conta. As consequências não são imediatas, mas aparecem mais à frente: na falta de confiança, na sensação de não pertença, na ausência de mulheres em áreas onde as decisões sobre o futuro estão a ser tomadas.
Vivemos num mundo em que a tecnologia e a inteligência artificial não são uma tendência — são o novo ambiente natural. As crianças de hoje vão crescer num contexto em que pensar com tecnologia, criar soluções com recurso à IA e compreender sistemas digitais será tão básico como ler e escrever. Prepará-las para isso não é uma opção educativa. É uma responsabilidade social.
No futuro, a voz das mulheres fará a diferença.
Mas para que essa voz exista, é preciso que as mulheres estejam presentes desde a origem das soluções. Hoje, continuam a ser minoria nos espaços onde a tecnologia e a inteligência artificial são pensadas, desenhadas e construídas. Isso não é neutro. Sistemas criados sem diversidade tendem a reproduzir visões parciais do mundo. Quando as mulheres não estão representadas na criação de soluções tecnológicas, o risco é claro: o futuro acaba por ser desenhado a partir de uma perspetiva incompleta.
O que está em causa não é apenas igualdade de oportunidades no acesso a carreiras tecnológicas. É algo mais profundo: é sobre quem constrói o mundo em que todos vamos viver. A tecnologia molda decisões, comportamentos, acesso a recursos e até à forma como nos relacionamos. Se as mulheres não participam ativamente nessa construção, ficam novamente numa posição de adaptação a um sistema que não foi pensado com elas.
As escolas têm aqui um papel decisivo. Apostar em mais horas de literacia digital, pensamento computacional e contacto com tecnologia desde cedo é preparar crianças para serem adultos capazes de pensar, questionar e propor soluções inovadoras para os problemas do seu tempo. Não se trata de formar especialistas precoces, mas de formar mentes curiosas, críticas e adaptáveis num mundo cada vez mais tecnológico. Mas nenhuma escola consegue compensar totalmente aquilo que se constrói — ou se limita — no contexto familiar. A família continua a ser o primeiro espaço onde se aprende o que é permitido sonhar. Quando abrimos o acesso das meninas à tecnologia desde cedo, não estamos a empurrá-las para uma profissão específica. Estamos a dizer-lhes: este mundo também é teu. Estás autorizada a explorar, a errar, a criar, a ocupar espaço.
Ao longo do tempo, muitas mulheres constroem uma relação de distância com a tecnologia. Não por falta de inteligência, curiosidade ou capacidade estratégica, mas por uma história de pouco contacto, pouca exposição e pouca permissão interna para “não saber” e aprender. Surgem crenças como “não sou boa com tecnologia”, “isto é demasiado técnico para mim” ou “não é o meu lugar”. Estas limitações raramente refletem a realidade. São narrativas internas que se formam lentamente, alimentadas por anos de afastamento simbólico deste universo.
Quando chega o momento de lidar com plataformas digitais, inteligência artificial, automação ou criação de soluções tecnológicas, o bloqueio não está na visão ou no potencial criativo. Está na relação emocional com a tecnologia, que passa a ser vista como um território distante, reservado a especialistas. Isto gera dependência, adiamento e, em alguns casos, abandono de ideias com enorme potencial de impacto.
Estas narrativas não nascem na idade adulta. São o reflexo de um percurso mais longo, feito de estímulos que não aconteceram, de portas que não se abriram, de espaços que pareceram, desde cedo, não lhes pertencer. É por isso que a conversa sobre igualdade de oportunidades não pode começar apenas no mercado de trabalho. Começa muito antes — no acesso, na familiaridade e na confiança que se constrói na infância.
Dar acesso é dar futuro. E dar acesso é, acima de tudo, não afastar. Não afastar as crianças — e, em particular, as meninas — deste novo mundo que já não é futuro, é presente. Afastá-las hoje é limitar as suas escolhas amanhã. Aproximá-las é oferecer-lhes liberdade.
No Dia da Mulher, mais do que celebrar conquistas, talvez seja tempo de olhar para o ponto de partida. Para o que ainda estamos, muitas vezes sem intenção, a repetir. O futuro não se constrói apenas nas empresas, nos laboratórios ou nas políticas públicas. Constrói-se nos lares, nas escolas e nas narrativas internas que ajudamos a formar.
O futuro precisa da voz das mulheres.
E essa voz constrói-se muito antes de elas entrarem no mercado de trabalho. Constrói-se quando lhes damos acesso, quando lhes damos permissão e quando lhes mostramos, desde cedo, que o futuro também lhes pertence.

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