A Economia Prateada: o Futuro é Feminino e tem mais de 50 anos
Na mais recente edição da Business Voice, Sandra Pereira, Fundadora da Épicas Hub, partilha uma perspetiva poderosa e necessária sobre um tema que promete redefinir o panorama económico global: a Economia Prateada. Com uma visão lúcida e provocadora, Sandra Pereira lança o alerta — “ignorar a economia prateada é desperdiçar o maior mercado em expansão no século XXI”.
Num mundo onde o envelhecimento da população é frequentemente visto como um desafio, a Fundadora da Épicas Hub mostra que estamos, na verdade, perante uma oportunidade monumental. As mulheres com mais de 50 anos representam uma força de consumo, influência e sabedoria sem precedentes — e as empresas que souberem ouvir, compreender e cocriar com este público terão um lugar privilegiado no futuro.
Mas a nossa interlocutora é clara: não basta mudar a embalagem. O sucesso passa por uma transformação genuína, baseada em dados, empatia e propósito. É preciso desenhar produtos, serviços e experiências que realmente façam sentido para estas mulheres — que valorizam autenticidade, qualidade e significado.
Com a experiência e a paixão que caracterizam o seu percurso, Sandra Pereira desafia o mercado a olhar para além dos estereótipos, a inovar com propósito e a reconhecer que o futuro da economia é prateado… e profundamente feminino.
Na sua perspetiva, como podemos definir a Economia Prateada e por que razão ela está a ganhar tanta relevância nos últimos anos?
A Economia Prateada é tudo o que se cria e movimenta em torno das pessoas que estão a viver mais tempo e de forma mais ativa. Já não é tendência, é o presente: a população está a envelhecer, mas continua a trabalhar, a consumir e a procurar novas experiências. A Comissão Europeia estima que este mercado venha a representar mais de um terço do PIB europeu até 2050. Em Portugal, que é um dos países mais envelhecidos, temos aqui uma grande oportunidade: deixar de ver a idade como um problema e começar a encará-la como um motor de crescimento. “Prateada” lembra os cabelos brancos, mas na verdade fala de vitalidade, conhecimento e novas formas de viver e consumir.
Que fatores explicam que as mulheres com mais de 40 e 50 anos sejam hoje uma das forças mais impactantes da economia e da sociedade?
Primeiro, a longevidade feminina: vivemos mais anos e queremos vivê-los com qualidade. Segundo, o acúmulo de experiência, estas mulheres carregam décadas de competências profissionais, redes de contacto e inteligência emocional. Terceiro, a centralidade da mulher na gestão da família e do lar, que se estende à tomada de decisão de consumo. Por fim, a vontade de reinvenção: nunca tantas mulheres procuraram novas carreiras, novos negócios e até novos estilos de vida depois dos 40 e 50.
As mulheres vivem mais, reinventam-se mais e querem permanecer ativas. De que forma isso transforma o conceito tradicional de envelhecimento?
O conceito tradicional de envelhecimento estava associado à perda, à retirada e ao “fim da linha”. Hoje, estamos a redefini-lo como uma segunda juventude, mas com maturidade. Fala-se de “longevitalidade”: a vitalidade que acompanha a longevidade. Mulheres de 50 anos estão a começar maratonas, a abrir empresas, a estudar novamente, a viajar sozinhas. Este dinamismo muda a narrativa cultural, já não se trata de “sobreviver” à idade, mas de florescer nela.
Como avalia o potencial de consumo desta faixa etária — e quais os setores de mercado mais atentos (ou ainda distraídos) para este público?
O potencial é imenso: estima-se que consumidores 50+ representem 60% do consumo europeu até 2030. Em Portugal, são a maioria dos decisores de compra em áreas como alimentação, saúde, beleza, viagens e formação. Os setores mais atentos são o turismo de bem-estar, a cosmética, a saúde preventiva e a educação ao longo da vida. Mas ainda vemos distração em áreas como tecnologia (apps pouco adaptadas), entretenimento (conteúdos que não dialogam com esta faixa etária) e até moda, que ainda insiste em padrões jovens e pouco inclusivos.
Que mudanças observa no empreendedorismo feminino após os 40/50 anos? Há mais ousadia, propósito, ou até liberdade criativa?
Vejo um triplo movimento: ousadia, porque já não há tanto a perder e há muito a ganhar; propósito, porque o tempo é mais valioso e não se desperdiça em projetos sem significado; e liberdade criativa, porque estas mulheres se libertam do julgamento social. Muitas criam negócios alinhados com causas pessoais; saúde, sustentabilidade, bem-estar, educação. É uma onda empreendedora silenciosa, mas consistente, que redefine o conceito de sucesso.
Ainda existem tabus ou preconceitos sociais sobre a mulher madura no mercado de trabalho e no empreendedorismo? Como superá-los?
Infelizmente sim. Ainda se associa a mulher 50+ a menos produtividade ou menor capacidade de adaptação tecnológica. Isto é um equívoco. Estas mulheres são resilientes, flexíveis e determinadas. Para superar, precisamos de três frentes: políticas públicas inclusivas, empresas que criem programas de retenção de talento sénior, e exemplos inspiradores na comunicação social. Quanto mais histórias de reinvenção forem contadas, mais rápido se dissolvem preconceitos.
Para além da economia, como é que estas mulheres influenciam positivamente a coesão social, a cultura e até o bem-estar das próximas gerações?
Elas são guardiãs de saberes e tradições, mas também impulsionadoras de mudança. Quando uma mulher 50+ assume uma nova carreira, mostra às filhas e netas que nunca é tarde para recomeçar. Quando investe em saúde e autocuidado, influencia toda a família. Culturalmente, esta geração é ponte entre o passado e o futuro, com capacidade de integrar valores, tecnologia e humanidade.
De que forma a tecnologia pode ser uma aliada no empoderamento e integração das mulheres 50+ em novas áreas de negócio e consumo?
A tecnologia é um acelerador. Plataformas digitais permitem às mulheres 50+ vender serviços, aprender novas competências, conectar-se a comunidades globais. Mas para ser inclusiva, a tecnologia precisa ser pensada com design acessível e linguagem clara. A Épicas Hub nasceu precisamente neste espírito: unir mulheres a serviços de saúde, bem-estar, empreendedorismo e reinvenção num só espaço digital. É um exemplo de como a tecnologia pode ser ponte e não barreira.
Pode partilhar exemplos de mulheres ou projetos que simbolizem este espírito de reinvenção depois dos 50 anos?
Tenho visto dezenas de exemplos. Mulheres que, depois de décadas em empresas, abriram negócios ligados à saúde integrativa. Outras que transformaram hobbies em marcas de moda ou joalharia. Na Épicas Hub, temos parceiras que são coaches, terapeutas, mentoras, consultoras e escritoras que começaram aos 45, 50 ou até 60 anos. Todas provam que a idade não é limite, mas sim trampolim.
Que conselho deixaria às empresas que ainda não olham para a Economia Prateada como uma oportunidade estratégica?
O conselho é simples: olhem para os dados. Ignorar a economia prateada é desperdiçar o maior mercado em expansão no século XXI. As empresas que adaptarem produtos e comunicação para este público terão vantagem competitiva. Mas atenção: não basta mudar a embalagem; é preciso entender necessidades reais, cocriar com estas mulheres e oferecer soluções com significado.
Se pudesse descrever em poucas palavras o futuro das mulheres 50+, qual seria a sua visão para a próxima década?
Vejo mulheres 50+ como líderes de propósito. A próxima década será marcada por mulheres que assumem protagonismo em negócios, na política, no ativismo social, na cultura. Serão agentes de transformação, porque têm tempo, energia e vontade de deixar legado. O futuro é delas e é coletivo.
Qual foi a maior reinvenção ou mudança na sua própria trajetória depois dos 40 anos, e que lições acredita que podem inspirar outras mulheres a seguir o mesmo caminho?
A minha maior reinvenção foi criar a Épicas Hub depois de mais de 25 anos no mundo corporativo. Senti na pele a necessidade de me reinventar e percebi que não estava sozinha: havia milhares de mulheres com as mesmas dúvidas e vontade de recomeçar. Criei então uma plataforma que é comunidade, marketplace e espaço de pertença. A lição é clara: nunca é tarde para recomeçar. Reinventar-se é um ato de coragem, mas também de amor-próprio. E quando uma mulher se reinventa, inspira muitas outras a fazê-lo.