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“Sejam as Líderes que gostariam de ter tido”



Num cenário empresarial onde a diversidade se tornou sinónimo de força e visão, o papel da Mulher nos negócios ganha uma expressão cada vez mais marcante. A liderança feminina cresce, inspira e redefine padrões. É neste contexto que surge Lígia Pode, CEO da Ovargado, uma gestora que combina estratégia, sensibilidade e determinação. Nesta entrevista, exploramos o seu percurso e a forma como vê a ascensão das mulheres no mundo corporativo — um movimento que já não tem retorno e que continua a transformar empresas e lideranças.

Ao longo da sua carreira, que momento considera ter sido verdadeiramente decisivo para afirmar a sua liderança enquanto mulher num contexto empresarial ainda fortemente masculino? 
O momento mais decisivo foi, sem dúvida, a minha transição de um papel herdado para uma liderança conquistada. Cresci na OVARGADO, a empresa do meu pai, e o meu percurso começou como "punição pela rebeldia", a trabalhar nas linhas de enchimento. Cada promoção foi um degrau conquistado com suor e mérito, culminando na minha nomeação para o Conselho de Administração em 2001. No entanto, a verdadeira afirmação deu-se quando, já como CEO, liderei a reestruturação estratégica do grupo. Foi aí que a minha visão, e não o meu apelido, passou a definir a minha liderança. Tive de tomar decisões difíceis que desafiaram o status quo, e provar a mim mesma, que a minha determinação e criatividade eram os verdadeiros motores do negócio. 

Como CEO da Ovargado, de que forma procura transformar desafios em oportunidades e contagiar a sua equipa com essa visão? 
Encaro cada desafio como uma pergunta que ainda não encontrámos a resposta certa. A minha filosofia é simples: a inovação nasce da necessidade. Quando surge um obstáculo, ouço o meu conselho de gestão, absorvo diferentes perspetivas, mas depois tomo as decisões de forma solitária. Preciso de tempo para ponderar, para deixar as ideias assentarem. Não gosto de decidir sob pressão ou com pressas. Foi assim, com reflexão e tempo, que diversificámos para os setores do comércio e imobiliário. Eu sou de falar pouco. Não costumo contagiar a minha equipa com palavras, penso que é mais com a coerência entre aquilo que digo e aquilo que faço. Acredito que um líder que assume as suas decisões com convicção, mesmo quando são difíceis, inspira mais confiança do que aquele que decide por consenso para agradar a todos.

Quem foi a mulher (ou as mulheres) que mais a inspiraram ao longo da vida — e que traços dessas referências sente hoje refletidos no seu estilo de liderança? 
A minha maior inspiração, paradoxalmente, não veio do mundo empresarial, mas da minha fé. Maria Madalena, para mim, “A” mulher da Bíblia, que, com a coragem de se reinventar, a sua lealdade inabalável e a força de ser a primeira testemunha da ressurreição numa época em que o testemunho de uma mulher não tinha valor, ensinou-me que a verdadeira liderança nasce da autenticidade e da coragem de desafiar os preconceitos. Dela, trago a capacidade de transformação, a fidelidade aos meus princípios e a ousadia de ocupar espaços onde me dizem que não pertenço. A minha mãe, com a sua discrição, força silenciosa e sabedoria prática, foi também o meu pilar fundamental, ensinando-me o valor da simplicidade, do respeito e da resiliência quotidiana que não precisa de palco para ser grandiosa. 

Em algum momento sentiu que teve de provar “duas vezes mais” por ser mulher? 
Como lidou com essa pressão e que conselho daria a outras líderes que passam pelo mesmo? Senti-o não duas, mas inúmeras vezes. Mas como para mim, dor é motor, a minha resposta foi focar-me obsessivamente nos resultados, sem ligar ao resto. Deixei que os números, o crescimento da empresa e o bem-estar da minha equipa falassem por mim. Essa pressão transformou-se num motor interno para a excelência. O meu conselho a outras mulheres é: não joguem o jogo deles. Criem o vosso próprio tabuleiro. Definam as vossas próprias métricas de sucesso, baseadas na vossa visão e nos vossos valores. Sejam tão inegavelmente competentes, que o vosso género se torne uma mera nota de rodapé na vossa história de sucesso. 

Que práticas concretas implementou na Ovargado para promover igualdade, inclusão e desenvolvimento de talento feminino dentro da organização? 
Honestamente, nunca tive de "implementar" práticas específicas para promover a igualdade feminina na OVARGADO, talvez porque a empresa tem vindo a ser gerida maioritariamente por mulheres. A igualdade não é uma política que decretamos, é um princípio ativo; é algo intrínseco à nossa cultura desde quase a sua génese. Quando a liderança feminina é a norma e não a exceção, não há necessidade de criar programas especiais. O que fazemos é pautar-nos por valores de respeito, lealdade e equidade nas nossas relações internas, independentemente do género. Valorizamos um ambiente que favoreça o desenvolvimento de carreiras e relações de longa duração.

O que considera ser o maior mito sobre liderança feminina — e como o desconstrói através da sua forma de liderar? 
O maior mito é que a liderança feminina é inerentemente mais "suave" ou "emocional". É uma simplificação perigosa. A minha liderança é, sim, sensível aos problemas dos outros, mas é igualmente determinada e focada em objetivos, e, acima de tudo, no respeito. Desconstruo este mito todos os dias ao tomar decisões difíceis com a mesma firmeza que demonstro empatia. Acredito numa liderança integral, que combina a inteligência emocional com a acutilância estratégica. A força não está na ausência de emoção, mas na capacidade de a canalizar para um propósito maior. 

Quando olha para o futuro, que papel acredita que as mulheres líderes terão na transformação das empresas e da sociedade? 
Acredito que as mulheres líderes serão as arquitetas de um novo paradigma empresarial: mais sustentável, inclusivo e humano. Um paradigma onde o sucesso se mede pelo impacto positivo na vida das pessoas, das sociedades e do planeta, não apenas pelo lucro. A nossa capacidade de liderar com empatia, visão de longo prazo e propósito será decisiva para transformar as empresas e a sociedade. 

Que mensagem gostaria de deixar às jovens profissionais que ambicionam assumir cargos de direção, mas que ainda sentem receios ou barreiras invisíveis? 
A minha mensagem é: abracem a vossa rebeldia. Questionem o status quo. Não peçam permissão para inovar. O vosso percurso não será uma linha reta; será sinuoso, com avanços e recuos. Haverá momentos de dúvida e solidão. Nesses momentos, lembrem-se da vossa força interior e do vosso propósito. Construam uma rede de apoio sólida, com outras pessoas que vos inspirem e desafiem. E, acima de tudo, nunca percam a vossa autenticidade. O mundo não precisa de mais imitações de líderes masculinos. Precisa da vossa voz, da vossa visão, da vossa coragem. Sejam as líderes que gostariam de ter tido. O futuro está à vossa espera para ser escrito. 

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