“Quando existe uma vontade genuína de avançar, as possibilidades estão em Nós”
Há conversas que não começam com um currículo, mas com uma pergunta silenciosa que muitas mulheres carregam: “E agora, para onde vou?”
Foi a partir desse ponto que recebemos Claudia Gesto na Business Voice.
Coach de Carreira, especializada em transições profissionais no feminino, trabalha com mulheres com mais de 40 anos que, apesar de percursos sólidos, sentem que algo já não encaixa. Mais do que mudar de emprego, ajuda-as a reencontrar direção, propósito e confiança — com leveza, sem culpa e sem rótulos. Nesta conversa, Cláudia Gesto partilhou o seu próprio trajeto, feito de escolhas, desvios e reencontros, e refletiu connosco sobre o significado do Dia Internacional da Mulher, não como uma data simbólica apenas, mas como um convite à ação consciente, ao autocuidado e à coragem de recomeçar. Uma entrevista sobre carreira, sim — mas sobretudo sobre tempo, identidade e a liberdade de escolher um novo caminho, mesmo quando o mundo acha que já devia estar tudo decidido.
A sua carreira foi construída num mundo empresarial ainda marcado por lideranças masculinas. Que desafios enfrentou enquanto mulher e que aprendizagens transformaram esses obstáculos em força?
A minha carreira desenvolveu-se num contexto exigente, onde cedo percebi que ser vista e ouvida depende de como nos posicionamos, comunicamos e assumimos responsabilidade. Os desafios foram claros: fazer valer a minha palavra, conquistar espaço nos processos de decisão e assumir funções de maior responsabilidade.
Aprendi que, quando existe uma vontade genuína de avançar, as possibilidades estão em nós. Nem sempre da forma mais direta, nem à primeira tentativa. Muitas vezes é preciso ajustar a estratégia, afinar a comunicação e testar novas abordagens. Esse compromisso comigo própria levou-me, durante muito tempo, a colocar a profissão à frente de mim, uma consequência que - na altura - não questionei.
A chave foi deixar de procurar validação externa e começar a assumir espaço com naturalidade. A minha voz passou a ser sustentada por argumentos claros, resultados concretos e experiência no terreno. A postura tornou-se mais firme, a comunicação mais direta e a presença mais consistente.
Sempre atuei com identidade própria, colocando-me ao nível dos meus pares, porque acredito que competência, clareza e responsabilidade são universais, e é a partir desse lugar que se constrói uma liderança sólida e respeitada.
Hoje dedica-se a ajudar outras mulheres a transformarem a própria vida. Em que momento percebeu que o seu propósito ia além do sucesso profissional individual? Houve um “ponto de viragem”?
Tudo começou quando tomei consciência de que, apesar de resultados objetivamente positivos, saía do escritório angustiada. O entusiasmo e o sentido já não estavam lá. Havia sucesso visível, mas uma clara falta de propósito interior.
Houve um momento específico em que senti que tudo colapsava. Pensei em mudar de empresa e, ao atualizar o meu CV, tive um verdadeiro click: não havia nada de errado com a organização. O desalinhamento era comigo: já não me via a fazer o que fazia, independentemente do contexto.
Foi aí que compreendi a diferença entre cansaço passageiro e querer mais da vida. O cansaço alivia com descanso; o desalinhamento não. Quando, mesmo após uma pausa, a sensação persiste; quando o desejo não é apenas mudar, mas alinhar o que fazemos com quem somos - estamos perante algo mais profundo.
Foi nesse lugar que decidi apoiar mulheres que, como eu, passaram anos a gostar do que faziam e que, de repente, deixaram de se reconhecer no papel que tinham. Mulheres que não estão perdidas, mas desligadas de si próprias, e que querem sair do piloto automático para construir uma vida profissional com mais sentido, impacto e realização.
Muitas mulheres sentem que “têm de aguentar”. Que crenças limitadoras mais encontra e como se desmontam na prática?
As crenças mais comuns que encontro no meu trabalho como coach de carreira são: medo de desiludir, receio de trocar o certo pelo incerto, culpa por pensar em si e por se colocar no centro das decisões. A isto junta-se, quase sempre, uma quebra de confiança: “não consigo”, “não estou preparada”.
Não se trata de falta de competência. Pelo contrário, muitas das minhas clientes chegaram a posições executivas confiando em si ao longo do percurso. O que acontece é que, quando surge o desejo de mudança, essa confiança fica temporariamente ofuscada.
O meu trabalho começa por lhes ajudar a trazer essa confiança de volta ao centro. Relembrar recursos internos utilizados em decisões importantes do passado ajuda a perceber que a força já existe. Técnicas de PNL e exercícios de reflexão permitem reconectar essa confiança, tornando-a acessível.
É a partir daí que começa o verdadeiro realinhamento profissional. Não se elimina o medo, mas se avança com clareza, consciência e intenção.
No seu entendimento, o que ainda impede tantas mulheres competentes de ocupar cargos de decisão e liderança?
Hoje vemos cada vez mais mulheres em cargos de decisão, mas, na maioria dos casos, esse percurso exigiu demasiado esforço. O que muitas vezes limita não é a falta de oportunidades ou de confiança, mas a ausência de apoio para conciliar os diferentes “chapéus” que cada mulher assume: carreira, família, filhos, casa.
Exigências profissionais, como viagens ou projetos de longa duração, tornam-se mais complexas de gerir quando se é mãe. Embora existam exceções, trata-se de um desafio estrutural que evolui lentamente e que poderá levar gerações a encontrar um equilíbrio mais estável.
Reconhecer esta realidade não é resignar-se. É, antes, assumir uma posição consciente sobre a própria trajetória, criando condições para gerir carreira e vida pessoal de forma alinhada com as prioridades de cada fase.
Fala-se muito de empoderamento feminino, mas pouco de ferramentas concretas. Quais ferramentas são essenciais para uma mulher que quer mudar de vida ou assumir controlo do futuro?
O empoderamento, por si só, não chega. O que faz realmente a diferença são ferramentas concretas.
Tudo começa pela consciência: identificar medos, crenças limitadoras e desalinhamentos. Seguem-se as ferramentas internas: confiança, autoconhecimento e gestão emocional. Reconectar com a confiança e clarificar os valores atuais é essencial para qualquer mudança sustentada.
Depois entram as ferramentas práticas: planeamento estratégico, rede de apoio e experimentação gradual. Não se trata de empoderamento abstrato, mas de agir com confiança, clareza e intenção, construindo uma carreira e uma vida alinhadas com quem somos hoje.
Ao longo do seu percurso, que papel teve o equilíbrio entre vida pessoal e profissional — e que mensagem deixa às mulheres que se sentem culpadas por escolherem a si próprias?
Durante muitos anos, dediquei-me quase exclusivamente à profissão. A chegada da minha filha trouxe uma nova perspetiva sobre prioridades e presença, e levou-me a questionar esse desequilíbrio.
Hoje, para mim, equilíbrio não é fazer tudo perfeito, mas escolher conscientemente onde investir tempo e energia. É ouvir o corpo, respeitar momentos de descanso, colocar limites e dizer “não” ao que nos afasta do essencial.
Esse equilíbrio é dinâmico e contínuo. Cada nova fase – a chegada de um filho, um novo emprego, uma etapa diferente da vida - exige ajustes no ecossistema.
Às mulheres que se sentem culpadas por escolherem a si próprias, deixo uma mensagem clara: colocar-se no centro das decisões não é egoísmo, é parte do equilíbrio necessário para viver bem. É a nossa máscara de oxigénio: se não respiramos, como podemos estar verdadeiramente presentes para os outros?
Se pudesse falar diretamente com a Claudia Gesto do início da carreira, que conselho lhe daria hoje?
Diria apenas: “Volta a fazer tudo igual, para seres quem és hoje”. Não por ter feito tudo bem, mas porque cada escolha, desafio, erro e vitória moldaram a pessoa e a profissional que sou hoje.
Aprendi que não há atalhos para o crescimento. Cada experiência, mesmo as mais exigentes, contribuiu para a clareza, a confiança e a determinação que hoje reconheço em mim - algo que sublinho também na trajetória de cada cliente com a que trabalho.
No Dia Internacional da Mulher, que mudança real gostaria de ver nas empresas, na sociedade e na forma como as mulheres se veem a si próprias?
Gostaria que cada mulher se visse com poder e legitimidade para construir a vida e a carreira que deseja, sem se comparar com os outros,
Nas empresas, gostaria de ver mais apoio em fases determinantes, como a maternidade ou as transições papar outras funções, permitindo que as mulheres assumam desafios sem sacrificar outras áreas da vida.
Na sociedade, desejo uma mudança subtil e profunda: mais responsabilidade pessoal, empatia e respeito pelas escolhas individuais. Que cada mulher sinta que pode decidir, avançar e ajustar o caminho com clareza, sem precisar da validação externa.
No fundo, que cada mulher se reconheça no centro da própria vida, com confiança, liberdade de decisão e clareza sobre o que realmente importa.
Para fechar, se esta entrevista te tocou de alguma forma, a conversa pode continuar. No QR Code encontras um caminho para falares comigo e olhares para a tua carreira com mais clareza e intenção.
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