“O traço que mais me Inspira é a capacidade de continuar”
No âmbito do Dia Internacional da Mulher, conversámos com Joana Videira, Psicóloga Clínica, sobre as pressões invisíveis que continuam a recair sobre as mulheres — sobretudo no plano emocional. Entre expectativas de desempenho, perfeição e autocontrolo constante, muitas crescem a acreditar que falhar ou cansar é sinal de fraqueza.
Para Joana Videira, é urgente romper com esse modelo irreal e pesado: “As mulheres precisam de desaprender, com urgência, a ideia de que têm de ser perfeitas e emocionalmente estáveis o tempo todo. Não estar sempre bem não é uma falha.” Uma reflexão que convida à empatia, ao autocuidado e a uma vivência mais humana — onde sentir, parar e pedir ajuda também são atos de força.
Se a sua história enquanto mulher pudesse ser resumida numa emoção que foi mudando ao longo do tempo, qual seria essa emoção hoje — e o que a transformou? Se tivesse de resumir a minha história enquanto mulher numa emoção, diria resiliência.
Não como um conceito abstrato, mas como algo vivido e construído ao longo do tempo. A resiliência nasceu das experiências que fui vivendo, sobretudo nas relações interpessoais, que me desafiaram a adaptar-me, a rever expectativas e a encontrar novas formas de estar comigo e com os outros. Isso não significa ausência de medo. Pelo contrário, o medo continua presente, especialmente perante o que é novo ou desconhecido. Mas, com o passar do tempo, aprendi a não o deixar decidir por mim. Aprendi que a coragem não é a eliminação do medo, mas a capacidade de avançar apesar dele, mesmo que seja devagar. Esta transformação foi, e continua a ser, um processo profundo de autodescoberta, sustentado por terapia e por uma tomada de consciência dos meus próprios padrões. Olhar para eles com honestidade, ressignificá-los e trabalhar ativamente sobre o que me limita, permitiu-me construir uma mudança, mais consistente e duradoura.
Enquanto psicóloga clínica, acompanha muitas mulheres em processos de dor, crescimento e reconstrução. O que é que ser mulher lhe ensinou que nenhum manual de psicologia alguma vez poderia ensinar?
Como mulher, a partir das minhas próprias experiências e da minha formação, comecei a compreender que a experiência de cada mulher precisa de ser olhada como um todo e que as emoções não seguem processos lineares. Nenhum manual de psicologia me ensinou verdadeiramente a ser empática com a dor do outro, a escutá-la de forma ativa ou a tentar compreender o mundo interno a partir do lugar de quem o vive. Foi nesse caminho que passei a reconhecer como o peso das expectativas sociais, a exigência constante e a culpa associada à escolha de si mesmas moldam profundamente a forma como muitas mulheres se sentem, e como isso, tantas vezes, as adoece. Ser mulher ensinou-me também que a dor nem sempre é visível ou verbalizada. Muitas vezes, ela instala-se de forma silenciosa e acaba por ser normalizada ao longo do tempo. Os sofrimentos são minimizados, tanto por quem os experiencia como por quem os observa, porque passam a ser vistos como “parte” daquela mulher. Aprendi que olhar para essa dor, reconhecê-la e validá-la, antes mesmo de a tentar transformar, pode ser um dos atos terapêuticos mais profundos. Acima de tudo, ser mulher ensinou-me que a mudança acontece quando existe um espaço seguro: para falhar, para duvidar, para sentir ambivalência, para não saber. A psicologia oferece-nos ferramentas, enquadramentos e teoria; ser mulher deu-me sensibilidade, escuta e consciência de que cada processo é único. É nessa interseção entre o conhecimento técnico e a experiência humana que acredito que a verdadeira reconstrução acontece.
Houve algum momento na sua carreira em que sentiu que teve de ser “mais” — mais forte, mais competente, mais resiliente — apenas por ser mulher? Como lidou com isso?
Houve e continuam a existir vários momentos, ao longo do meu percurso profissional, em que senti a necessidade de ser “mais “. Não apenas por ser mulher, mas pela responsabilidade que carrego de ser um exemplo para cada mulher que tem acesso ao meu trabalho. Sou bastante perfeccionista e procuro oferecer a melhor resposta possível a cada mulher que passa por mim. No início, ser “mais” significava provar o meu valor aos outros, hoje significa ser eu mesma com ética e autenticidade. Tenho aprendido a reconhecer os meus próprios limites, a pedir ajuda e a compreender que a vulnerabilidade é, muitas vezes, aquilo que nos conecta. Ao ocupar o meu lugar, acredito que abro caminho para que outras mulheres não sintam que precisam de ser sempre “mais” para serem suficientes, então esse esforço ganha um significado transformador.
No seu dia a dia profissional, onde sente que ainda existe um conflito silencioso entre o papel da mulher e as exigências do sucesso profissional?
O maior conflito silencioso, no meu dia a dia profissional, passa por conciliar a disponibilidade constante com o autocuidado. Ainda existe a expectativa de que a mulher seja competente, empática e produtiva, sem espaço para falhas ou descanso. É esperado que consiga dar resposta a tudo, a todo o momento, mesmo quando isso se torna pesado. Com o tempo aprendi a dizer “não” e a reconhecer até onde consigo ir, algo que se revelou fundamental para o meu equilíbrio. Aquilo que inicialmente era interpretado como fraqueza, agora entendo como maturidade profissional, pois torna-me mais consciente e disponível para mim e para os outros.
Se pudesse sentar-se frente a frente com a Joana Videira do início da carreira, que crença limitadora sobre si própria lhe pediria para abandonar imediatamente?
Dir-lhe-ia para abandonar imediatamente a crença de que não era suficientemente segura ou competente. Com a consistência e o conhecimento iria desenvolver mais capacidades do que imagina. A autoconfiança não viria antes da experiência, mas construir-se-ia com ela.
A saúde mental feminina continua, muitas vezes, rodeada de culpa, silêncio e autoexigência. O que é que, na sua opinião, precisa urgentemente de ser desaprendido pelas mulheres?
As mulheres precisam de desaprender, com urgência, a ideia de que têm de ser perfeitas e emocionalmente estáveis o tempo todo. Não estar sempre bem não é uma falha. Há momentos de tristeza, frustração ou ansiedade que fazem parte e que têm de ser sentidos. O mais importante é aprender a lidar com essas emoções de forma mais adaptativa, sem culpa e sem autojulgamento constante. As mulheres não precisam de estar sempre a duvidar de si próprias. Com consistência, tempo e autocompaixão, é possível construir equilíbrio emocional sem exigências irreais.
Como formadora, que traço psicológico ou emocional observa nas mulheres que mais a inspira — mesmo quando elas próprias ainda não o reconhecem?
O traço que mais me inspira é a capacidade de continuar, mesmo quando tudo parece não estar a funcionar. Vejo muitas mulheres que, apesar da exaustão e da dúvida, continuam a procurar ajuda, não por fraqueza, mas pelo desejo genuíno de crescer, por si e por tudo o que as rodeia. Mesmo quando ainda não o reconhecem, revelam pensamento crítico, capacidade de reflexão e uma coragem silenciosa para se questionarem e transformarem. É essa força discreta que mais me inspira.
No Dia Internacional da Mulher, se tivesse de deixar uma pergunta (e não uma resposta) às mulheres que a estão a ler, qual seria essa pergunta?
Quando foi a última vez que se permitiram fazer algo que realmente vos apaixona e vos faz sentir vivas?