“Cada Mulher é Única e Especial”
No silêncio atento de um consultório — físico ou virtual — começam revoluções que o mundo raramente vê. Não têm megafone, não ocupam manchetes, não pedem palco. Mas mudam destinos. No Dia Internacional da Mulher, escolhemos celebrar uma dessas revoluções íntimas e transformadoras pela voz de Eduarda Figueiras — Psicóloga e Fundadora de um projeto clínico que tem vindo a crescer de forma sustentada, equilibrando a profundidade da prática presencial com a amplitude do acompanhamento online.
Num tempo em que a saúde mental deixou de ser um sussurro para se tornar urgência coletiva, Eduarda Figueiras construiu mais do que uma clínica: criou um espaço de escuta, consciência e reconstrução. A sua trajetória é marcada por uma visão contemporânea da psicologia — acessível, ética, humanizada — onde a tecnologia não substitui o vínculo, mas amplia-o. Esta não é apenas uma conversa sobre percursos profissionais. É uma reflexão sobre liderança feminina na área da saúde, sobre coragem emocional num mundo acelerado e sobre o papel transformador das mulheres que cuidam, orientam e desafiam narrativas. No Dia Internacional da Mulher, damos voz a uma psicóloga de prestígio cuja prática nos lembra que a verdadeira mudança começa sempre por dentro — mas nunca fica só lá.
O Dia Internacional da Mulher é um momento de reflexão, mas também de ação. Na sua perspetiva, o que ainda precisa de mudar em Portugal para que a igualdade de género seja uma realidade efetiva, e não apenas simbólica?
No dia 8 de março é assinalado o Dia Internacional da Mulher. Não é apenas neste dia, mas sim em todos os outros que nos devemos lembrar que a igualdade de género não pode ser apenas simbólica, tem de ser sim uma prática diária. Em Portugal, apesar dos avanços nos últimos anos, ainda persistem desigualdades que exigem ação. Por exemplo, a nível salarial e da segregação profissional as mulheres continuam a ser penalizadas e continuam a acumular a maior parte de tarefas doméstico e de cuidados, o que de certa forma as pode limitar na progressão da carreira profissional. Além disso, a violência de género continua a ser um problema grave na nossa sociedade, o que exige atuar para prevenir estas situações, por exemplo, através de campanhas que expliquem o que é violência psicológica, emocional, social; mais formação e campanhas de sensibilização para que profissionais e restante população esteja munida de ferramentas para reconhecer sinais de risco; apoio acessível e rápido para quem está numa relação abusiva e políticas que protejam as vítimas e impeçam a repetição do ciclo de violência. Apesar de já serem feitos alguns avanços, ainda há relativamente poucas mulheres em posições de liderança, o que mostra que não basta termos leis é necessário mudar as mentalidades dentro das organizações. Desde cedo, os estereótipos de género influenciam aquilo que rapazes e raparigas escolhem fazer no futuro, criando desigualdades que se mantêm ao longo da vida. Para que a igualdade seja realmente alcançada, é essencial que existam políticas públicas contínuas em vez de ações isoladas como por exemplo no Dia Internacional da Mulher.
Que características e competências das mulheres líderes considera ainda subvalorizadas e de que forma a sua valorização poderia transformar as organizações e a sociedade?
As mulheres líderes apresentam muitas competências que podem ser impactantes e que apesar de por vezes serem reconhecidas, por outras vezes continuam a ser subvalorizadas. Quando estas capacidades são valorizadas, o impacto pode ser transformador. As competências frequentemente subvalorizadas são, por exemplo a capacidade de promover uma liderança colaborativa, isto é, muitas mulheres têm uma forte capacidade de criar ambientes de trabalho cooperativos, onde as equipas se sentem ouvidas e envolvidas. Esta forma de liderar aumenta a motivação e reduz os conflitos; comunicar de forma empática, ou seja, comunicar com clareza, compreender diferentes perspetivas e criar relações de confiança é essencial para qualquer organização; gerir emoções com resiliência, integrar uma visão inclusiva e socialmente consciente e organizar múltiplas tarefas com grande eficiência. Quando estas qualidades são reconhecidas e valorizadas, as organizações são capazes de promover culturas de igualdade e de gerar impacto social positivo.
A saúde mental continua a ser um tema rodeado de estigmas. Acredita que esse estigma afeta de forma diferente mulheres e homens? De que forma?
O estigma em torno da saúde mental afeta tanto mulheres como homens embora de formas diferentes. As expectativas sociais e os papéis de género fazem com que cada grupo enfrente desafios diferentes, mas igualmente impactantes e isso molda a forma como cada um reconhece, expressa e procura ajuda para os problemas emocionais. Por exemplo, as mulheres são, muitas vezes, vistas como mais “sensíveis”, o que faz com que os seus problemas de saúde mental sejam, por vezes, desvalorizados. Nestas podem ser mais facilmente identificados sintomas de ansiedade ou depressão, mas como referi anteriormente tendem a ser vistos como “normais” ou esperados, o que pode atrasar diagnósticos adequados. Os homens crescem por vezes no seio de famílias cujo ideia é que devem ser fortes, controlar as emoções e “aguentarem-se” e isto faz com que tenham mais dificuldade em admitir o sofrimento emocional e procurem ajuda muito mais tarde, quando a situação já está agravada. Os sinais de sofrimento tendem a estar mais relacionados com irritabilidade, agressividade ou abuso de substâncias e muitas vezes não são reconhecidos como problemas de saúde mental. As mulheres tendem também a ter mais sobrecarga emocional. As mulheres acumulam frequentemente responsabilidades profissionais, familiares e emocionais, o que aumenta o risco de burnout e ansiedade. No entanto, esta sobrecarga é muitas vezes invisível e pouco valorizada pela sociedade.
As mulheres acumulam, muitas vezes, múltiplos papéis — profissionais, familiares e sociais. Que impacto tem esta sobrecarga na saúde mental feminina e como pode ser prevenida?
A sobrecarga de papéis que muitas mulheres acumulam (trabalho, família, cuidados, tarefas domésticas e responsabilidades sociais) tem um impacto real e profundo na sua saúde mental. Compreender isso é essencial para prevenir o desgaste emocional das mesmas sobretudo quando vivemos numa sociedade que valoriza a multiplicidade de tarefas. Mas a verdade é que quando uma mulher tenta responder a todas estas exigências ao mesmo tempo, o cansaço extremo, a ansiedade, o stress e a sensação de culpa por “nunca chegar a tudo” começam a aparecer e começam a trazer consequências danosas para o seu bem-estar psicológico e emocional. Esta pressão contínua pode levar ao burnout, à perda de autoestima e à ideia de que é preciso ser “forte” o tempo todo, o que atrasa o pedido de ajuda. A prevenção passa por várias frentes. No contexto familiar, é fundamental dividir tarefas e responsabilidades de forma justa, para que o peso não recaia sempre sobre a mesma pessoa. No contexto laboral, as políticas devem promover a flexibilidade, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e ambientes que não penalizem quem cuida da família fazem uma enorme diferença. Contudo, a nível social também há um grande trabalho a fazer, é importante combater a ideia de que as mulheres “têm de dar conta de tudo”, promovendo a ideia de que as mulheres também têm o direito e o dever de terem tempo para o autocuidado, descanso e apoio emocional, seja através de redes de suporte, terapia ou simplesmente tempo pessoal.
Para terminar, que mensagem gostaria de deixar às mulheres que, hoje, se sentem cansadas, invisíveis ou em dúvida sobre o seu valor pessoal e profissional?
A mensagem que eu gostaria de deixar às mulheres que se sentem cansadas, invisíveis ou em dúvidas sobre o seu valor pessoal e profissional é que quando se sentem exausta ou postas de lado, para se lembrarem de que o seu valor não desaparece só porque o mundo, por vezes, não o reconhece. O que fazem e o que carregam não é pequeno, nem banal, nem substituível. E é precisamente essa capacidade de resiliência, mesmo quando tudo pesa, que revela a coragem de cada uma de nós. Quero acrescentar que nenhuma mulher é invisível: cada mulher é única e especial. E mesmo que hoje duvidem de vocês, isso não diminui tudo o que já construíram e tudo o que ainda têm para oferecer. Permitam-se descansar, pedir apoio, dizer “basta” quando for preciso. O valor de cada uma de nós não depende do ritmo que conseguimos manter, mas da pessoa que somos e essa, mesmo nos dias difíceis, continua inteira e profundamente digna de respeito, reconhecimento e cuidado.