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Mais do que Advogada: Uma Mulher que Inspira, Lidera e Transforma

Num universo historicamente marcado por desafios, exigência e afirmação constante, há mulheres que não apenas conquistam espaço — redefinem-no. Na advocacia, onde a voz, a resiliência e a liderança caminham lado a lado, a presença feminina deixou de ser apenas representativa para se tornar verdadeiramente transformadora.
Susana Canêdo é um desses exemplos. Advogada e Fundadora da Susana Canêdo – Advogada, construiu o seu percurso com determinação, visão e autenticidade, afirmando-se como uma referência de liderança feminina num setor cada vez mais desafiante e competitivo.
Nesta entrevista, damos destaque a uma Mulher que inspira pela forma como lidera, enfrenta desafios e eleva o papel da Mulher na advocacia moderna — provando que liderança não é apenas ocupar um lugar de destaque, mas abrir caminho para que outras mulheres também possam chegar mais longe.

O Direito é muitas vezes uma escolha vocacional marcada por propósito e influência pessoal. Como começou o seu percurso nesta área e que momentos ou inspirações foram determinantes para a levar a tornar-se advogada?
Sei que soa a cliché daqueles que quase pedem uma música épica de fundo mas a verdade é que a vocação para a advocacia nasceu em mim muito cedo. Ainda antes de perceber exatamente o que fazia um advogado, já sentia uma inquietação quase instintiva perante injustiças, daquelas que nos fazem franzir o sobrolho e pensar: “isto não está certo… alguém tem de fazer alguma coisa.” E, pelos vistos, esse “alguém” acabei por ser eu.
O meu percurso no Direito não foi, por isso, um acaso nem uma escolha de última hora. Foi uma construção progressiva, alimentada por essa necessidade de compreender regras, questionar decisões e, sobretudo, defender posições com fundamento. Havia também uma certa inclinação que hoje reconheço como sintoma precoce de advogada para argumentar até ao limite do razoável (e, em alguns casos, um pouco para além dele).
Mais tarde, já num contexto académico, essa vocação ganhou forma e direção. O Direito deixou de ser apenas uma intuição e passou a ser uma ferramenta concreta: um meio para intervir, para proteger, para equilibrar. Foi nesse momento que percebi que não se tratava apenas de “gostar de discutir”, mas de querer fazer a diferença na sociedade de forma séria e estruturada.
Entre os momentos determinantes, destaco não apenas os sucessos, mas também os desafios. Porque é precisamente nesses momentos quando a solução não é evidente e a responsabilidade pesa que se percebe se estamos no caminho certo. E, curiosamente, quanto mais exigente era o cenário, mais clara se tornava a certeza de que era aqui que queria estar.
As inspirações foram várias, algumas vindas de referências profissionais, outras de experiências pessoais, mas todas convergiram num ponto essencial: a convicção de que o Direito, quando bem exercido, é um instrumento poderoso de justiça. Não uma justiça abstrata ou distante, mas uma justiça concreta, que impacta vidas reais, decisões reais e futuros reais.
Hoje, esses valores mantêm-se inalterados. A necessidade de fazer a diferença na sociedade e o compromisso com uma sociedade mais justa não são apenas ideias bonitas para discursos institucionais são princípios que orientam, todos os dias, o exercício da minha profissão. Com a diferença de que agora, em vez de apenas sentir que algo “não está certo”, tenho as ferramentas e a responsabilidade de agir sobre isso.
E, no fundo, talvez seja isso que define verdadeiramente este percurso: a passagem da indignação à ação com método, com rigor e, sempre que possível, com um toque de bom humor, porque até no Direito convém não levar tudo demasiado a sério… exceto, claro, aquilo que realmente importa.

Ao longo do seu caminho profissional, quais foram os maiores desafios que enfrentou enquanto mulher no setor jurídico e de que forma esses obstáculos contribuíram para moldar a sua liderança?
Ao longo do meu percurso profissional, houve desafios alguns esperados, outros nem tanto mas talvez o maior tenha sido, no início, algo tão simples quanto isto: fazer-me ouvir e levar a sério num meio onde, muitas vezes, a experiência ainda é confundida com autoridade absoluta… e a juventude com um certo “vamos ver no que isto dá”.
Quando comecei na advocacia, não foi fácil marcar uma posição e deixar uma marca individual. A construção dessa “pegada” profissional não acontece por decreto, nem por se ter um cartão da ordem na carteira exige tempo, consistência e, sobretudo, resiliência. É um processo silencioso, feito de muitas pequenas provas superadas, de credibilidade conquistada caso a caso, cliente a cliente. E, sejamos honestos, não há atalhos elegantes para isso.
Enquanto mulher no setor jurídico, o desafio nem sempre é explícito ou declarado. Muitas vezes, manifesta-se em detalhes subtis: numa interrupção ligeiramente mais frequente, numa dúvida inicial sobre a tua autoridade, ou naquela sensação de que tens de provar um pouco mais e um pouco melhor só para chegar ao mesmo ponto. Nada de dramático, mas suficientemente constante para exigir uma dose extra de firmeza.
Com o tempo, percebi que essa construção não é um destino fechado, mas um caminho em permanente evolução. A tal “marca” nunca está verdadeiramente concluída está sempre a ser afinada, consolidada, desafiada. E talvez seja precisamente isso que a torna mais autêntica.
Quanto à forma como esses desafios moldaram a minha liderança, diria que contribuíram para algo essencial: a consciência de que liderar não é impor presença, mas afirmar valores. Não existe uma receita secreta se existisse, os advogados provavelmente já a teriam transformado num contrato com cláusulas bem definidas mas acredito que há dois ingredientes base que fizeram toda a diferença no meu percurso.
O primeiro é a persistência. Aquela capacidade de continuar, mesmo quando o reconhecimento tarda, quando os resultados não são imediatos ou quando o caminho parece mais exigente do que o previsto. A persistência é, no fundo, uma espécie de teimosia bem aplicada e, no Direito, costuma dar bons resultados.
O segundo é a verticalidade moral no exercício da profissão. Num contexto onde a pressão pode ser elevada e as decisões têm impacto real na vida das pessoas, manter uma linha ética clara não é apenas desejável é indispensável. Essa coerência, ao longo do tempo, acaba por ser um dos pilares mais sólidos de qualquer liderança.
Hoje, olho para esses desafios não como obstáculos, mas como elementos estruturantes do percurso. Foram eles que ajudaram a definir não apenas a profissional que sou, mas também a forma como lidero, comunico e tomo decisões. E, no fim do dia, se há algo que a advocacia ensina com ou sem humor é que a consistência acaba sempre por falar mais alto do que qualquer discurso bem ensaiado.

A liderança feminina tem vindo a ganhar espaço, mas continua a enfrentar barreiras estruturais. Na sua perspetiva, o que ainda precisa de mudar no universo jurídico para que exista uma verdadeira equidade?
A liderança feminina no universo jurídico já percorreu um caminho significativo e, felizmente, em Portugal, a diferença de géneros na profissão não é hoje tão evidente como foi noutras décadas. Em muitos contextos, a competência já se sobrepõe claramente ao género, o que é, por si só, um sinal de evolução. Ainda assim, dizer que a equidade está plenamente alcançada seria, no mínimo, otimista.
Na minha perspetiva, o que ainda precisa de mudar não passa tanto por criar novos discursos, mas por consolidar práticas. Persistem algumas barreiras estruturais mais subtis, muitas vezes enraizadas em hábitos antigos ou em perceções que demoram mais tempo a desaparecer. Arrisco dizer com o devido respeito pelas exceções, que felizmente existem que nas gerações mais velhas ainda subsistem algumas reservas quanto ao sucesso da mulher na advocacia. Nada de ostensivo, mas por vezes presente naquela hesitação inicial ou naquela surpresa desnecessária perante o desempenho feminino em contextos de maior exigência.
Dito isto, também é importante reconhecer que essa diferença tem vindo a reduzir-se de forma consistente. E essa redução não se faz por decreto nem por boas intenções: conquista-se todos os dias. Conquista-se com resultados, com trabalho sólido, com consistência e, acima de tudo, com uma postura assertiva no exercício da profissão. Porque, no final, o Direito tem uma particularidade interessante pode até haver perceções iniciais, mas os resultados tendem a falar mais alto.
A imposição de um estilo assertivo, claro e tecnicamente competente é, hoje, uma das formas mais eficazes de ultrapassar qualquer resistência residual. Não se trata de imitar modelos existentes, mas de afirmar uma identidade própria, com segurança e coerência. E acredito que isso aplica-se a qualquer profissional, independentemente do género embora, historicamente, tenha sido um desafio mais exigente para as mulheres.
O que ainda precisa de mudar, então? Talvez menos foco em “abrir portas” de forma simbólica e mais em garantir que, uma vez abertas, essas portas permanecem verdadeiramente acessíveis em termos de progressão, reconhecimento e liderança. A equidade não se mede apenas na entrada na profissão, mas sobretudo na evolução dentro dela.
Creio, o caminho está longe de estar concluído, mas também já não estamos no ponto de partida. E se há algo que a prática diária demonstra é que a equidade não se impõe apenas com discursos constrói-se, caso a caso, decisão a decisão, com resultados que acabam por tornar irrelevante aquilo que, durante demasiado tempo, foi considerado determinante. E isso, convenhamos, é provavelmente o argumento mais convincente que qualquer advogado pode apresentar.

Que características considera essenciais numa mulher líder hoje e de que forma essas qualidades podem influenciar positivamente equipas, organizações e a sociedade?
Uma mulher líder hoje tal como qualquer líder digno do nome não é definida por um conjunto exótico de características raras, mas por algo bem mais exigente: consistência entre aquilo que diz, aquilo que faz e aquilo que permite. Porque, no final, as equipas não procuram discursos inspiradores em modo permanente; procuram referências claras.
E é precisamente aí que entram os elementos essenciais. As equipas esperam valores daqueles que não mudam consoante a conveniência do dia. Esperam segurança, não no sentido de infalibilidade (isso seria pedir demasiado, até para os mais otimistas), mas na capacidade de decidir, assumir e corrigir quando necessário. Esperam visão, porque ninguém gosta de trabalhar apenas para “apagar fogos”. E, sobretudo, esperam justiça. Justiça na distribuição de oportunidades, no reconhecimento do mérito e, claro, na gestão de erros que, como sabemos, são sempre mais toleráveis quando acontecem aos outros.
Estes ingredientes não são exclusivos de uma liderança feminina nem masculina são, simplesmente, indispensáveis a qualquer liderança que pretenda ser levada a sério. No entanto, quando estão bem presentes, têm um impacto particularmente positivo: criam equipas mais coesas, organizações mais estáveis e ambientes de trabalho onde a confiança não é uma palavra decorativa, mas uma prática diária.
Agora, convém não cair na tentação de romantizar. Apesar da evolução evidente, há ainda contextos laborais mais exigentes onde o caminho de uma mulher continua a ser um pouco mais… elaborado. Digamos que, enquanto alguns seguem por uma autoestrada razoavelmente direta, outras ainda têm de lidar com algumas curvas adicionais, obras inesperadas e, ocasionalmente, um ou outro desvio mal sinalizado. Nada que impeça o percurso, mas suficiente para exigir uma dose extra de resiliência e foco.
E talvez seja precisamente isso que acaba por fortalecer certas competências. A capacidade de ler o contexto, de ajustar a comunicação, de afirmar posição sem necessidade de ruído excessivo.
No plano mais amplo, estas qualidades refletem-se muito para além das equipas. Influenciam a cultura organizacional, promovem ambientes mais equilibrados e contribuem para uma sociedade onde a liderança deixa de ser uma questão de perfil pré-definido e passa a ser uma questão de competência demonstrada.
O essencial numa mulher líder hoje não é reinventar o conceito de liderança, mas executá-lo com rigor, autenticidade e um sentido claro de justiça. E, se possível, com a serenidade de quem sabe que, mesmo num caminho mais exigente, chegar ao destino com consistência é sempre mais relevante do que chegar depressa.

Num contexto cada vez mais exigente e competitivo, como equilibra a pressão profissional com o bem-estar pessoal e emocional? Existe alguma filosofia ou prática que a ajude a manter esse equilíbrio?
Num ambiente exigente e competitivo, o equilíbrio entre a pressão profissional e o bem-estar pessoal é, em teoria, uma excelente ideia. Na prática… é uma obra em curso.
Confesso que ainda tenho alguma dificuldade em separar totalmente o lado profissional do bem-estar pessoal e emocional. E essa dificuldade não nasce de falta de método ou organização, mas sim de algo bastante simples: o nível de envolvimento e entrega com cada cliente e com os desafios que cada caso jurídico apresenta. Quando se leva a profissão a sério talvez até um pouco demasiado a sério, admito  a linha entre “trabalho” e “vida pessoal” tende a ficar… subtil.
Dito isto, fui percebendo que ignorar essa realidade não era propriamente uma estratégia sustentável. E foi aí que comecei a procurar formas de criar algum equilíbrio, ainda que imperfeito.
A meditação tem sido uma dessas ferramentas. Não resolve tudo, longe disso mas ajuda a criar momentos de pausa e, sobretudo, a impor algum distanciamento mental. Funciona quase como um “reset elegante” ao final do dia, permitindo reorganizar prioridades e, ocasionalmente, lembrar-me de que nem tudo exige uma resposta imediata (embora o instinto profissional, por vezes, discorde).
Mas, se tiver de eleger a verdadeira terapia, diria sem hesitação: viajar. As viagens têm sido, provavelmente, o meu melhor mecanismo de equilíbrio. Acredito genuinamente que o contacto com diferentes culturas, ritmos e realidades funciona como uma espécie de ginásio emocional. Um espaço onde exercitamos os sentidos, alargamos a perspetiva e, com alguma sorte, conseguimos desligar não totalmente, porque seria pedir demasiado mas quase, do lado profissional e da gestão do escritório.
Há algo de particularmente eficaz em sair do contexto habitual e perceber que o mundo continua a funcionar perfeitamente sem a nossa intervenção constante (uma constatação ligeiramente desconcertante, mas bastante útil). Esse distanciamento permite regressar com mais clareza, mais foco e, curiosamente, até com melhores soluções.
No fundo, não sigo uma filosofia rígida nem tenho uma fórmula infalível. O equilíbrio, para mim, não é um estado permanente é um exercício contínuo de ajuste. Entre a exigência da profissão e a necessidade de preservar algum espaço pessoal, vou afinando esse equilíbrio com as ferramentas que melhor funcionam para mim.
E, se há algo que aprendi, é que, tal como no Direito, raramente existe uma solução perfeita mas existem, felizmente, soluções suficientemente boas para manter tudo a funcionar corretamente.

A agenda de liderança feminina implica também responsabilidade social. De que forma acredita que as mulheres em posições de liderança podem inspirar e abrir caminho para as próximas gerações?
A chamada “agenda de liderança feminina” traz consigo uma dimensão que, a meu ver, é incontornável: a responsabilidade social. Mas convém esclarecer com a devida elegância que essa responsabilidade não deve ser um exclusivo das lideranças femininas, nem masculinas. Deve, isso sim, ser uma característica natural de qualquer pessoa que ocupe uma posição de influência.
Dito isto, acredito que uma liderança feminina com verdadeiro sentido de responsabilidade social deve funcionar, acima de tudo, pelo exemplo. Não apenas por palavras bem construídas que, convenhamos, no nosso meio não são propriamente escassas mas por ações concretas, consistentes e visíveis. Porque é precisamente aí que reside o impacto real: naquilo que se faz quando ninguém está particularmente atento, e não apenas no que se diz quando todos estão a ouvir.
As mulheres em posições de liderança têm hoje uma oportunidade relevante de inspirar as próximas gerações, não tanto por ocuparem esses lugares embora isso tenha, naturalmente, o seu simbolismo mas pela forma como os exercem. Pela coerência nas decisões, pela forma como gerem equipas, pela defesa de princípios e pela capacidade de equilibrar exigência com justiça. Esses exemplos, quando são autênticos, tornam-se referências muito mais eficazes do que qualquer discurso motivacional.
Ao mesmo tempo, é importante que estas lideranças assumam um papel ativo na criação de oportunidades e na promoção de ambientes mais inclusivos. Não através de favoritismos ou atalhos, mas garantindo que o mérito é efetivamente reconhecido e que as condições de progressão são reais e acessíveis. Em bom rigor, trata-se de algo bastante simples: criar contextos onde o talento possa desenvolver-se sem obstáculos desnecessários.
Ainda assim, volto ao ponto essencial esta responsabilidade não deve ser encarada como uma missão exclusiva das mulheres. As lideranças, independentemente do género, são interlocutores de destaque social e, como tal, têm a obrigação de dar o exemplo. São essas referências visíveis, consistentes e credíveis que acabam por influenciar comportamentos, moldar culturas organizacionais e, em última análise, inspirar toda uma geração.
Se quisermos colocar isto em termos bastante diretos, diria que as próximas gerações não precisam de mais promessas inspiradoras; precisam de bons exemplos em funcionamento. E esses exemplos, quando existem, dispensam explicações longas: falam por si, abrem caminho e, com alguma sorte, tornam o percurso de quem vem a seguir um pouco menos… aventureiro.

Olhando para o futuro, que mudanças gostaria de ver no papel das mulheres em cargos de decisão, tanto no Direito como noutras áreas de influência?
Olhando para o futuro, gostaria, antes de mais, que as mulheres continuassem com a mesma consistência e sem grandes anúncios dramáticos nesta jornada de afirmação no mundo do trabalho, e em particular na área do Direito. Não como uma exceção que se celebra, mas como uma presença natural que já não suscita surpresa nem comentários adicionais.
Há ainda alguns estereótipos que mereciam, com alguma urgência, ser arquivados definitivamente. A ideia de que a maternidade é um obstáculo estrutural à progressão profissional, ou de que o acesso a cargos de decisão exige uma espécie de escolha implícita entre vida pessoal e ambição, é um desses exemplos. São conceitos que, apesar de discretamente persistentes, já não têm grande fundamento e, francamente, começam a parecer um pouco datados.
Gostaria também de ver um reforço da ambição feminina, não no sentido de competir por protagonismo, mas na construção de impacto. A ambição de ocupar lugares de decisão, sim, mas sobretudo a ambição de fazer a diferença nesses lugares. Porque estar presente é importante, mas influenciar positivamente é decisivo.
E essa influência não precisa de ser medida apenas em grandes reformas ou mudanças estruturais. Muitas vezes, manifesta-se de forma mais próxima: na forma como se lidera uma equipa, como se gere um conflito, como se promove um ambiente de trabalho mais justo. No fundo, na capacidade de construir um mundo melhor mesmo que seja, para começar, o pequeno universo que nos rodeia, seja na família, seja nas relações profissionais.
Se há algo que espero ver no futuro, é precisamente essa normalização da liderança feminina: menos foco na exceção, mais foco na competência; menos debate sobre “se”, mais execução sobre “como”. E, com um pouco de sorte e persistência chegaremos a um ponto em que a presença de mulheres em cargos de decisão não será um tema, mas apenas… a realidade. 

Se pudesse deixar uma mensagem às jovens mulheres que aspiram a uma carreira no Direito e a posições de liderança, que conselho ou reflexão consideraria essencial para o seu percurso?
Se tivesse de deixar uma mensagem às jovens mulheres que hoje olham para o Direito e, com saudável ambição, para posições de liderança diria o seguinte: escolham este caminho com convicção, mas, sobretudo, com consciência. A advocacia é uma profissão extraordinária, mas não é, de todo, uma profissão indulgente. Exige rigor, resistência e, em muitos momentos, uma elegância quase estratégica perante a adversidade.
A primeira ideia que considero essencial é a persistência. Não uma persistência ingénua, mas uma persistência lúcida, quase teimosa, daquelas que não se abalam facilmente com portas fechadas porque, convenhamos, haverá algumas. Ao longo da vossa carreira, encontrarão obstáculos que não vêm nos manuais de Direito: dúvidas sobre a vossa competência, expectativas desajustadas, momentos em que terão de trabalhar o dobro para obter metade do reconhecimento. Nada disto é particularmente justo, mas é, ainda, uma realidade em certos contextos. A diferença está na forma como respondem: com consistência, com preparação e com uma serenidade que, a seu tempo, se transforma em autoridade.
Ser persistente não significa aceitar tudo de forma passiva. Pelo contrário. Significa saber quando insistir, quando contornar e muito importante quando se deve dizer um educado, mas firme, “não”. A advocacia, tal como a vida, não recompensa apenas os mais brilhantes; recompensa, sobretudo, os que permanecem.
Em segundo lugar, gostaria de sublinhar algo que, na prática, distingue carreiras respeitáveis de carreiras verdadeiramente memoráveis: a construção de um legado ético e moral. Num mundo jurídico cada vez mais competitivo, pode surgir a tentação de relativizar princípios em nome de resultados imediatos. Resistam a essa tentação com a mesma firmeza com que defenderiam um cliente em tribunal.
A vossa reputação será, ao longo do tempo, o vosso ativo mais valioso. Não será construída apenas pelas vitórias, mas pela forma como lidam com as derrotas, pelos compromissos que honram, pelas posições que recusam assumir. A ética não é um adorno da profissão é a sua espinha dorsal. E, curiosamente, é também aquilo que mais tranquiliza o sono, o que, para quem vive de prazos e responsabilidades, não é um detalhe menor.
Construir esse legado implica coerência. Implica que aquilo que defendem em público seja compatível com aquilo que praticam em privado. Pode parecer um conceito simples, mas, como muitos saberão, é frequentemente posto à prova nos momentos mais exigentes da carreira.
Por fim e talvez aqui resida um dos conselhos menos convencionais cultivem uma boa dose de criatividade. Sim, criatividade na advocacia. Não apenas na interpretação do Direito, onde ela já é, aliás, indispensável, mas também na gestão da vossa própria carreira e das equipas que, inevitavelmente, virão a liderar.
A ideia de que a advocacia é uma profissão puramente técnica é, no mínimo, incompleta. Resolver problemas jurídicos exige, muitas vezes, pensamento lateral, capacidade de encontrar soluções onde outros veem apenas impasses. E liderar pessoas, como rapidamente descobrirão, raramente se resolve com fórmulas rígidas.
A criatividade será a vossa aliada quando tiverem de motivar equipas em contextos exigentes, quando precisarem de comunicar decisões difíceis ou quando enfrentarem aqueles dias que existirão em que tudo parece correr ligeiramente ao contrário do planeado. Nesses momentos, uma abordagem flexível, quase inventiva, pode fazer a diferença entre um impasse prolongado e uma solução eficaz.
E, permita-me acrescentar com um discreto toque de realismo: a criatividade também ajuda, e muito, a sobreviver à profissão. Porque a advocacia é fascinante, mas pode ser implacável. Ter a capacidade de relativizar, de encontrar leveza onde possível e de reinventar rotinas será fundamental para manter não só a produtividade, mas também o equilíbrio pessoal.
Se me permitem uma nota final, diria que não procurem encaixar-se em modelos pré-existentes de liderança. Durante muito tempo, esses modelos foram desenhados sem considerar a diversidade de percursos e de estilos. Hoje, a verdadeira liderança não está em imitar, mas em integrar: competência técnica, inteligência emocional, firmeza e humanidade.
Serão, inevitavelmente, confrontadas com desafios. Alguns previsíveis, outros absolutamente inesperados. Mas, se mantiverem a persistência, se forem intransigentes na vossa ética e se abraçarem a criatividade como ferramenta profissional, estarão não apenas a construir uma carreira sólida estarão a contribuir para redefinir a própria profissão.





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