Pesquisar

Utilizamos cookies para garantir que tenha a melhor experiência no nosso site. Ao continuar a utilizar o nosso site, você aceita o uso de cookies e a nossa Política de Privacidade.

“Temos de investir na Saúde Psicológica das Pessoas”


A saúde mental deixou de ser um tema silencioso para se afirmar como uma das grandes questões do nosso tempo. Mas entre reconhecer o problema e criar respostas concretas existe ainda um longo caminho. Em entrevista à Business Voice, Tiago Pimentel, Membro da Direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses, reflete sobre os desafios da saúde mental, a prevenção, o papel da Psicologia e a responsabilidade de construir uma sociedade onde cuidar da mente seja tão natural quanto cuidar do corpo.

O Dia Mundial da Saúde Mental, assinalado a 10 de outubro, é muito mais do que uma data no calendário: é uma oportunidade para colocar o tema no centro da discussão. Que retrato faz da Saúde Mental em Portugal e quais são hoje os principais desafios que continuam por enfrentar?
O retrato da Saúde Mental em Portugal é, simultaneamente, um retrato de maior consciência social e de grande exigência coletiva. Falamos hoje mais sobre saúde mental, com menos silêncio e menos vergonha, e isso é um progresso muito relevante. Mas os indicadores continuam a mostrar-nos que o sofrimento psicológico é uma realidade muito expressiva, transversal a idades, territórios e contextos sociais. Portugal surge de forma persistente entre os países europeus com prevalências elevadas de sintomas psicológicos e perturbações ansiodepressivas, e a evidência internacional tem vindo a demonstrar que a saúde mental é hoje um dos principais desafios de saúde pública, sociais e económicos.
O principal desafio é transformar visibilidade em acesso, e acesso em respostas de qualidade. Ainda há pessoas que procuram ajuda tarde, que não sabem onde recorrer, que enfrentam tempos de espera prolongados ou que não têm condições económicas para aceder a acompanhamento psicológico. Acresce que os determinantes da saúde mental – trabalho, rendimento, habitação, solidão, relações familiares, envelhecimento, exposição digital, desigualdades e insegurança quanto ao futuro – estão hoje muito presentes na vida quotidiana.
Por isso, o desafio não é apenas reforçar a resposta clínica quando a doença já existe. É construir uma estratégia de prevenção ao longo do ciclo de vida: nas escolas, nos locais de trabalho, nos cuidados de saúde primários, nas comunidades e nas políticas públicas. A Saúde Mental não pode continuar a ser vista como um tema paralelo à saúde, à economia, à educação ou à coesão social. É uma condição para tudo isso.

A Saúde Mental tem vindo a ganhar maior visibilidade, mas falar mais sobre o tema não significa necessariamente cuidar melhor. Que trabalho tem desenvolvido a Ordem dos Psicólogos Portugueses para transformar esta maior consciencialização em prevenção, intervenção e respostas concretas para a população?
A Ordem dos Psicólogos Portugueses tem procurado atuar em vários planos: literacia, prevenção, qualificação da intervenção, contributos para as políticas públicas e defesa do acesso da população a cuidados psicológicos seguros, éticos e baseados na evidência científica. A nossa posição é clara: falar de Saúde Mental é importante, mas não chega. É preciso garantir respostas efetivas, qualificadas e próximas das pessoas.
Temos desenvolvido campanhas e recursos de literacia em saúde psicológica, que procura ajudar cidadãos e decisores a distinguir intervenção psicológica baseada na ciência de abordagens sem validação, protegendo a saúde das pessoas. Temos também investido em programas regionais de promoção da literacia em saúde mental, com dezenas de protocolos, orientados para informar, desconstruir mitos, favorecer a procura de ajuda e capacitar comunidades para a resiliência psicológica. Ao mesmo tempo, a OPP tem disponibilizado recursos práticos à população, incluindo informação sobre quando procurar ajuda, como confirmar se um profissional é psicólogo e onde encontrar psicólogos. A OPP lembra, de forma muito clara, que não é necessário esperar por uma situação de crise para procurar apoio psicológico. Quanto mais cedo se pede ajuda, maior tende a ser a eficácia da intervenção.
No plano das políticas públicas, temos defendido o reforço de psicólogos no SNS, em particular nos cuidados de saúde primários, por serem a porta de entrada mais próxima da população e um contexto decisivo para prevenir o agravamento da sintomatologia. A OPP tem também acompanhado temas como a carreira dos psicólogos no SNS, os serviços autónomos de Psicologia nas ULS, a Linha de Aconselhamento Psicológico do SNS 24, a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e a integração da Psicologia nos sistemas de informação em saúde.

Vivemos numa sociedade marcada por pressão profissional, instabilidade económica, solidão, hiperconectividade e exposição constante às redes sociais. Até que ponto estes fatores estão a alterar a forma como as pessoas vivem e experienciam a sua Saúde Mental, e que respostas devem ser reforçadas?
Estes fatores estão a alterar profundamente a forma como vivemos a saúde psicológica. Hoje, muitas pessoas vivem sob uma sensação permanente de exigência: exigência para produzir, responder, estar disponível, acompanhar informação, comparar-se, decidir depressa e manter desempenho, mesmo quando estão emocionalmente exaustas. A hiperconectividade trouxe vantagens, mas também reduziu fronteiras entre trabalho e descanso, aumentou a exposição à comparação social e tornou mais difícil a recuperação psicológica.
A instabilidade económica e a insegurança quanto ao futuro têm igualmente impacto relevante. A saúde mental não depende apenas de características individuais. Depende também das condições concretas em que as pessoas vivem. Precariedade, dificuldade de acesso à habitação, isolamento social, sobrecarga dos cuidadores, envelhecimento e desigualdades criam contextos de vulnerabilidade. A OCDE tem sublinhado que crises económicas, custo de vida, alterações climáticas, conflitos e uso problemático das redes sociais estão entre os fatores que pressionam a saúde mental, particularmente em jovens e grupos vulneráveis.
As respostas devem ser reforçadas em três níveis. Primeiro, prevenção universal: literacia, competências socioemocionais, promoção de relações saudáveis, sono, atividade física, uso equilibrado da tecnologia e combate ao estigma. Segundo, intervenção precoce em contextos de proximidade: escolas, cuidados de saúde primários, locais de trabalho, autarquias e respostas comunitárias. Terceiro, respostas especializadas, articuladas e atempadas para situações de maior sofrimento ou risco.
Nos locais de trabalho, por exemplo, a questão é também económica e organizacional. A OPP estimou que o stresse e os problemas de saúde psicológica no trabalho custaram às empresas portuguesas 5,3 mil milhões de euros por ano, considerando absentismo e presentismo. Isto demonstra que cuidar da saúde psicológica não é um benefício acessório: é uma condição de sustentabilidade, produtividade e qualidade das organizações.

O psicólogo continua, muitas vezes, a ser procurado apenas quando o sofrimento já está instalado. Como podemos mudar esta lógica e fazer com que o acompanhamento psicológico seja encarado como uma dimensão de prevenção e promoção da saúde, e não apenas como uma resposta à doença?
Temos de mudar a narrativa. Ir ao psicólogo não deve ser visto apenas como um recurso para momentos de rutura, mas como uma forma de cuidar da saúde, desenvolver competências, tomar decisões, prevenir o agravamento de dificuldades e melhorar o bem-estar. Tal como não esperamos por uma doença cardiovascular grave para falar de prevenção, também não deveríamos esperar por sofrimento psicológico intenso para valorizar a saúde mental.
Esta mudança exige literacia. As pessoas precisam de saber reconhecer sinais precoces de sofrimento – alterações de sono, irritabilidade, ansiedade persistente, tristeza prolongada, dificuldade de concentração, isolamento, consumo excessivo de substâncias, perda de motivação ou sensação de incapacidade – e perceber que pedir ajuda cedo é um sinal de autocuidado, não de fraqueza.
Mas a mudança também exige acesso. Não basta dizer às pessoas para procurarem ajuda se depois essa ajuda não estiver disponível, próxima ou financeiramente acessível. Por isso, a OPP tem defendido o reforço dos psicólogos nos cuidados de saúde primários. São estes cuidados que podem permitir uma resposta mais precoce, integrada com a saúde física, articulada com a comunidade e capaz de evitar que dificuldades ligeiras ou moderadas evoluam para quadros mais graves. A própria OPP tem sublinhado que os cuidados de saúde primários são a primeira porta para prevenir a evolução da sintomatologia.
A prevenção também passa por normalizar o acompanhamento psicológico em contextos não clínicos: escolas, empresas, instituições sociais, justiça, desporto, autarquias e forças de segurança. Os psicólogos não intervêm apenas na doença; intervêm no comportamento, na tomada de decisão, nas relações, na adaptação à mudança, na gestão de crise, na prevenção do risco e na promoção de competências.

Escolas, empresas, famílias, instituições de saúde e Estado têm responsabilidades diferentes, mas complementares, na promoção da Saúde Mental. Estamos a criar uma verdadeira cultura de prevenção ou continuamos demasiado focados em responder aos problemas quando estes já atingiram uma dimensão preocupante?
Estamos num momento de transição. Há sinais positivos: fala-se mais de saúde mental, há mais iniciativas nas escolas, maior atenção das empresas aos riscos psicossociais, mais reconhecimento político e social do tema, e a reforma da saúde mental em Portugal está em curso, com avaliação recente da OMS Europa e investimento do PRR em equipas comunitárias, serviços locais e modelos de organização.
Mas ainda estamos demasiado reativos. Muitas respostas continuam a surgir quando o problema já atingiu uma gravidade significativa: quando há absentismo prolongado, abandono escolar, crise familiar, ideação suicida, burnout instalado ou sofrimento intenso. A verdadeira cultura de prevenção implica agir antes: medir riscos, capacitar pessoas, criar ambientes saudáveis, formar lideranças, reduzir fatores de stress evitáveis e garantir respostas de proximidade.
Nas escolas, a presença de psicólogos é essencial para promover competências socioemocionais, prevenir dificuldades, apoiar alunos, famílias e professores, e criar ambientes seguros e inclusivos. A decisão de vincular psicólogos aos quadros das escolas, garantindo pelo menos um psicólogo por unidade orgânica e melhorando o rácio médio previsto para um psicólogo por 711 alunos, é um passo relevante, embora ainda deva ser acompanhado por condições de exercício adequadas e por modelos de intervenção que valorizem a prevenção, e não apenas a resposta a situações críticas.
Nas empresas, a prevenção implica avaliar riscos psicossociais, promover lideranças saudáveis, combater culturas de exaustão, respeitar tempos de descanso, intervir no assédio, na sobrecarga e na insegurança laboral, e envolver psicólogos do trabalho e das organizações em estratégias sustentadas. Nas famílias, implica literacia emocional e redes de apoio. No Estado, implica políticas públicas coerentes, financiamento, monitorização e integração da saúde mental em todas as políticas. O Plano Nacional de Saúde 2030 aponta precisamente para uma abordagem centrada na equidade, na literacia, nos ambientes promotores de saúde e na integração de cuidados.

Num momento em que a Saúde Mental deveria estar cada vez mais na ordem do dia, qual deve ser o papel dos psicólogos na construção de uma sociedade mais preparada para reconhecer, prevenir e lidar com o sofrimento psicológico — e que mudança considera indispensável para que a Saúde Mental deixe definitivamente de ser tratada como um tema secundário?
O papel dos psicólogos é decisivo porque a Psicologia oferece conhecimento científico sobre o comportamento humano, as emoções, as relações, a aprendizagem, o trabalho, a saúde, a tomada de decisão e a adaptação à mudança. Numa sociedade marcada por incerteza, polarização, solidão, pressão profissional e transformação tecnológica, este conhecimento é indispensável.
Os psicólogos devem estar onde as pessoas vivem, aprendem, trabalham e procuram cuidados. Devem estar nos centros de saúde, hospitais, escolas, empresas, autarquias, respostas sociais, universidades, forças de segurança, justiça, proteção civil e comunidades. Devem contribuir para a intervenção clínica, mas também para a prevenção, literacia, desenho de políticas públicas, avaliação de programas, gestão de crise, promoção de competências e criação de ambientes psicologicamente saudáveis.
A mudança indispensável é esta: deixar de tratar a Saúde Mental como uma área residual e passar a assumi-la como infraestrutura essencial do país. Tal como investimos em estradas, energia, educação ou tecnologia, temos de investir na saúde psicológica das pessoas, porque dela dependem a aprendizagem, a produtividade, a coesão social, a participação cívica, a inovação e a qualidade de vida. Isso significa reforçar o acesso a psicólogos, garantir respostas baseadas na evidência científica, integrar a Psicologia nos cuidados de saúde primários, valorizar os psicólogos nos serviços públicos, atuar sobre os determinantes sociais da saúde mental e responsabilizar todos os setores – saúde, educação, trabalho, habitação, justiça e proteção social. A saúde mental não é um tema secundário porque não há desenvolvimento económico, social ou humano sustentável sem saúde psicológica.


Mais Artigos Relacionados "Sociedade"