“Ouçam o vosso Coração, ele sabe o caminho”
Num contexto em que a liderança feminina em Angola continua a afirmar-se entre desafios estruturais e transformações sociais profundas, histórias como a de Domingas Tavares Francisco revelam a força, a resiliência e a visão de mulheres que têm vindo a redefinir o papel da educação e do cuidado humano no desenvolvimento do país. Enquanto Fundadora e Diretora-Geral do Colégio Luar do Saber, Domingas Tavares Francisco construiu mais do que uma instituição de ensino: consolidou um espaço de formação de valores, de promoção da inclusão e de atenção às dimensões emocionais e psicológicas das crianças, jovens e famílias.
Numa sociedade cada vez mais marcada por exigências emocionais, pressões económicas e desafios sociais que impactam diretamente o bem-estar coletivo, a saúde mental tornou-se uma questão incontornável — sobretudo no ambiente escolar, onde muitos dos sinais de ansiedade, insegurança, baixa autoestima e dificuldades emocionais começam a manifestar-se. Para Domingas Tavares Francisco, liderar uma instituição de ensino no atual contexto angolano exige não apenas competências de gestão e visão pedagógica, mas também sensibilidade humana, empatia e capacidade de criar ambientes saudáveis emocionalmente.
Ao longo desta entrevista à Business Voice, Domingas Tavares Francisco partilha a sua trajetória enquanto mulher líder em Angola, os desafios enfrentados no universo empresarial e educacional, o papel das mulheres na construção de uma sociedade mais equilibrada e inclusiva, bem como a importância crescente da saúde mental no processo educativo e no desenvolvimento das futuras gerações. Uma conversa inspiradora sobre liderança, propósito, educação e humanidade.
O Colégio Luar do Saber nasce de uma visão profundamente humana da educação. Que experiências pessoais e profissionais estiveram na origem deste projeto e como moldaram a sua filosofia educativa?
A ideia de deixar o mundo melhor, desde muito cedo, fez parte da minha forma de estar e de olhar para a construção da realidade social. Estudar e trabalhar para pagar contas não era suficiente. E, toda vez que ouvia a história de alguém que investiu numa comunidade ou que tinha feito algo diferenciado, enchia-me os olhos de esperança. Mas, o melhor de tudo isso foi ter conhecido o meu esposo que também partilhava da mesma visão. Muitos anos depois nascia a marca Luar do Saber, com uma missão muito clara: levar qualidade de ensino ao nível curricular, emocional e humano. Continuamos a construir um espaço de amor, onde cada criança tem espaço para ser criança
Num contexto onde a educação tradicional ainda predomina, o seu modelo aposta no amor, na empatia e no autoconhecimento. Como é que estes pilares se traduzem, na prática, no dia a dia da escola?
Esse é o nosso maior propósito, mas também tem sido um dos grandes desafios: educar os professores para a escuta ativa, empatia e humanização antes dos resultados e sensibilizar os pais e encarregados de educação de que as crianças não vieram ao mundo para concretizar os sonhos dos adultos. Tem sido muito difícil explicar que as crianças não são um protótipo perfeito do ponto de vista do comportamento e do aproveitamento. Então, as nossas equipas de psicopedagogia, administrativa e professores têm trabalhado muito ao nível da consciencialização e através da realização de palestras, a ver se deixamos a sementinha plantada
A integração da saúde mental no ambiente escolar ainda é um desafio em muitos países. Que estratégias concretas implementa para garantir o bem-estar emocional dos alunos e da comunidade educativa?
Palestras, palestras e mais palestras. O acompanhamento psicológico tem funcionado bem, contudo, grande parte dos alunos(as) ainda habita em ambientes familiares muito fechados para a temática da gestão das emoções e da saúde mental. Ainda é muito comum ouvir-se que a função da criança é estudar e ter boas notas, "porque não faz mais que a sua obrigação". Então, a estratégia tem sido ir muito devagar: trabalhar primeiro com os(as) estudantes, professores e funcionários para, então, chegarmos aos pais
Enquanto líder feminina em Angola, que obstáculos encontrou ao longo do seu percurso e de que forma os transformou em oportunidades de crescimento e afirmação?
O maior obstáculo que encontrei, não foi tanto o facto de ser mulher, até porque já há muitas referências femininas, com largos anos experiência e de aprendizagem a percorrerem a estrada do empreendedorismo. O que quase me fez desistir, foi o facto de ser uma das poucas mulheres no meu seio familiar a optar por quebrar a regra de trabalhar para o Estado porque "é pouco, mas é certinho". Muito particularmente, sinto que esse ainda é um dos maiores desafios para quem opta por essa via. Ouvi muitas vezes frases do género: "deixa de brincar e vai procurar um trabalho a sério". Isso mexeu muito com a minha autoconfiança e autoestima, mesmo sabendo que tinha as ferramentas necessárias para alavancar o projeto. Mas, foi igualmente o meu maior combustível para escrever a história que quero deixar gravada no setor da Educação
O seu projeto alia excelência académica a impacto social. Como equilibra estas duas dimensões e que resultados já consegue identificar dessa abordagem integrada?
Já vamos no nosso quarto ano de atuação e devo dizer que ainda é cedo para medir o impacto do nosso trabalho, particularmente, da nossa ação social junto da comunidade local. Todavia, sinto que os nossos meninos e meninas gostam da nossa casa, conhecem os nossos funcionários pelo nome, inclusive a equipa da limpeza. Os mais crescidos gostam da ideia de terem uma diretora-geral muito nova (achavam que era uma senhora com mais de 60 anos, super rigorosa e sisuda) e isso deixa-me muito feliz.
Que papel acredita que as mulheres líderes desempenham na transformação dos sistemas educativos e no desenvolvimento sustentável das sociedades?
As mulheres são as primeiras a conseguir abraçar, a dar beijinhos e abraços, todavia, o mundo das regras infinitas e inquebráveis, da competitividade e dos resultados rápidos, quer eliminar essa particularidade que nós tão bem exercemos. Sinto que temos de voltar ao início, a fazer o básico bem feito, a ouvir com empatia e verdade, a olhar para as pessoas além do "recurso humano" que elas possam representar. Está a faltar humanização e amor ao próximo no mercado de trabalho e, sinceramente, acho que esse poderia vir a ser o grande e maior contributo nosso
Num mundo em constante mudança, que competências considera essenciais desenvolver nas novas gerações para que se tornem não apenas profissionais de sucesso, mas também cidadãos conscientes e empáticos?
Empatia, compaixão, escuta ativa e, sobretudo, um plano de vida realista. Sinto que as pessoas, líderes e chefes sabem o que querem e onde querem chegar, mas ainda não sabem quem são. E quando não conhecemos o nosso lugar, dificilmente, conheceremos o lugar do outro
Para outras mulheres que desejam empreender na área da educação ou liderar projetos com propósito, que conselhos deixaria com base na sua experiência?
Façam-no sem a grande expectativa de ver os resultados no imediato. Preocupem-se, antes, em plantar a sementinha, entreguem à vossa equipa aquilo que gostariam de ter recebido quando trabalhavam para outrem. Não repitam os mesmos erros, criem soluções para as velhas questões. Ouçam o vosso coração, ele sabe o caminho. Não sigam as tendências, sejam tendência.