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“O Sofrimento Psicológico não é uma fraqueza individual”


Não é fraqueza. Não é moda. Não é silêncio — é ruído acumulado. Na entrevista à Business Voice, Filipa Rouxinol, Psicóloga, Especialidade Geral em Psicologia Clínica e da Saúde, rasga o guião habitual da conversa sobre saúde mental e obriga-nos a encarar o que tantas vezes evitamos: o custo invisível de funcionar em piloto automático. Entre agendas cheias e métricas de produtividade, esquecemo-nos de medir o essencial — o estado de quem somos quando ninguém está a ver. Com uma clareza desconcertante, a psicóloga desmonta preconceitos, desafia narrativas enraizadas e lembra-nos que cuidar da mente não é um luxo moderno, mas uma urgência estrutural. Porque ignorar não resolve. Adiar não cura. E normalizar o desgaste não o torna saudável. Esta não é apenas uma entrevista. É um alerta. É um espelho. E, para muitos, pode ser o primeiro passo para finalmente parar — e escutar.

Durante muito tempo, a saúde mental foi tratada como um assunto privado ou até vergonhoso. Na sua opinião, o que é que a sociedade ainda precisa de desaprender para conseguir falar verdadeiramente sobre saúde mental sem preconceitos?
Talvez o mais importante seja desconstruir a ideia de que o sofrimento psicológico é uma fraqueza individual. Hoje sabemos que muitas das respostas que emergem, tanto inatas como moldadas pela experiência, refletem diferentes dimensões internas que procuram proteger a pessoa de algo que, em algum momento, foi vivido como difícil ou ameaçador. Ansiedade, depressão, insegurança, perfeccionismo ou necessidade de controlo não surgem do nada — são frequentemente formas de adaptação.
Assim, falar de saúde mental sem preconceitos implica uma mudança de olhar: deixar de perguntar “o que está errado?” e começar a perguntar “para que serve este comportamento?”. Quando introduzimos mais curiosidade e menos julgamento, começamos a reconhecer o comportamento como uma tentativa de adaptação — e é aí que a transformação se torna possível.

Existe hoje uma maior consciência sobre a importância do equilíbrio psicológico, mas também uma vida cada vez mais acelerada e exigente. Até que ponto a sociedade atual está estruturada de forma pouco saudável para a mente humana?
A sociedade atual está, em vários aspetos, pouco ajustada ao funcionamento da mente humana. Vivemos expostos a ritmos acelerados, pressão constante para desempenho, exigência de produtividade contínua e uma sobrecarga permanente de informação. Este contexto favorece estados de ativação prolongada do sistema nervoso e dificulta o acesso a experiências de descanso e segurança interna. Muitas pessoas reconhecem isto como a dificuldade em “desligar”, a sensação de estar sempre em alerta ou o cansaço constante, mesmo quando param.
O cérebro humano desenvolve-se em contextos de previsibilidade e de relações próximas e seguras. Quando esses elementos são substituídos por pressão constante, comparação e instabilidade, tendemos a viver em modo de hipervigilância e adaptação contínua. Por isso, muitas dificuldades psicológicas atuais não devem ser compreendidas apenas ao nível individual, surgem também da relação entre a pessoa e os contextos em que vive.

Ainda é comum ouvir frases como “isso passa” ou “tens de ser mais forte”. Que impacto podem ter este tipo de discursos aparentemente inofensivos em pessoas que estão a enfrentar sofrimento psicológico?
Sim, muito, e desde muito cedo. Estas frases, embora por vezes bem-intencionadas, acabam por ter um efeito de invalidação emocional. Quando a experiência interna não é reconhecida, a pessoa pode sentir que aquilo que vive não é legítimo ou que deveria ser capaz de lidar com tudo sozinha. No dia-a-dia, isto manifesta-se muitas vezes na tendência para esconder o que sente, minimizar o próprio sofrimento ou evitar pedir ajuda, reforçando sentimentos de vergonha e isolamento.
Sabemos hoje que a validação e a experiência de ser compreendido têm um papel fundamental na forma como a pessoa organiza aquilo que sente. Quando alguém se sente visto e compreendido, torna-se mais fácil perceber, nomear e lidar com as emoções de forma mais clara. Muitas vezes, aquilo que mais ajuda não é corrigir ou minimizar, mas estar presente de forma empática e compassiva.

Na sua prática clínica, percebe que muitas pessoas chegam à terapia já depois de um longo período de sofrimento silencioso. Porque continuamos a ter tanta dificuldade em pedir ajuda atempadamente?
Existem vários fatores. Ainda persistem estigmas culturais associados à saúde mental, mas há também algo mais subtil: muitas pessoas desenvolvem, ao longo da vida, estratégias de adaptação que lhes permitem continuar a funcionar, como o controlo, o perfeccionismo, a hipercrítica, o recurso a substâncias ou o sobre investimento no desempenho. Estas estratégias têm frequentemente uma intenção protetora, mas implicam um elevado custo interno.
Para além disso, quando a experiência emocional é repetidamente invalidada, pelos outros ou pela própria pessoa, torna-se mais difícil reconhecer a necessidade de ajuda. Durante muito tempo, a pessoa mantém o funcionamento externo, mesmo com sofrimento interno significativo. Muitas descrevem isto como “estar sempre a aguentar” ou “funcionar por fora, mas sentir-se esgotadas por dentro”. Quando esse equilíbrio deixa de ser sustentável, surge o pedido de ajuda.

A neuropsicologia permite compreender melhor a relação entre cérebro, emoções e comportamento. Que avanços desta área têm contribuído para mudar a forma como olhamos para os problemas de saúde mental?
A neuropsicologia tem contribuído para uma compreensão muito mais integrada do funcionamento humano. Hoje sabemos que cérebro, corpo, emoções e as relações que estabelecemos com os outros, especialmente nos primeiros anos de vida, estão profundamente interligados e que o desenvolvimento psicológico ocorre num contexto relacional contínuo.
Quando se cresce em contextos seguros e previsíveis tende-se a desenvolver maior capacidade de regulação e flexibilidade. Nos casos de contextos marcados por stress ou ausência de suporte estes podem levar a uma maior tendência para estados de alerta, ansiedade ou retraimento. Ou seja, aquilo que sentimos, pensamos e como reagimos, resulta da forma como o nos fomos adaptando às experiências vividas.
Outro avanço fundamental é o reconhecimento da neuroplasticidade: o cérebro mantém capacidade de reorganização ao longo da vida. Isto significa que os padrões emocionais e comportamentais não são fixos, podem ser modificados através de novas experiências, sobretudo em contextos seguros e consistentes.

Que papel pode a educação — desde a infância — ter na prevenção de problemas de saúde mental e na construção de uma sociedade emocionalmente mais saudável?
A educação tem um papel absolutamente central na construção da saúde mental. As competências emocionais desenvolvem-se através da qualidade das relações e da forma como as crianças aprendem a compreender e regular o que sentem.
Quando uma criança cresce num contexto em que as suas emoções são reconhecidas e reguladas em relação com o outro, desenvolve maior capacidade de autorregulação, flexibilidade e segurança interna. Pelo contrário, quando as emoções são ignoradas ou minimizadas, tende a desenvolver formas menos flexíveis de lidar com as emoções, como evitá-las, suprimi-las ou reagir de forma mais intensa.
Investir em literacia emocional, formação de adultos (pais/cuidadores e professores) e contextos educativos mais sensíveis ao desenvolvimento é uma das formas mais eficazes de prevenção em saúde mental.

A pandemia trouxe a saúde mental para o centro das conversas públicas. Considera que esse momento gerou mudanças duradouras na forma como a sociedade encara este tema?
A pandemia teve um papel importante ao tornar visível a fragilidade e a necessidade de cuidar da saúde mental. Durante esse período, houve uma maior normalização de experiências como ansiedade, exaustão e sobrecarga emocional.
No entanto, a mudança não foi uniforme nem totalmente consolidada. Embora exista hoje mais abertura para falar sobre saúde mental, muitos contextos continuam a funcionar com níveis de exigência elevados e pouco ajustados ao funcionamento psicológico. Ou seja, aumentou a consciência, mas essa consciência ainda não se traduziu de forma consistente em mudanças estruturais.

Se tivesse a oportunidade de deixar uma mensagem clara à sociedade sobre saúde mental, qual seria a ideia mais importante que gostaria que todos compreendessem?
É fundamental perceber que o corpo e a mente são indissociáveis. O que o corpo experiencia, a mente perceciona e interpreta. O comportamento humano não pode ser compreendido fora da história e dos contextos em que se desenvolve.
O que muitas vezes vemos como “problema” é, na realidade, a expressão de um sistema que está a tentar adaptar-se, proteger-se e encontrar equilíbrio. Investir em saúde mental implica, por isso, investir em literacia emocional, em relações mais seguras e em contextos mais ajustados ao desenvolvimento humano, e isso muda a forma como nos tratamos no dia-a-dia, reduz a autocrítica e permite uma relação mais segura connosco próprios.
Quando mudamos o olhar, do julgamento para a compreensão, não estamos apenas a tratar o sofrimento; estamos a transformar a forma como cuidamos de nós, dos outros e da sociedade que construímos.


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