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“O papel da Mulher no mundo dos negócios é aquele a que cada Mulher aspira”

Num mundo onde ainda se confundem vozes firmes com exceções, há mulheres que entram sem pedir licença — não porque precisem de provar algo, mas porque já compreenderam o seu lugar. E Catarina Azevedo Marques, Advogada, é uma dessas mulheres.
Entre a precisão da lei e a complexidade das decisões humanas, construiu um percurso onde a competência nunca precisou de ruído para se impor. Advogada em Lisboa, com mais de oito anos de experiência em sociedades de advogados, habituou-se a navegar territórios exigentes, representando clientes particulares e empresariais com a mesma combinação rara de rigor técnico, ética e responsabilidade.
Mas é talvez fora dos códigos e dos tribunais que a sua visão ganha ainda mais força. Numa era obcecada por títulos, cargos e fórmulas de sucesso, a nossa interlocutora desafia a narrativa instalada. Recusa a ideia de que liderança feminina tenha de seguir um único modelo — e lembra-nos que o verdadeiro poder começa na liberdade de escolha. “O papel da mulher no mundo dos negócios é, acima de tudo, aquele a que cada mulher aspira. Não existe um único modelo de sucesso, nem a obrigação de todos chegarem a cargos de liderança”, afirma. 
Na Agenda de Lideranças Femininas – Mulheres que Inspiram, conversamos com uma mulher que representa uma nova geração de liderança: mais consciente, mais autêntica e profundamente alinhada com aquilo que realmente importa — impacto, integridade e identidade. 

Que valor considera que aporta aos seus clientes e de que forma a sua abordagem — assente na clareza, disponibilidade e rigor — se diferencia no exercício da advocacia?
Neste momento, estou muito concentrada numa área do direito, que é o imobiliário. Acredito genuinamente que o trabalho consistente e estudo contínuo geram excelência. Quanto mais trabalhamos numa área do direito, mais rápidos e eficientes nos tornamos. Por isso, considero que o facto de estar focada nesta área aporta valor aos clientes que em mim confiam. 
Para além disso, num mercado que está sempre em movimento, procuro dar respostas rápidas, bem como ser altamente transparente quanto a custos e expectativas de sucesso. Para mim, é essencial que o cliente saiba exatamente o que pode esperar e quais são os riscos envolvidos, evitando surpresas no final.
É muito isto que, creio, me diferencia no exercício da advocacia. Quanto ao rigor, considero-o um pressuposto básico da advocacia. Não é um diferencial, é o mínimo que qualquer advogado deve garantir ao seu cliente. 

Ao longo do seu percurso, quais foram os principais desafios que encontrou no setor jurídico e de que forma esses momentos contribuíram para moldar a profissional que é hoje?
Ao longo do meu percurso, considero que existiram dois grandes desafios.
O primeiro surgiu quando me mudei de Lousada para Lisboa para realizar o estágio da Ordem dos Advogados. Tinha feito a licenciatura na Faculdade de Direito da Universidade do Porto sem sair de casa, por isso esta mudança foi como que a saída do meu porto seguro. Foi um período que me ensinou a não desistir, a confiar nas minhas capacidades e a perceber que sou capaz de me adaptar às mudanças.
O segundo grande desafio é o que estou a viver atualmente: a abertura do meu próprio escritório. É um passo que sempre sonhei dar, mas que traz consigo uma enorme responsabilidade. Desde aprender a chegar aos potenciais clientes e, sobretudo, aos clientes certos, até lidar com toda a gestão invisível que sustenta qualquer negócio. E, claro, a gestão de tempo. Tudo isto tem contribuído para reforçar a minha autonomia e resiliência. 

 A sua proposta de valor destaca-se pela proximidade e transparência com os clientes. Como é que constrói relações de confiança num contexto muitas vezes marcado pela complexidade técnica e sensibilidade emocional?
A proximidade e a transparência são, para mim, a base da relação de confiança na advocacia. 
Acredito que muitas vezes, quando um cliente se afasta do advogado, não é por ter perdido o processo, mas por falta de comunicação próxima, clara e transparente. Por isso, faço questão de explicar o meu ponto de vista jurídico sobre a situação e, se necessário, baixar expectativas.
Muitas vezes, recebo clientes muito convictos da sua posição e, hoje em dia, até já vêm com estratégias definidas pela inteligência artificial ou, pior, com atos jurídicos praticados com base no conselho dado pela inteligência artificial. Nessas situações, é difícil explicar ao cliente que as coisas podem não ser como a inteligência artificial lhes disse. Mas prefiro isso que alimentar expectativas difíceis de cumprir. 
A transparência pode ser difícil no imediato, mas é o que preserva a confiança no longo prazo.

Na sua perspetiva, como tem evoluído o papel da mulher na advocacia em Portugal e que mudanças ainda considera necessárias?
A profissão de advogado foi durante muito tempo reservada aos homens. Hoje em dia, existem mais mulheres advogadas do que homens advogados. 
Ainda assim, quando olhamos para estruturas de maior dimensão, continua a verificar se um padrão semelhante ao que vemos noutras áreas fora da advocacia: muitas mulheres em funções de middle management, mas uma predominância masculina nos cargos de topo.
Acredito que esta realidade não resulta de falta de mérito nem falta de vontade das mulheres, mas de fatores históricos e culturais e, claro, dos desafios na conciliação entre a vida pessoal e profissional. 
Para além disso, ainda existem pessoas que, mesmo sem aperceberem, carregam a ideia errada de que um advogado homem é, à partida, mais competente do que uma advogada. É uma questão de mentalidade que, embora ainda exista, está, felizmente, cada vez mais ultrapassada.
O caminho tem sido positivo, mas ainda há espaço para evoluir. 

Qual acredita ser hoje o papel da mulher no mundo dos negócios e que contributos diferenciadores traz para a tomada de decisão e liderança?
O papel da mulher no mundo dos negócios é, acima de tudo, aquele a que cada mulher aspira. Não existe um único modelo de sucesso, nem a obrigação de todos chegarem a cargos de liderança. Há pessoas que querem assumir funções de topo e gerir negócios e outras que preferem dedicar-se mais à família ou a projetos pessoais. Todas essas escolhas são legítimas. O papel da mulher, tal como o do homem, é exatamente aquele cada um quiser.
Acredito que as mulheres líderes e gestoras de negócios trazem contributos diferenciadores, quer pela capacidade de liderar e gerir de forma mais empática e humana, quer pela aptidão para gerir múltiplas tarefas e prioridades em simultâneo. O que é muito positivo e enriquecedor para qualquer negócio. 

Na sua experiência, sente que as mulheres enfrentam desafios específicos no acesso a posições de liderança? Se sim, quais são os mais relevantes e como podem ser ultrapassados?
Sim, sem dúvida. Ainda existem desafios específicos quer pelos fatores históricos e culturais que referi, quer pelas dificuldades de conciliação entre a vida pessoal e profissional, que continuam muito presentes.
Há muito que pode ser feito, nomeadamente com políticas de conciliação e flexibilidade, mas também acredito que o decurso do tempo terá um papel importante na transformação das mentalidades.

Enquanto profissional que valoriza o rigor e a defesa dos interesses dos seus clientes, como equilibra essa exigência com a gestão pessoal e emocional, especialmente num contexto de elevada responsabilidade?
Com uma gestão muito rigorosa da minha agenda e uma definição clara de prioridades. 
Ao mesmo tempo, também é muito importante fazer alguma “gestão emocional”, separar os assuntos pessoais dos profissionais, manter uma rotina de exercício físico conjugada com uma alimentação saudável e preservar momentos de descanso.
Tudo isto é importante para me permitir continuar a atuar com rigor, foco e estabilidade. 

Que mensagem ou conselho gostaria de deixar a jovens mulheres que aspiram a uma carreira na advocacia ou em áreas de elevada exigência, e que procuram afirmar-se com autenticidade e impacto?
Para trabalharem de forma rigorosa, honesta e consistente e para não desistirem à primeira dificuldade. Também é importante ter coragem para arriscar. Há uma frase que eu gosto muito, que é do poeta romano Virgílio: A Sorte Protege os Audazes. É uma frase que me tem acompanhado e com a qual me identifico muito. 


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