“Nenhuma organização é mais sustentável do que as Pessoas que a sustentam”
Durante demasiado tempo, a parentalidade foi encarada pelas organizações como um tema privado, periférico ou até inconveniente. Mas a realidade é outra: quando uma empresa ignora o impacto da parentalidade na vida dos seus profissionais, não está apenas a descurar o bem-estar das suas pessoas — está a comprometer a sua capacidade de atrair talento, reter conhecimento, potenciar desempenho e construir uma cultura verdadeiramente sustentável.
É precisamente neste ponto de mudança que surge a visão de Raquel Évora, Enfermeira Especialista e Fundadora da Iniciativa Prevenção & Performance Corporativa Integrada. Com mais de 25 anos de experiência junto de famílias, transformou o conhecimento adquirido no terreno num modelo inovador de Literacia Humana™, onde a Parentalidade Integrada deixa de ser um benefício acessório para assumir um papel estratégico na construção de organizações mais saudáveis, produtivas e sustentáveis.
Nesta entrevista à Business Voice, Raquel Évora convida-nos a repensar o papel das organizações na construção de ambientes de trabalho mais humanos, onde a Parentalidade Integrada deixa de ser uma responsabilidade exclusiva das famílias para assumir um lugar central nas políticas de liderança, prevenção e desenvolvimento organizacional. Porque, como afirma, "nenhuma organização é mais sustentável do que as pessoas que a sustentam" — e talvez seja precisamente nesta verdade que reside o futuro das empresas que querem crescer sem deixar ninguém para trás.
A Prevenção & Performance Corporativa Integrada nasce da convicção de que o bem-estar das pessoas é um fator determinante para a sustentabilidade e o sucesso das organizações. O que a motivou a criar esta iniciativa e que lacunas identificou no mercado? De que forma este projeto se diferencia das abordagens tradicionais de saúde e bem-estar organizacional?
Nenhuma organização é mais sustentável do que as pessoas que a sustentam. Foi esta convicção, aliada a 25 anos de experiência profissional com famílias, que deu origem à Literacia Humana™ com a iniciativa de Prevenção & Performance Corporativa Integrada., com foco na Parentalidade Integrada.
Ao longo da minha prática clínica, a trabalhar com pais e suas famílias, fui percebendo que, apesar dos enormes avanços científicos, os indicadores de saúde mental em Portugal continuam a aumentar exponencialmente.
Percebi que o que não vemos, dificilmente conseguimos compreender. E aquilo que não compreendemos, dificilmente conseguimos transformar. Toda a mudança começa quando aprendemos a ver.
Acredito que uma parte da resposta está nas profundas mudanças antropológicas das últimas décadas. O contexto onde vivemos mudou profundamente, mas continuamos muitas vezes a interpretar o sofrimento humano como se as condições de vida fossem as mesmas de há uma ou duas gerações.
A adaptação é um dos maiores recursos biológicos e psicológicos do ser humano, mas não é um recurso infinito. Quando as exigências persistem e os contextos deixam de apoiar as pessoas, surgem sinais de sobrecarga que não podem ser explicados apenas pela responsabilidade individual.
Hoje, as organizações são um dos principais contextos que moldam a qualidade de vida das pessoas e, consequentemente, da parentalidade. As organizações não educam as crianças, mas ajudam, todos os dias, a criar as condições em que elas crescem. É por isso que acredito que prevenir passa também por transformar os ecossistemas onde os pais vivem e trabalham.
Defende que "o investimento mais eficiente e sustentável da inteligência organizacional encontra-se na compreensão das pessoas". Num contexto em que produtividade, resultados e competitividade dominam a agenda das organizações, considera que ainda existe uma tendência para desvalorizar a dimensão humana? O que precisa de mudar?
As organizações precisam de desenvolver uma inteligência que vá além da eficiência operacional, nomeadamente, a capacidade de compreender verdadeiramente as pessoas e reconhecer o seu ecossistema onde estão inseridos.
Compreender vai muito além de acumular informação. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento sobre saúde mental, comportamento humano ou parentalidade e, no entanto, nunca houve tantos pais a viver entre a culpa e sofrimento.
A informação, por si só, muda aquilo que sabemos. Mas saber sem ação, não transforma. Conhecer pessoas não significa apenas recolher dados ou aplicar questionários. Significa criar espaços de escuta, reconhecer necessidades diferentes, compreender os contextos individuais e construir soluções ajustadas à realidade de cada pessoa. Conhecer pessoas é uma das maiores formas de inteligência organizacional.
A parentalidade continua, muitas vezes, a ser encarada como um desafio exclusivamente familiar. Porque é fundamental olhar para a parentalidade como uma responsabilidade partilhada e que impacto pode essa mudança de paradigma ter no bem-estar coletivo?
Continuar a olhar para a parentalidade como um assunto exclusivamente privado e isolado, é uma das maiores ironias das organizações modernas. Atualmente a parentalidade é uma das variáveis mais impactantes no desgaste emocional dos colaboradores, pela forma como impacta o conflito trabalho-família, identificado pela investigação como um dos principais fatores associados ao burnout, ao sofrimento psicológico e à diminuição do bem-estar laboral.
A parentalidade não acontece meramente em casa, mas também dentro da sociedade e das organizações. Vivemos num ecossistema de sinergia onde família, escola, comunidade e trabalho se influenciam continuamente. Quando um destes pilares fragiliza, todos os outros sentem inevitavelmente o impacto.
Integrar não é tratar todos da mesma forma. Integrar verdadeiramente é compreender que pessoas diferentes têm necessidades diferentes e criar respostas humanas, individualizadas e sustentáveis, significa substituir respostas genéricas por soluções que respeitem a singularidade de cada colaborador, promovendo uma cultura de confiança, corresponsabilidade e comunicação aberta.
Acredita que muitos dos desafios atuais relacionados com o bem-estar e a parentalidade resultam de mudanças profundas na sociedade. Que mudanças são essas e porque considera importante que organizações e líderes tomem consciência dessa realidade?
Acredito que um dos maiores desafios do nosso tempo é deixarmos de olhar para o sofrimento humano como um fracasso individual e começarmos a reconhecê-lo como um reflexo das profundas mudanças sociais que vivemos nas últimas décadas.
A sociedade em que vivemos mudou e consequentemente a vida individual e coletiva. No entanto, continuamos muitas vezes a interpretar estas transformações com modelos construídos para uma realidade que já não existe.
Hoje os pais enfrentam exigências sem precedentes, acumulam múltiplos papéis e vivem numa sociedade cada vez mais acelerada e individualizada. Quando esta realidade não é reconhecida, é fácil atribuir às pessoas uma responsabilidade que, na verdade, também pertence aos contextos onde vivem e trabalham.
Enquanto procurarmos respostas exclusivamente individuais para desafios que são também coletivos, estaremos apenas a aliviar sintomas. Só aquilo de que tomamos consciência pode verdadeiramente ser transformado, e essa consciência é o primeiro passo para construir organizações mais humanas, preventivas e sustentáveis.
Vivemos numa época em que existe uma enorme quantidade de informação sobre saúde mental, parentalidade e desenvolvimento humano. Ainda assim, os indicadores de sofrimento continuam a aumentar. Porque acredita que isso acontece?
Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. Livros, estudos científicos, cursos, podcasts e redes sociais disponibilizam diariamente informação sobre parentalidade, liderança, saúde mental e desenvolvimento humano. Ainda assim, continuamos a assistir ao aumento do burnout, da ansiedade e da dificuldade em conciliar a vida pessoal e profissional.
O verdadeiro desafio não é a falta de informação, mas sim, a sua integração.
Foi precisamente desta reflexão que nasceu a Literacia Humana™, com o propósito de desenvolver uma abordagem prática que ajuda pessoas e organizações a reconhecer o que está a acontecer, compreender as suas causas, integrar novas perspetivas e transformar esse conhecimento em ações concretas. Porque acredito profundamente que a informação muda aquilo que sabemos, porém, a integração muda aquilo que somos.
Que papel devem assumir os líderes na construção de organizações mais humanas e sustentáveis? Quais considera serem hoje as competências essenciais da liderança?
Durante muito tempo acreditámos que liderar significava definir objetivos, tomar decisões e acompanhar resultados. Hoje percebemos que isso já não é suficiente.
As organizações são feitas de pessoas e as pessoas não deixam a sua dimensão humana à porta quando entram para trabalhar. Trazem consigo histórias, desafios, responsabilidades familiares, emoções e diferentes formas de viver a pressão.
Por isso, acredito que a liderança do futuro será cada vez menos centrada no controlo e cada vez mais na capacidade de compreender pessoas. Não significa que os líderes tenham de ser terapeutas ou resolver os problemas dos colaboradores. Significa, sim, desenvolverem sensibilidade para reconhecer sinais, criar relações de confiança e promover culturas onde pedir ajuda seja visto como um ato de responsabilidade e não de fragilidade. É criar condições para que as pessoas possam dar o seu melhor sem deixarem de ser quem são.
Há uma geração de crianças que cresce num contexto em que o tempo é escasso, os pais vivem sob pressão constante e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional parece cada vez mais difícil de alcançar. Que consequências poderá esta realidade ter no desenvolvimento das futuras gerações e porque deve este tema preocupar líderes, gestores e decisores?
As crianças desenvolvem-se nas relações que constroem diariamente com os adultos que delas cuidam. Quando os cuidadores vivem em permanente sobrecarga, pressão ou exaustão, essa realidade acaba inevitavelmente por influenciar a qualidade das interações, a disponibilidade emocional e a capacidade de responder às necessidades das crianças.
Não se trata de culpabilizar os pais, mas de compreender que ninguém educa isoladamente. As organizações, as escolas e a sociedade fazem parte do ecossistema onde a parentalidade acontece e, por isso, também influenciam o futuro das novas gerações, que são o futuro da sustentabilidade.
Investir no bem-estar parental não é apenas cuidar dos pais de hoje. É contribuir para o desenvolvimento das crianças que serão os profissionais, os líderes e os cidadãos de amanhã. Quem vê pais, vê crianças. Quem vê crianças, vê futuro.
Se tivesse a oportunidade de aconselhar diretamente administradores, diretores de recursos humanos e responsáveis por escolas ou outras organizações, quais seriam as três medidas prioritárias que deveriam implementar para criar ambientes mais saudáveis, sustentáveis e verdadeiramente amigos da parentalidade?
Antes de implementar medidas, aconselharia uma mudança de olhar. Nenhuma política será verdadeiramente eficaz se não partir de uma compreensão genuína das pessoas.
A primeira prioridade seria escutar. Conhecer a realidade dos colaboradores, compreender os seus desafios e tomar decisões sustentadas em necessidades reais.
A segunda seria formar líderes para reconhecerem sinais precoces de sobrecarga, promoverem relações de confiança e desenvolverem competências humanas que complementem as competências técnicas.
A terceira seria estruturar a integração da parentalidade na cultura organizacional com ação, não como um benefício pontual, mas como uma dimensão estratégica da saúde, da prevenção e da sustentabilidade.
Quando as pessoas se sentem vistas, compreendidas e apoiadas, cresce não apenas o bem-estar, mas também o compromisso, a criatividade e o desempenho.
É precisamente neste processo de transformação que acredito que a consultoria pode fazer a diferença: não trazendo soluções iguais para todos, mas ajudando cada organização a construir respostas alinhadas com a sua cultura, as suas pessoas e os desafios específicos que enfrenta.
Olhando para o futuro, acredita que a Parentalidade Integrada deixará de ser um tema periférico para assumir um lugar central nas estratégias de desenvolvimento organizacional? Que mensagem gostaria de deixar a todos os líderes que procuram construir organizações mais humanas, resilientes e preparadas para responder aos desafios das próximas décadas?
Estou convicta de que caminhamos para uma nova forma de pensar as organizações. Durante muito tempo separámos a vida pessoal da vida profissional como se fossem mundos independentes. Hoje sabemos que essa fronteira é cada vez mais ténue e que cuidar das pessoas deixou de ser apenas uma responsabilidade social para se tornar uma decisão estratégica.
Acredito que a Parentalidade Integrada fará parte dessa evolução porque nos recorda uma ideia simples, mas transformadora: antes de sermos colaboradores, líderes ou gestores, somos pessoas. É este o trabalho que desenvolvo através da Literacia Humana™: traduzir conhecimento científico em estratégias aplicáveis, ajudando organizações a passar para a ação e intenção da transformação.
As organizações não educam as crianças, mas influenciam diariamente o contexto em que os pais educam. E quando transformamos esse contexto, estamos também a contribuir para o desenvolvimento das futuras gerações. Humanizar relações e integrar a parentalidade é garantir um presente com consciência e um investimento num futuro sustentável para todos.