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Literacia Financeira: o desafio já não é informar, é capacitar

 Por Dulce Forte, CEO DULCE FORTE CONSULTING GROUP
Membro Fundador e Presidente AESS

Mais de uma década a acompanhar crianças, jovens, trabalhadores, empresários e famílias na forma como lidam com o dinheiro. Ao longo deste percurso fui constatando um paradoxo: nunca se falou tanto de Literacia Financeira em Portugal e, no entanto, continua-se a tomar demasiadas decisões financeiras sem o conhecimento e a confiança necessários. É neste contraste que importa refletir.

Um tema cada vez mais pertinente
Durante muitos anos, falar de Literacia Financeira em Portugal era quase um exercício de pioneirismo. Hoje, o tema entrou na agenda pública: há iniciativas nas escolas, programas públicos e privados, conteúdos nas redes sociais e uma atenção crescente ao bem-estar financeiro.
Mas falar mais sobre dinheiro não significa estar mais preparado para tomar boas decisões. E é aqui que continuamos a falhar. 
Multiplicámos a informação, sem multiplicar a capacidade de a usar.

Literacia Financeira: afinal o que é?
A OCDE define Literacia Financeira como o conjunto de conhecimentos, competências, atitudes e comportamentos que permitem tomar decisões financeiras informadas ao longo da vida. Só a conjugação das quatro dimensões traduz verdadeira Literacia Financeira.
Não se resume a poupar, fazer contas ou investir. Implica compreender conceitos como inflação, juros, crédito, risco, seguros e impostos, mas, sobretudo, saber aplicá-los no dia a dia: elaborar um orçamento, comparar propostas de crédito, interpretar um contrato ou preparar a reforma.
Há também uma dimensão comportamental que costuma ficar esquecida nas campanhas de comunicação. Não basta saber o que deve ser feito; é preciso agir de forma consistente. A disciplina, o planeamento e a capacidade de adiar decisões pesam tanto quanto o conhecimento técnico. É por isso que duas pessoas com rendimentos semelhantes podem ter vidas financeiras muito diferentes: a diferença não está no que ganham, mas em como gerem o que têm.
Num contexto cada vez mais digital, esta competência estende-se ainda à capacidade de avaliar informação nas redes sociais, distinguir educação de publicidade e reconhecer promessas de rentabilidade fácil. Ter acesso a informação não garante que a mesma seja rigorosa ou independente.

Portugal fala mais, mas decide na mesma
Portugal percorreu um caminho importante. O Plano Nacional de Formação Financeira, o envolvimento das entidades de supervisão e o trabalho de escolas, associações e autarquias colocaram o tema na agenda. Hoje fala-se mais sobre dinheiro, orçamento, poupança e investimentos. Esta evolução deve ser reconhecida!
A verdade é que falar mais não tem sido acompanhado de decidir melhor. Muitas pessoas continuam sem elaborar um orçamento, sem fundo de emergência e sem qualquer estratégia financeira de médio ou longo prazo.
Os períodos de inflação elevada e de subida das taxas de juro tornaram isto visível. Muitas famílias perceberam, tarde demais, que uma prestação podia disparar e comprometer o orçamento mensal. O problema não foi apenas falta de informação, as campanhas existiam. Faltou capacidade para interpretar riscos, antecipar cenários e preparar alternativas. É essa distinção que, julgo, continua por resolver em Portugal.

Informação não é o mesmo que capacitação
Uma campanha informa. Capacitar exige tempo, formação, acompanhamento e aplicação prática.
Não basta dizer às pessoas que devem gerir melhor, poupar ou investir. É preciso ajudá-las a fazê-lo dentro da sua realidade concreta, avaliando risco, prioridades e hábitos. Continuamos a tratar a literacia financeira como um problema de comunicação, quando é, antes de mais, um problema de capacitação continuada.

Quem tem responsabilidade: família, escola e empresas
A educação financeira das crianças é indispensável, e quanto mais cedo desenvolverem hábitos de planeamento e consumo responsável, maior a probabilidade dos manterem na vida adulta. Mas a escola sozinha não chega. As famílias têm um papel determinante, porque crenças e comportamentos sobre dinheiro passam entre gerações, e não podemos esquecer os milhões de adultos que nunca tiveram acesso a estes conteúdos e que hoje decidem sobre crédito, habitação, seguros e investimentos.
As empresas também devem assumir um papel mais ativo. Durante anos investiram na saúde física e, mais recentemente, na saúde mental dos colaboradores. Falta reconhecer o peso do bem-estar financeiro: um colaborador preocupado com dívidas ou despesas inesperadas apresenta mais stress e maior risco de absentismo. Investir em literacia financeira nas organizações não devia ser um benefício acessório, mas parte da estratégia de gestão de pessoas, sem nunca substituir, claro, uma remuneração adequada.
Promover Literacia Financeira nas empresas é hoje uma decisão de gestão com impacto no bem-estar, na produtividade e na sustentabilidade das organizações.

Literacia Financeira como inclusão
A Literacia Financeira pode reduzir desigualdades, mas também pode aprofundá-las se continuar a chegar apenas a quem já tem mais recursos. As pessoas com menos rendimentos são, muitas vezes, as que têm menor acesso a formação, e, ao mesmo tempo, aquelas para quem um erro financeiro tem consequências mais graves. Uma taxa de juro elevada, um crédito mal dimensionado ou uma fraude podem desequilibrar um orçamento já limitado.
Por isso, a educação financeira só faz sentido se for acessível e adaptada a diferentes públicos: escolas, empresas, comunidades, desempregados, idosos e pessoas em maior situação de vulnerabilidade.

Competência para a vida
Portugal deu passos importantes, mas o desafio essencial continua por cumprir: precisamos de menos ações isoladas e de mais estratégias continuadas, capazes de promover mudanças reais de comportamento, não apenas mais uma campanha de sensibilização.
A Literacia Financeira não serve apenas para gerir dinheiro. Serve para aumentar a autonomia, reduzir desigualdades, prevenir o sobre-endividamento e preparar o futuro. No fundo, falar de Literacia Financeira é falar de liberdade: para compreender, escolher e decidir com maior segurança.

Mais de uma década no terreno
Escrevo este artigo com base em mais de uma década de trabalho em Literacia Financeira junto de diferentes públicos. Desde 2013 que desenvolvo projetos de educação financeira em escolas, empresas e comunidades e acompanho pessoas na reorganização da sua vida financeira.
Nas escolas, este trabalho é desenvolvido através da AESS – Associação Economia Solidária e Sustentável, onde milhares de jovens já participaram em programas de educação financeira. No contexto empresarial, a Dulce Forte Consulting Group promove ações de formação e programas de bem-estar financeiro para colaboradores e empresários de diferentes setores de atividade. Tenho também trabalhado com pessoas em situação de maior vulnerabilidade, como desempregados, migrantes, refugiados, jovens reclusos e pessoas com necessidades educativas especiais.
Esta experiência tem reforçado uma convicção que procuro transmitir ao longo deste artigo: a informação, por si só, não muda comportamentos. O que transforma vidas é a capacitação, o acompanhamento e a aplicação prática, adaptados à realidade de cada pessoa. É precisamente essa transformação que Portugal precisa de promover: passar da simples divulgação de informação para uma verdadeira cultura de Literacia Financeira, capaz de promover decisões mais conscientes, reforçar a autonomia financeira dos cidadãos e contribuir para um futuro financeiramente mais sustentável.


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