Pesquisar

Utilizamos cookies para garantir que tenha a melhor experiência no nosso site. Ao continuar a utilizar o nosso site, você aceita o uso de cookies e a nossa Política de Privacidade.

A literacia financeira começa cedo mas decide-se na gestão

Por Maria João de Figueiredo, Diretora-Geral da Ciphra e autora de O Cofre da Avó Janica

Falar de literacia financeira continua, demasiadas vezes, a ser associado à poupança familiar, ao crédito ou à gestão do orçamento pessoal. Mas o seu impacto vai muito além disso. A forma como compreendemos o dinheiro, o risco, o custo e a consequência de cada escolha influencia diretamente a qualidade da gestão das empresas e, por extensão, a robustez de todo o mercado.

Muitos gestores conhecem profundamente o seu negócio, dominam a operação, compreendem os clientes e sabem vender. Ainda assim, nem sempre possuem os instrumentos necessários para avaliar o verdadeiro impacto financeiro das decisões que tomam. E é precisamente aí que muitas empresas começam a perder margem, liquidez e capacidade de crescimento.
Contratar uma pessoa, definir um preço, conceder um desconto, aceitar um prazo de pagamento, lançar um produto ou investir em tecnologia são decisões de gestão, mas são também decisões financeiras. Quando essa dimensão não é compreendida, a empresa pode crescer em faturação e, ao mesmo tempo, tornar-se mais frágil.
É possível vender mais e ter menos tesouraria. É possível conquistar clientes e destruir margem. É possível apresentar resultados positivos e não ter liquidez suficiente para cumprir compromissos. Estas contradições não são meros problemas contabilísticos. São sinais de uma gestão que não integrou plenamente o impacto financeiro das suas escolhas.
Um gestor não precisa de substituir o contabilista nem o diretor financeiro. Precisa, porém, de saber interpretar informação, questionar pressupostos e compreender as consequências de cada decisão. Quanto custa realmente esta contratação? Qual é a margem deste cliente? Que impacto terá este investimento na tesouraria? Quanto tempo será necessário para recuperar o capital aplicado?
Quando estas perguntas surgem tarde, a gestão torna-se reativa. A empresa deixa de decidir com liberdade e passa a decidir sob pressão.
Foi também esta preocupação que esteve na origem de O Cofre da Avó Janica. O livro nasceu para aproximar as crianças dos conceitos de escolha, prioridade, poupança e responsabilidade, através de uma linguagem simples e acessível. Porque a literacia financeira não deve começar quando alguém assume a gestão de uma empresa. Deve começar muito antes.
Ensinar uma criança a distinguir uma necessidade de um desejo, a perceber que os recursos são limitados ou que cada escolha implica abdicar de outra possibilidade é formar uma capacidade essencial para a vida adulta. Essa mesma criança poderá, no futuro, gerir um orçamento, liderar uma equipa, criar uma empresa ou decidir um investimento.
A qualidade da gestão não depende apenas de experiência, intuição ou conhecimento do setor. Depende também da capacidade de ler os números e de compreender o que estes revelam sobre o negócio.
Empresas mais fortes exigem gestores mais preparados. E gestores mais preparados começam por ser cidadãos com maior literacia financeira.
Se queremos um mercado mais sólido, empresas mais resilientes e decisões empresariais mais responsáveis, temos de investir na educação financeira desde cedo. Porque cada escolha tem um impacto. E compreender esse impacto é uma das competências mais importantes de qualquer gestor.


Mais Artigos Relacionados "Atualidade"