Pesquisar

Utilizamos cookies para garantir que tenha a melhor experiência no nosso site. Ao continuar a utilizar o nosso site, você aceita o uso de cookies e a nossa Política de Privacidade.

“Não esperem pela autorização de ninguém para serem ambiciosas”

Antes da estratégia, dos resultados e dos cargos de topo, existe uma força que tem vindo a redefinir a forma como se lidera: a visão das mulheres. Numa realidade empresarial em constante transformação, a liderança feminina afirma-se pela capacidade de conciliar propósito, inovação, inteligência emocional e uma visão de longo prazo, demonstrando que liderar é, cada vez mais, influenciar pessoas e construir impacto sustentável. É neste contexto que a Business Voice esteve à conversa com Susana Santos, CEO e Cofundadora da DP-Partners, que partilha a sua visão sobre os desafios, as oportunidades e o papel determinante das mulheres na construção de organizações mais humanas, competitivas e preparadas para o futuro

Ao longo do seu percurso, a liderança deixou de ser apenas uma função para se tornar uma forma de influenciar pessoas, organizações e mercados. Que princípios considera inegociáveis na sua forma de liderar e de que forma acredita que uma liderança autêntica consegue transformar a cultura de uma empresa?
Verdade e coerência. Uma líder deve dizer para onde a organização vai, criar condições para que as pessoas façam bem o seu trabalho e assumir as consequências das decisões tomadas, sejam elas” boas ou más”.
A cultura não nasce de discursos. Nasce do que é tolerado no dia a dia e do exemplo dado por quem lidera. Ser autêntica significa agir de forma consistente com o que se diz, admitir quando não se tem todas as respostas e abrir espaço para que outras pessoas tragam as suas. É esse espaço, mais do que qualquer princípio isolado, que torna as equipas mais autónomas.

Vivemos uma época em que as empresas enfrentam mudanças constantes, desde a transformação digital às novas expectativas das pessoas. Na sua perspetiva, quais são as competências que irão distinguir os grandes líderes da próxima década e que papel terão as mulheres na construção desse novo paradigma de liderança?
A próxima década vai exigir líderes capazes de decidir em contextos de incerteza permanente. 
Vão destacar-se os que souberem interpretar mudanças, integrar tecnologia sem perder o pensamento crítico e mobilizar pessoas em torno de uma direção. A capacidade de aprender, desaprender e ajustar-se rapidamente vai pesar tanto quanto a inteligência emocional.
As mulheres terão um papel central, não por existir uma maneira feminina de liderar, mas porque precisamos de mais diversidade nos lugares onde se decide. Perspetivas diferentes tornam as organizações mais capazes de ler o mercado e antecipar riscos. Não se trata de trocar um modelo por outro, mas de construir modelos mais completos.

Durante muito tempo, o sucesso foi associado a modelos de liderança altamente competitivos e hierárquicos. Hoje fala-se cada vez mais de empatia, colaboração, inteligência emocional e propósito. Considera que estamos perante uma verdadeira mudança de mentalidade ou acredita que ainda existe um longo caminho a percorrer para que estes valores sejam efetivamente reconhecidos como fatores de competitividade?
A mudança existe, mas está longe de estar terminada. Hoje é mais fácil nomear a empatia e a colaboração como competências de liderança do que era há uma década. Ainda assim, muitas organizações continuam, na prática, a premiar o controlo, a disponibilidade permanente e os resultados obtidos a qualquer custo.
Empatia não é ausência de exigência. Colaboração não dispensa responsabilidade individual. E propósito não substitui resultados, soma-se a eles. Uma liderança mais humana só se torna competitiva quando é acompanhada de critério e capacidade de tomada de decisão. O progresso vai acontecer quando estes valores forem tratados como parte da gestão, com impacto direto no talento e na inovação. Não como um discurso paralelo ao negócio.

Enquanto CEO e cofundadora da DP-Partners, certamente já teve de tomar decisões difíceis e assumir riscos significativos. Existe algum momento particularmente desafiante da sua carreira que tenha redefinido a sua forma de liderar e que hoje considere um ponto de viragem na construção da profissional e da líder que é atualmente?
Um dos maiores pontos de viragem foi decidir construir a DP-Partners. Criar uma empresa própria obrigou-me a assumir, na primeira pessoa, o risco, a incerteza e a responsabilidade por cada decisão.
Esse processo ensinou-me que liderar não é ter sempre certezas. É decidir com a informação disponível, corrigir o rumo quando necessário e continuar a avançar sem perder a direção. Também me mostrou que a ambição precisa de estrutura: uma visão só se transforma em negócio com prioridades, disciplina e execução.
Hoje sou uma líder mais consciente da importância de não centralizar tudo. Crescer significa confiar, delegar e aceitar que outras pessoas encontrem caminhos diferentes dos meus. Liderar passou a ser construir uma organização capaz de gerar resultados para além da presença da fundadora.

Inspirar é muito mais do que alcançar resultados; é criar oportunidades para que outros também cresçam. Que legado gostaria de deixar através da sua liderança e de que forma procura potenciar o talento, incentivar a diversidade e preparar a próxima geração de líderes, em especial mulheres que ambicionam chegar a cargos de decisão?
Gostaria de contribuir para que mais empresas portuguesas passassem a tratar o marketing como uma área de gestão. Capaz de participar nas decisões do negócio e gerar resultados mensuráveis, não apenas comunicação.
Mas o legado que mais valorizo está no impacto nas pessoas que trabalham comigo. Procuro criar oportunidades de aprendizagem, dar contexto às decisões e permitir que cada pessoa assuma mais responsabilidade, desenvolver talento não é transmitir conhecimento, é criar espaço para experimentar, errar, refletir e evoluir.
Quanto às mulheres, acredito que precisamos de mais exemplos de mulheres que lideram empresas, tomam decisões financeiras, assumem riscos e ocupam lugares onde continuam pouco representadas. Quero contribuir para que outras percebam que não precisam de esperar sentir-se totalmente preparadas. A competência também se constrói ao aceitar o desafio.

Se tivesse a oportunidade de reunir à mesma mesa todas as jovens mulheres que sonham criar uma empresa, assumir uma posição de liderança ou transformar um setor de atividade, qual seria a principal mensagem que lhes deixaria sobre coragem, ambição e a capacidade de construir uma carreira com impacto sem perderem a sua autenticidade?
Não esperem pela autorização de ninguém para serem ambiciosas.
A ambição feminina continua, muitas vezes, a ser lida de forma diferente. Uma mulher determinada pode ser vista como difícil. Uma mulher exigente, como pouco empática. Uma mulher confiante sente que precisa de justificar aquilo que pretende alcançar.
Não reduzam a vossa ambição para deixar os outros mais confortáveis. Mas preparem-se: estudem, desenvolvam competências, conheçam bem o setor onde querem atuar e aprendam a decidir.
A coragem não é ausência de medo. É avançar com consciência do risco e assumir a responsabilidade pelo caminho escolhido. Não precisam de copiar modelos de liderança que não vos representam; a autenticidade está em evoluir sem abandonar os princípios que vos orientam. E não precisam de estar totalmente preparadas para começar.  Precisam sim, de estar disponíveis para aprender enquanto avançam.

Mais Artigos Relacionados "Atualidade"