“Não deixem que as dúvidas falem mais alto do que a Vossa vontade de Crescer”
Num setor onde a confiança, o rigor e a capacidade de encontrar soluções fazem a diferença na vida das famílias e das empresas, as mulheres têm vindo a assumir um papel cada vez mais relevante na Intermediação de Crédito. Longe de serem apenas protagonistas de uma mudança estatística, estão a transformar a forma como este mercado comunica, aconselha e cria relações de proximidade com os clientes.
Nesta entrevista, Maria de São João Cavalheiro, Diretora de Unidade de Intermediação de Crédito da Xfin Trust, partilha a sua visão sobre a crescente influência feminina num setor em constante evolução. Entre desafios, conquistas e oportunidades, reflete sobre a importância da liderança no feminino, o valor da empatia aliada ao conhecimento técnico e o impacto que as mulheres têm tido na credibilização e humanização da Intermediação de Crédito. Uma conversa que revela como o talento, a competência e a determinação estão a contribuir para redefinir o futuro desta profissão.
O setor da intermediação de crédito continua a ser percecionado como um mercado tradicional e altamente técnico. Na sua experiência, de que forma a liderança feminina tem contribuído para transformar a relação entre os clientes, a confiança e a tomada de decisão financeira? Há características que considera distintivas na forma como as mulheres lideram neste setor?
Ao longo dos últimos anos temos assistido a uma evolução muito positiva na forma como o setor da intermediação de crédito é percecionado.
Embora continue a ser uma atividade técnica, regulada e exigente, verifico que existe uma crescente valorização das competências humanas, da proximidade e da capacidade de compreender verdadeiramente as necessidades dos clientes.
A liderança feminina tem contribuído significativamente para esta transformação. Na minha experiência, muitas mulheres líderes destacam-se pela capacidade de escuta, pela empatia e por uma abordagem orientada para a construção de relações duradouras.
Estas características permitem criar um ambiente de maior confiança, algo fundamental quando falamos de decisões financeiras que impactam diretamente a vida das famílias e das empresas. Mais do que vender uma solução financeira, o nosso papel passa por acompanhar pessoas em momentos importantes das suas vidas.
Estamos presentes quando alguém compra a primeira casa, reorganiza a sua situação financeira ou procura melhores condições para alcançar os seus objetivos.
Nesses momentos, a confiança torna-se determinante.
Não considero que existam características exclusivamente femininas ou masculinas na liderança.
Contudo, acredito que muitas mulheres tendem a adotar uma gestão mais colaborativa, inclusiva e próxima das pessoas. Essa forma de liderar gera equipas mais motivadas e clientes mais confiantes.
O setor beneficia claramente da diversidade. Quanto mais diferentes forem as perspetivas presentes nas organizações, maior será a capacidade de inovar, compreender o mercado e responder aos desafios que surgem diariamente.
Criar uma marca própria, como a Xfin TRUST, representa muito mais do que empreender: é assumir uma visão, uma reputação e uma responsabilidade. Que desafios encontrou ao afirmar-se enquanto mulher empreendedora num mercado onde a credibilidade é um ativo decisivo e como conseguiu transformar esses desafios em vantagem competitiva?
Criar uma marca própria exige coragem, resiliência e uma enorme capacidade de acreditar numa visão.
Quando decidi avançar com este projeto, sabia que não estava apenas a criar uma empresa. Estava a construir uma identidade, uma cultura e uma promessa de valor para os clientes.
Naturalmente, existiram desafios. Num setor onde a credibilidade é determinante, cada decisão conta.
Foi necessário demonstrar competência técnica, consistência e profissionalismo, desde o primeiro dia. Como muitas mulheres empreendedoras, senti por vezes a necessidade de provar mais rapidamente aquilo que era capaz de fazer.
No entanto, encarei esse desafio como uma oportunidade para reforçar os meus padrões de qualidade e exigência.
A maior vantagem competitiva surgiu precisamente da autenticidade.
Em vez de tentar reproduzir modelos existentes, procurei desenvolver uma abordagem própria, baseada na confiança, na transparência e na proximidade com os clientes. Acredito que as pessoas valorizam cada vez mais relações genuínas e aconselhamento personalizado.
Outro fator decisivo foi a capacidade de transformar desafios em aprendizagem. Cada obstáculo permitiu melhorar processos e consolidar uma cultura organizacional orientada para a excelência. O sucesso sustentável não nasce apenas dos resultados financeiros. Constrói-se através da reputação, da credibilidade e da confiança conquistada diariamente.
É essa visão que continua a orientar o nosso crescimento e a nossa presença no mercado.
Vivemos uma época em que a Inteligência Artificial, a digitalização e a automatização estão a redefinir os serviços financeiros. Acredita que estas tecnologias irão aproximar ou afastar a componente humana da intermediação de crédito? E onde considera que o fator humano continuará a ser absolutamente insubstituível?
Vejo a tecnologia como uma grande aliada da intermediação de crédito.
A Inteligência Artificial, a digitalização e a automatização permitem tornar os processos mais rápidos, eficientes e seguros. Conseguem reduzir tarefas repetitivas, acelerar análises e melhorar a qualidade da informação disponível para a tomada de decisão.
Contudo, não acredito que estas tecnologias eliminem a componente humana. Pelo contrário, penso que irão valorizar ainda mais o papel dos profissionais.
Quando a tecnologia assume tarefas operacionais, os especialistas podem dedicar mais tempo ao aconselhamento estratégico e ao acompanhamento próximo dos clientes.
Isto significa mais disponibilidade para compreender necessidades específicas, analisar contextos pessoais e encontrar soluções adequadas a cada situação.
Existem aspetos que dificilmente poderão ser substituídos por algoritmos. A interpretação de circunstâncias particulares, a gestão emocional de decisões complexas e a construção de uma relação de confiança são exemplos claros.
Quando uma família procura financiamento para adquirir uma habitação, não está apenas a analisar números. Está a concretizar um projeto de vida. Nessas situações, a empatia, a experiência e a capacidade de orientação humana são indispensáveis.
Acredito que o futuro não será uma escolha entre tecnologia ou pessoas. Será uma integração inteligente entre ambas. As organizações mais bem-sucedidas serão aquelas que conseguirem combinar inovação tecnológica com uma forte cultura centrada no cliente.
A confiança é, provavelmente, a moeda mais valiosa na intermediação de crédito. Num contexto em que os consumidores têm acesso a informação quase ilimitada, como se constrói hoje uma relação de confiança duradoura? Que papel desempenham a transparência, a ética e a comunicação nesta nova realidade?
A abundância de informação trouxe novas oportunidades, mas também novos desafios. Hoje, os consumidores chegam muitas vezes aos profissionais já munidos de dados, pesquisas e comparações.
Por isso, a confiança não se conquista apenas através do conhecimento técnico.
A confiança constrói-se através da coerência entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos. Os clientes valorizam profissionais que comunicam com clareza, explicam os riscos e benefícios de cada solução e colocam os interesses do cliente acima de qualquer objetivo de curto prazo.
A transparência é fundamental. As pessoas querem compreender os produtos que contratam, conhecer os custos envolvidos e perceber exatamente quais serão os impactos das suas decisões financeiras. Quanto mais transparente for a comunicação, maior será a confiança gerada.
A ética assume igualmente um papel central. Num setor baseado em responsabilidade e credibilidade, a reputação constrói-se ao longo de anos, mas pode ser comprometida por uma única decisão errada. Por isso, a integridade deve estar presente em todos os processos e relacionamentos.
A comunicação também evoluiu. Os clientes procuram respostas rápidas, acessíveis e claras. No entanto, rapidez não significa superficialidade.
Continuamos a ter a responsabilidade de informar de forma rigorosa e de assegurar que cada pessoa toma decisões fundamentadas.
Uma relação de confiança duradoura resulta da combinação entre competência, transparência, ética e proximidade humana. São esses pilares que permitem construir relações sólidas e sustentáveis ao longo do tempo.
Muito se fala sobre igualdade de oportunidades, mas pouco sobre igualdade de influência. Na sua opinião, o que ainda falta acontecer para que mais mulheres ocupem posições de referência e liderança no setor financeiro e da intermediação de crédito? A mudança depende mais das organizações ou da própria ambição das profissionais?
Acredito que a evolução passa por um compromisso conjunto entre organizações e profissionais. Não devemos olhar para esta questão como uma responsabilidade exclusiva de uma das partes.
As organizações têm o dever de criar ambientes inclusivos, promover oportunidades de crescimento e garantir que a progressão profissional se baseia no mérito, nas competências e nos resultados. É importante existirem políticas que incentivem a diversidade e valorizem diferentes estilos de liderança.
Ao mesmo tempo, é fundamental que as mulheres reconheçam o seu potencial, assumam desafios e ocupem espaços de decisão com confiança. Muitas vezes, o talento existe, mas é necessário criar condições para que seja visível e reconhecido.
Outro aspeto relevante é a existência de referências. Quando vemos mulheres em posições de liderança, torna-se mais fácil para outras profissionais acreditarem que também podem alcançar esses lugares.
A representação tem um impacto muito significativo na transformação cultural das organizações.
Considero igualmente importante investir em formação, mentoria e desenvolvimento de competências de liderança. Estes instrumentos ajudam a preparar profissionais para assumir responsabilidades cada vez maiores.
O objetivo não deve ser promover mulheres apenas por serem mulheres. O objetivo deve ser garantir que ninguém encontra barreiras artificiais ao seu crescimento.
Quando o talento tem oportunidade de se desenvolver, todos beneficiam: as pessoas, as empresas e a própria economia.
Num mercado cada vez mais competitivo, onde os produtos financeiros tendem a ser semelhantes, o verdadeiro fator diferenciador passa pelas pessoas. Que competências acredita que serão indispensáveis para os profissionais da intermediação de crédito nos próximos cinco a dez anos?
Os próximos anos serão marcados por uma combinação cada vez maior entre competências técnicas e competências humanas.
Os profissionais da intermediação de crédito terão de dominar ferramentas digitais, compreender novas tecnologias e acompanhar a evolução regulatória do setor.
No entanto, as competências humanas continuarão a ser decisivas. A capacidade de comunicação, negociação, escuta ativa e relacionamento interpessoal será cada vez mais valorizada.
Outra competência essencial será a adaptabilidade. O mercado está em constante mudança e os profissionais terão de aprender continuamente para acompanhar novas exigências, produtos e modelos de negócio.
O pensamento crítico também ganhará importância. Num mundo onde existe enorme quantidade de informação disponível, saber interpretar dados, avaliar cenários e apoiar decisões estratégicas será uma vantagem competitiva.
A inteligência emocional será igualmente indispensável. Trabalhamos diariamente com pessoas que enfrentam decisões financeiras relevantes e, muitas vezes, emocionalmente exigentes. Compreender essas emoções e saber gerir expectativas continuará a ser um diferencial importante.
Finalmente, destaco a ética e a responsabilidade profissional. A confiança continuará a ser o principal ativo do setor e apenas os profissionais que atuarem com transparência e integridade conseguirão construir relações duradouras e sustentáveis.
Fruto da sua visão e experiência, que conselho deixaria às mulheres que pretendem iniciar uma carreira nesta área?
O primeiro conselho que deixaria é que não deixem que as dúvidas falem mais alto do que a vossa vontade de crescer. É muito importante a capacidade de reconhecer o nosso valor e não ter receio de o demonstrar.
O setor financeiro e a intermediação de crédito oferecem oportunidades muito interessantes para quem está disposto a aprender, a se comprometer, crescer e assumir desafios.
É importante investir na formação técnica e na atualização constante de conhecimentos. Trata-se de uma área dinâmica e em permanente evolução, o que exige preparação e compromisso com a aprendizagem contínua.
Ao mesmo tempo, aconselho a desenvolver competências relacionais. O sucesso nesta atividade depende tanto do conhecimento financeiro como da capacidade de criar relações de confiança com clientes, parceiros e equipas.
Não tenham receio de fazer perguntas, procurar mentores e aprender com profissionais mais experientes. O crescimento profissional é muitas vezes acelerado quando existe abertura para ouvir diferentes perspetivas e adquirir novas competências.
Também considero importante preservar a autenticidade. Não é necessário adotar modelos de liderança que não correspondem aos nossos valores ou personalidade. As pessoas valorizam profissionais genuínos, consistentes e confiáveis.
Por fim, diria para manterem a perseverança, mesmo quando o percurso se torna mais desafiante. Todos os percursos profissionais apresentam desafios. O que verdadeiramente faz a diferença é a capacidade de persistir, aprender e continuar a avançar com determinação.
Se tivesse a oportunidade de definir uma verdadeira "Agenda da Liderança Feminina" para o setor da intermediação de crédito nos próximos anos, quais seriam as prioridades que defenderia para tornar o mercado mais inovador, inclusivo e preparado para os desafios do futuro?
A minha visão para uma Agenda da Liderança Feminina assenta em três grandes pilares: inclusão, inovação e sustentabilidade.
Em primeiro lugar, defenderia iniciativas que promovam uma maior participação das mulheres em funções de liderança e decisão. Quanto mais diversos forem os órgãos de gestão e as equipas estratégicas, maior será a capacidade das organizações responderem aos desafios do mercado.
Em segundo lugar, apostaria fortemente na formação contínua. O futuro será cada vez mais digital e tecnológico, pelo que é essencial garantir que os profissionais dispõem das competências necessárias para liderar processos de transformação e inovação.
Outra prioridade seria o fortalecimento de redes de colaboração e mentoria. A partilha de experiências entre profissionais contribui para acelerar o desenvolvimento de talento e criar novas oportunidades de crescimento.
Defenderia igualmente uma cultura organizacional assente no equilíbrio entre desempenho e bem-estar. Empresas sustentáveis são aquelas que conseguem gerar resultados sem comprometer a qualidade de vida das suas pessoas.
Por fim, procuraria reforçar a importância da ética, da responsabilidade social e da confiança como fatores centrais do setor. Num contexto de mudança acelerada, estes valores continuarão a ser fundamentais para garantir a credibilidade das instituições e a proteção dos consumidores.
Acredito que o futuro da intermediação de crédito será mais inovador, mais humano e mais inclusivo. E estou convencida de que a liderança feminina terá um papel determinante na construção desse futuro, contribuindo com visão, competência e uma capacidade crescente de gerar impacto positivo nas organizações e na sociedade.