“Elevar a literacia financeira em Portugal exige uma abordagem consistente”
Na mais recente edição da Business Voice, Alexandre Cêa, Contabilista Certificado da Entre Números, partilhou a sua visão sobre a importância da Literacia Financeira no contexto empresarial e pessoal. Durante a entrevista, destacou como o conhecimento financeiro é um pilar essencial para decisões mais conscientes, estratégicas e sustentáveis, reforçando a necessidade de aproximar a contabilidade do dia a dia das pessoas e das empresas. A conversa trouxe uma perspetiva prática e acessível sobre como elevar a literacia financeira pode transformar a forma como gerimos recursos e planeamos o futuro.
Como avalia o nível atual de literacia financeira em Portugal, tanto entre cidadãos como entre pequenas e médias empresas? O que considera ser o maior desafio que enfrentamos neste campo?
O nível de literacia financeira em Portugal tem vindo a melhorar, mas continua abaixo da média europeia existindo uma compreensão limitada de conceitos básicos como inflação, taxa de juro real, risco, retorno ou diversificação. Esta fragilidade reflete-se em decisões financeiras pouco informadas, maior vulnerabilidade ao endividamento, dificuldades na gestão do orçamento e criação de poupança regular ou até a interpretar informação económica básica.
Nas pequenas e médias empresas, que representam a maioria do tecido empresarial português, os desafios são semelhantes. Muitas empresas têm fragilidades na gestão de tesouraria, análise de custos e planeamento e os empresários continuam a gerir o negócio com base na experiência prática, mas com pouca atenção aos indicadores financeiros que sustentam decisões estratégicas. Conceitos como fluxo de caixa, margens operacionais, análise de custos ou planeamento fiscal são frequentemente subvalorizados, o que limita a capacidade de crescimento, de investimento e de antecipação de riscos.
Penso que o maior desafio é, simultaneamente, cultural e estrutural e pode ser descrito como “Transformar conhecimento em comportamento sustentável”. Muitos cidadãos já leram/ouviram os conceitos financeiros, mas ficam com a perceção que o tema é complexo e destinado apenas a especialistas o que os afasta da procura ativa de conhecimento e faz com que a formação financeira não seja encarada como ferramenta essencial para a autonomia e sustentabilidade económica. Nas empresas, existe maior consciência da importância da gestão financeira, mas falta tempo, recursos ou formação para a aplicar de forma sistemática.
A literacia financeira tem vindo a ganhar destaque nos últimos anos, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Na sua opinião, quais são as principais lacunas ou erros mais frequentes que observa no dia a dia dos portugueses em termos de gestão financeira?
A principal lacuna é que o conhecimento não se traduz em hábitos. Começa tudo na falta de planeamento financeiro, tanto a curto como a longo prazo. A falta de planeamento tem impacto no resto da gestão financeira e provoca vários erros. A maioria das pessoas não faz um orçamento mensal, não define objetivos claros e não controla as despesas. Sem este controlo perde-se noção de onde gastamos o dinheiro, o que dificulta a criação de hábitos de poupança consistentes.
Ao nível da poupança, não existe o fundo de emergência para imprevistos, o que torna as pessoas vulneráveis a crises ou situações inesperadas. Muitas pessoas que já têm o hábito de poupar, mas muitas vezes poupam “o que sobra” (e raramente sobra). Quando a poupança não é automatizada e incluída no planeamento muitas vezes não é feita.
Outro erro recorrente é a utilização pouco consciente do crédito. A facilidade de acesso a financiamento leva, por vezes, a decisões impulsivas, sem avaliação do impacto das taxas, prazos ou encargos associados. Este comportamento resulta em endividamento excessivo e perda de controlo financeiro.
O investimento é outro ponto crítico. A compreensão sobre produtos financeiros e fiscais é limitada o que causa receio de investir. Não se conhecem os benefícios ou obrigações que podem otimizar o seu rendimento disponível, nem as implicações de escolhas que fazem ao longo do ano.
Também é comum observar-se uma falta de atenção aos sinais financeiros do dia a dia: não comparar preços, não rever contratos, não analisar extratos ou desconhecer a saúde financeira do agregado ou do negócio ou então tomar uma decisão porque ouviu alguém que fez igual.
Enquanto Contabilista Certificado, lida diariamente com decisões financeiras e empresariais. Que impacto tem a falta de literacia financeira na sustentabilidade das empresas portuguesas?
A falta de literacia financeira tem um impacto direto e profundo na sustentabilidade das empresas portuguesas, sobretudo nas micro, pequenas e médias organizações que constituem a base do tecido empresarial nacional. Quando o empresário não domina conceitos fundamentais como fluxo de caixa, margens, custos operacionais, ponto de equilíbrio ou planeamento fiscal a tomada de decisão torna-se reativa, intuitiva e, muitas vezes, desalinhada das necessidades reais do negócio.
A ausência de controlo financeiro conduz a problemas como dificuldades de tesouraria, falta de capacidade para investir, incumprimento de obrigações fiscais e uma visão limitada sobre riscos e oportunidades. As decisões são tomadas com base no saldo disponível e não nos fluxos futuros, ou por reação a crises em vez da sua prevenção.
Adicionalmente, impede uma relação eficiente com instituições bancárias, fornecedores e até com o próprio contabilista. Sem compreender a informação apresentada, o empresário perde capacidade de negociação, atrasa decisões estratégicas e reduz a agilidade necessária para adaptar o negócio a contextos económicos mais exigentes.
Muitas vezes recorre-se a crédito sem analisar o impacto real e o resultado são empresas com endividamento excessivo, créditos de curto prazo usados para necessidades estruturais, renegociações tardias e fragilidades perante os aumentos de taxas de juro.
O desconhecimento da rentabilidade real faz com que muitos empresários não saibam quais os produtos/serviços que dão lucro, baseiam-se em preços de mercado e não no custo, confundem volume de vendas com rentabilidade. Sem esta informação, não conseguem crescer de forma saudável, corrigir operações e eliminar atividades deficitárias.
A escola prepara-nos (ou deveria preparar-nos) para a vida. Considera que o sistema educativo português dá a devida importância à educação financeira? Que tipo de conteúdos ou competências deveriam ser introduzidos desde cedo?
Temos visto a integração de alguns conteúdos de educação financeira, mas de forma limitada e pouco estruturada. A formação financeira não é ainda tratada como uma competência essencial, surgindo muitas vezes de forma superficial, dispersa ou dependente de iniciativas pontuais.
A maioria dos estudantes sai do ensino básico e secundário sem compreender conceitos como poupança, orçamento, crédito, investimento ou impostos o que limita que desenvolvam desde cedo hábitos e capacidades de tomar decisões informadas.
“A educação começa em casa”, mas se os adultos em casa também não tiveram educação financeira também poderão não conseguir educar da melhor forma, o que cria desigualdades. Educar financeiramente não é apenas ensinar a poupar, é ajudar a desenvolver hábitos, consciência e competência. Num mundo cada vez mais complexo e digital, onde decisões financeiras são constantes, preparar uma criança para compreender o valor do dinheiro é tão essencial quanto ensiná-la a ler ou a escrever.
É essencial introduzir conteúdos práticos e progressivos, ajustados à idade e ao contexto dos estudantes como compreensão do valor do dinheiro, importância da poupança, orçamento pessoal e familiar, funcionamento do crédito, planeamento, identificação de comportamentos de risco e noções elementares sobre impostos e segurança social.
A introdução destas matérias de forma regular e aplicada — com exercícios reais, simulações e ligação ao quotidiano — permitiria desenvolver autonomia, sentido crítico e responsabilidade financeira.
O digital trouxe novas oportunidades, mas também novos riscos. Acha que as ferramentas digitais, como apps de gestão financeira, criptomoedas e plataformas de investimento, estão a ajudar ou a confundir ainda mais os cidadãos?
As ferramentas digitais democratizam o acesso à informação e têm potencial para facilitar a gestão financeira, mas o seu impacto depende sobretudo do nível de literacia financeira de quem as utiliza.
As aplicações de controlo de despesas, plataformas de investimento e soluções de banking permitem maior autonomia na gestão do orçamento, na poupança e no investimento, contudo, para muitos, a velocidade com que estas tecnologias evoluem e a falta de conhecimento técnico tornam-se fatores de risco.
Se não se compreendem os conceitos essenciais tais como volatilidade, diversificação, taxas, segurança digital ou perfis de risco, torna-se mais fácil cair em decisões precipitadas, confiar em plataformas não reguladas ou utilizar produtos inadequados ao seu objetivo financeiro.
O fenómeno das criptomoedas e dos investimentos de alto risco é um exemplo claro deste desafio: atraem pela promessa de retorno rápido, mas exigem um nível de análise e prudência que muitos utilizadores ainda não possuem.
As ferramentas digitais não são, por si só, um problema ou uma solução. Podem empoderar os cidadãos, desde que acompanhadas de educação financeira sólida e de uma utilização informada e responsável. Sem esse suporte, corre-se o risco de ampliar erros e fragilidades já existentes.
Nos últimos anos temos assistido a um aumento do empreendedorismo em Portugal. Como avalia o nível de literacia financeira dos empreendedores portugueses? Estão preparados para gerir o crescimento e os riscos dos seus negócios?
Temos assistido a um crescimento significativo do empreendedorismo, impulsionado por novas ideias, tecnologia e um ecossistema de apoio mais estruturado. No entanto, este dinamismo nem sempre vem acompanhado de um nível adequado de literacia financeira. Muitos empresários iniciam os seus negócios com conhecimento sólido da sua área de atuação ou do produto que oferecem, apostam na operação e marketing, mas dedicam pouca atenção à estrutura financeira que sustenta a continuidade do negócio.
Apesar dos casos de sucesso, de forma geral, muitos empreendedores não estão totalmente preparados para lidar com a complexidade financeira que acompanha a expansão de um negócio, nem para enfrentar situações de incerteza económica, crédito ou risco de mercado.
Embora existam cada vez mais ferramentas e programas de apoio, a verdade é que muitos empreendedores não estão totalmente preparados para gerir o crescimento ou para responder a imprevistos. A sustentabilidade do negócio depende, em grande medida, da capacidade de transformar informação financeira em decisões conscientes e ajustadas à realidade da empresa.
Reforçar a literacia financeira no ecossistema empreendedor é crucial. Não apenas para evitar erros comuns, mas para garantir que boas ideias se transformam em negócios sólidos, eficientes e preparados para enfrentar os desafios de um mercado em constante mudança.
A pandemia e a inflação recente obrigaram muitas famílias e empresas a repensar as suas finanças. Que lições financeiras acredita que o país aprendeu (ou devia ter aprendido) com estes períodos de instabilidade?
A disciplina, o planeamento, a capacidade de adaptação e a literacia financeira são fatores determinantes para enfrentar crises e assegurar sustentabilidade a longo prazo.
A pandemia e a inflação recente mostraram que a educação financeira deveria ser uma prioridade em todas as idades pois não sabemos o dia de amanhã. Aprender estas lições financeiras não é apenas útil, é determinante. Fomos obrigados a refletir nas nossas finanças e a planear um futuro incerto. Muitas famílias sentiram o impacto de não planearem o futuro e de viver “no limite” do que recebem, no “chapa ganha, chapa gasta”, ou depender exclusivamente de rendimentos correntes.
Para muitos o fundo de emergência tornou-se essencial para enfrentar as despesas correntes sem recorrer a endividamento excessivo. Ficou evidente que controlar despesas e planear o orçamento é crucial: famílias que gerem cuidadosamente os seus gastos e empresas que controlam os custos conseguem atravessar períodos de instabilidade com maior segurança e estabilidade.
Outra lição importante foi a necessidade de diversificar rendimentos e investimentos, ou como se diz na gíria financeira “não colocar todos os ovos no mesmo cesto”. Ter múltiplas fontes de receita permite reduzir riscos e enfrentar melhor as situações económicas adversas. No contexto empresarial, a crise evidenciou a importância de avaliar riscos financeiros e estratégicos antes de tomar decisões críticas.
Enquanto algumas empresas tiveram de lutar contra falências, perdas significativas ou dificuldades prolongadas que poderiam ser evitadas com planeamento e estratégia, outras, apoiadas em conhecimentos financeiros, encontraram durante a pandemia oportunidades de diversificar os seus serviços.
Enquanto profissional do setor, como encara o papel dos contabilistas na promoção da literacia financeira? Acha que a profissão está suficientemente valorizada nesse sentido?
Enquanto contabilista, considero que desempenho um papel fundamental na promoção da literacia financeira. Para além das funções tradicionais de contabilidade e reporte fiscal, apoiamos os nossos clientes na gestão financeira, planeamento e análise, contribuindo para decisões mais informadas e sustentáveis. Esta função educativa e consultiva coloca os contabilistas como verdadeiros orientadores da literacia financeira, transformando conhecimento técnico em prática diária.
No entanto acredito que a profissão não está totalmente valorizada nesse sentido. Para muitos o contabilista continua como uma “obrigação legal” ou responsáveis por entregar impostos, sem reconhecer o seu papel estratégico na educação financeira e na tomada de decisão. Para mudar esta perceção, é essencial reforçar o papel do contabilista como parceiro estratégico, capaz de orientar, formar e apoiar na gestão responsável do dinheiro, transformando informação financeira em vantagem prática.
Na Entre Números, acreditamos profundamente na relação de parceria com os nossos clientes. O nosso objetivo vai muito além do papel tradicional de contabilista, não somos apenas técnicos de números, mas parceiros próximos, capazes de compreender de forma profunda as necessidades e desafios financeiros de cada cliente.
A literacia financeira não é apenas saber fazer contas — é também uma questão de mentalidade e comportamento. Como podemos mudar a relação cultural dos portugueses com o dinheiro, o investimento e o planeamento financeiro?
Mudar hábitos culturais é sempre um desafio. Para mudar a relação dos portugueses com o dinheiro, o investimento e o planeamento financeiro, é necessário atuar em várias frentes, combinando educação, sensibilização e prática.
Esta mudança deveria ser iniciada nas escolas desde cedo, abordando conceitos básicos como poupança, orçamento, investimento e gestão para permitir criar hábitos sólidos desde a infância, preparar os jovens para tomar decisões conscientes no futuro e promover a transmissão desse conhecimento às gerações anteriores e seguintes.
Ao mesmo tempo, campanhas públicas e programas de sensibilização podem demonstrar de forma prática os benefícios de poupar, investir e planear financeiramente, tornando estes temas mais acessíveis, concretos e menos intimidantes para toda a população.
Os profissionais como contabilistas e consultores desempenham um papel essencial como parceiros estratégicos, mas é necessário consciencializar as pessoas que estes profissionais são uma mais-valia neste processo e não o “bicho papão” de quem só queremos distância.
Por fim, olhando para o futuro, que passos considera essenciais para elevar a literacia financeira em Portugal nos próximos anos?
Elevar a literacia financeira em Portugal exige uma abordagem consistente, contínua e integrada entre escola, famílias, empresas e instituições públicas.
O primeiro passo é reforçar a educação financeira desde os primeiros ciclos de ensino, através de conteúdos práticos e adaptados à idade, promovendo hábitos de poupança, noções de orçamento, compreensão do crédito e responsabilidade no consumo. Esta formação deve estender-se ao ensino secundário e superior, garantindo que todos os jovens entram na vida adulta com bases sólidas.
Paralelamente, considero essencial investir na capacitação financeira dos empresários, em especial das micro e pequenas empresas. A disponibilização de programas de formação acessíveis, ferramentas simples de gestão e acompanhamento técnico pode reduzir significativamente riscos de má gestão e aumentar a sustentabilidade dos negócios. O papel do contabilista é determinante neste processo, mas deve ser complementado por políticas públicas que promovam formação contínua e simplificação administrativa.
O acesso à informação deve ser melhorado para ser a mais fácil, clara e fiável. A comunicação sobre impostos, crédito, apoios e produtos financeiros deve ser mais transparente, evitando linguagem excessivamente técnica. A literacia financeira deve ser encarada como uma prioridade nacional, reforçada pelos meios digitais, mas sempre acompanhada de orientação adequada para evitar riscos associados e desinformação.