“Acredito que as Mulheres têm demonstrado cada vez mais a sua capacidade para assumir responsabilidades”
Nascida em Caracas, na Venezuela, cidadã portuguesa e com raízes familiares na Madeira, Jacqueline Pereira construiu o seu percurso entre diferentes culturas, experiências profissionais e desafios pessoais. Hoje reside na Figueira da Foz, é casada e mãe de dois filhos. Durante vários anos esteve ligada, juntamente com o marido, a um negócio familiar na área das salinas, uma experiência que lhe trouxe um contacto muito direto com clientes, fornecedores, decisões empresariais e os desafios próprios de quem gere o seu próprio negócio. A passagem para a intermediação de crédito representou uma mudança de setor, mas não uma rutura com aquilo que sempre marcou o seu percurso: o contacto com pessoas, a capacidade de adaptação, a responsabilidade e a vontade de construir relações duradouras.
Hoje, enquanto Diretora de Unidade da Xfin SOLIDEZ, Jacqueline Pereira inicia um novo capítulo profissional, trazendo consigo uma história que vai muito além do crédito e dos números. Saiba tudo na entrevista dada à Business Voice.
Antes de ser Diretora de Unidade da Xfin SOLIDEZ, houve uma mulher com sonhos, escolhas e desafios. Como é que a intermediação de crédito entrou na sua vida e o que a fez perceber que este poderia ser o caminho profissional que queria construir?
O meu percurso até chegar à intermediação de crédito foi feito de diferentes etapas e acredito que todas elas contribuíram para a profissional que sou hoje.
Nasci em Caracas, na Venezuela, tenho raízes familiares na Madeira e construí a minha vida em Portugal. Atualmente vivo na Figueira da Foz com o meu marido e os nossos dois filhos, e a família sempre teve um papel muito importante nas decisões que fui tomando ao longo da vida.
Profissionalmente, estive sempre muito ligada à área comercial e, durante vários anos, fui também empresária juntamente com o meu marido, numa empresa familiar ligada às salinas. Foi uma experiência muito enriquecedora, porque num negócio próprio aprendemos a fazer um pouco de tudo: lidar com pessoas, negociar, resolver problemas, tomar decisões e assumir responsabilidades diariamente.
A intermediação de crédito já era uma área que me despertava interesse, mas foi a minha própria experiência com o crédito habitação que me levou a olhar para esta profissão de outra forma.
Quando passei por esse processo enquanto cliente, percebi como pode ser difícil compreender a linguagem bancária, a documentação e todos os passos envolvidos. Em determinados momentos senti falta de alguém que me explicasse, de forma simples, o que estava a acontecer.
Foi aí que comecei a perceber que podia fazer a diferença.
Queria utilizar aquilo que tinha aprendido ao longo da minha vida profissional e pessoal para ajudar outras pessoas a sentirem-se mais esclarecidas e acompanhadas numa decisão tão importante.
A intermediação de crédito não vive apenas de números, taxas ou contratos: vive de pessoas que confiam decisões importantes da sua vida a um profissional. O que aprendeu sobre pessoas e relações humanas ao longo do seu percurso que hoje considera tão importante quanto o conhecimento financeiro?
Aprendi, sobretudo, que não existem duas pessoas iguais, mesmo quando procuram exatamente o mesmo tipo de financiamento.
Cada cliente chega com uma história diferente, uma estrutura familiar diferente, expectativas, receios e prioridades próprias.
Ter trabalhado durante muitos anos diretamente com pessoas, e também ter gerido um negócio familiar, ensinou-me que antes de tentar encontrar uma resposta é importante perceber verdadeiramente qual é a pergunta.
Há clientes que chegam muito informados e seguros daquilo que pretendem. Outros chegam com muitas dúvidas e alguma ansiedade.
O conhecimento técnico e financeiro é indispensável, mas considero igualmente importante saber comunicar, perceber quando é necessário explicar melhor determinada situação e não transformar um processo já complexo numa experiência ainda mais difícil para o cliente.
No final, podemos estar a trabalhar com números, documentos e condições financeiras, mas por detrás de cada processo existe sempre uma pessoa ou uma família com um objetivo concreto.
Ser mulher num setor cada vez mais competitivo implica também afirmar uma identidade profissional própria. Que características acredita que as mulheres têm vindo a trazer para a intermediação de crédito e de que forma essa presença está a transformar o próprio setor?
Acredito que as mulheres têm demonstrado cada vez mais a sua capacidade para assumir responsabilidades, gerir equipas e construir projetos sólidos neste setor.
Não considero que determinadas características pertençam exclusivamente às mulheres, porque existem excelentes profissionais de ambos os géneros. Mas reconheço em muitas mulheres uma enorme capacidade de organização, persistência, atenção ao detalhe e sensibilidade na forma como comunicam.
Também penso que está a mudar a ideia de que, para sermos respeitadas profissionalmente ou para assumirmos uma posição de liderança, temos de adotar uma postura mais fria ou distante.
Podemos ser exigentes, determinadas e firmes nas nossas decisões e, ao mesmo tempo, continuar a comunicar de uma forma próxima e humana.
Para mim, essa é uma evolução muito positiva.
As mulheres estão a ocupar cada vez mais posições de responsabilidade e a mostrar que existem diferentes formas de liderar e de construir uma carreira de sucesso.
Comprar uma casa, conseguir financiamento ou reorganizar a vida financeira pode representar um dos momentos de maior pressão para uma família. Até que ponto o intermediário de crédito deve assumir também um papel de consultor e educador, ajudando o cliente a compreender as suas escolhas em vez de simplesmente procurar uma solução de financiamento?
Acredito que ajudar o cliente a compreender aquilo que está a acontecer ao longo do processo é uma parte muito importante do nosso trabalho.
Não basta apresentar uma possibilidade de financiamento. É importante explicar os diferentes passos, esclarecer dúvidas e garantir que o cliente compreende a informação que lhe é apresentada.
A minha própria experiência enquanto cliente de crédito habitação influenciou muito a forma como hoje olho para esta atividade.
Quando não dominamos determinados conceitos, tudo pode parecer muito mais complicado e intimidante.
Por isso, procuro comunicar de uma forma simples e ajudar o cliente a compreender as opções que lhe podem ser apresentadas dentro do âmbito da nossa atividade.
Nem sempre conseguimos retirar toda a ansiedade associada a uma decisão financeira desta dimensão, mas podemos contribuir para que o processo seja mais claro e para que o cliente possa tomar decisões de forma mais consciente e informada.
A confiança tornou-se um dos ativos mais importantes num mercado onde o cliente tem acesso a cada vez mais informação, comparadores e soluções digitais. Como pode uma profissional distinguir-se num universo tão competitivo sem perder aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir: proximidade, escuta e confiança?
A tecnologia trouxe enormes vantagens e hoje qualquer pessoa consegue aceder rapidamente a informação, fazer simulações ou comparar diferentes cenários.
Mas acredito que informação e acompanhamento são coisas diferentes.
Um simulador pode apresentar números, mas não conhece a história daquela família, não percebe todas as particularidades de uma situação e não consegue interpretar as dúvidas ou preocupações que surgem ao longo de um processo.
É aí que acredito que um profissional pode fazer a diferença.
Procuro distinguir-me através da disponibilidade, do rigor, da transparência e da forma como explico cada etapa.
Também considero fundamental não criar falsas expectativas.
Quando determinada possibilidade não se enquadra na situação do cliente, é importante explicar porquê e avaliar as alternativas disponíveis dentro das soluções que podemos apresentar.
A confiança não se constrói com promessas. Constrói-se através da consistência entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos.
Enquanto Diretora de Unidade da Xfin SOLIDEZ, lidera pessoas num setor onde resultados e relações têm de caminhar lado a lado. Que tipo de liderança procura exercer e qual foi a maior aprendizagem que as pessoas que liderou lhe ensinaram sobre liderança?
Procuro exercer uma liderança muito baseada no exemplo.
A experiência enquanto empresária ensinou-me que não podemos pedir às pessoas aquilo que nós próprios não estamos disponíveis para fazer.
Acredito numa liderança que combina exigência com responsabilidade, mas também com capacidade de ouvir.
Não considero que um líder tenha de ter todas as respostas. Tem, sim, de ter a humildade para reconhecer quando precisa de procurar informação, a capacidade de tomar decisões quando é necessário e a responsabilidade de assumir essas decisões.
Uma das maiores aprendizagens que tive ao longo do meu percurso foi perceber que cada pessoa é motivada de forma diferente.
Há pessoas que precisam de mais orientação e outras que crescem quando lhes damos autonomia e responsabilidade.
Liderar também é perceber essas diferenças.
Enquanto Diretora da Xfin SOLIDEZ, quero ajudar a construir uma equipa responsável, autónoma e comprometida, onde os resultados sejam consequência de um trabalho consistente e de objetivos claros.
Se pudesse mudar uma ideia que ainda existe sobre as mulheres que trabalham na intermediação de crédito e deixar uma mensagem à próxima geração de mulheres que pretende assumir posições de liderança neste setor, que ideia gostaria de desconstruir e que futuro gostaria de ajudar a construir?
Gostaria de desconstruir a ideia de que uma mulher precisa de mudar a sua personalidade para conseguir afirmar-se profissionalmente ou assumir uma posição de liderança.
Podemos ser determinadas, ambiciosas e exigentes sem deixarmos de ser quem somos.
Também gostaria de transmitir a ideia de que o nosso percurso profissional não tem obrigatoriamente de ser uma linha reta.
Olho para o meu próprio percurso e vejo fases muito diferentes: nasci na Venezuela, tenho raízes na Madeira, construí a minha família em Portugal, fui empresária durante vários anos num negócio ligado às salinas e hoje estou a construir uma nova etapa na intermediação de crédito.
Se há algo que tudo isto me ensinou é que mudar de caminho não significa começar do zero. Levamos connosco aquilo que aprendemos em todas as experiências anteriores.
À próxima geração de mulheres diria precisamente isso: não tenham medo de mudar, de aprender algo novo ou de assumir responsabilidades para as quais, inicialmente, possam achar que ainda não estão totalmente preparadas.
Quanto ao futuro, gostava que daqui a cinco anos a Xfin SOLIDEZ fosse reconhecida pela qualidade e seriedade do seu trabalho e por ter construído uma equipa e uma presença sólida na região.
E, a nível pessoal, gostaria de olhar para trás e sentir que esta mudança profissional valeu a pena, não apenas pelos resultados alcançados, mas pelo projeto que consegui construir e pelo impacto positivo que tive na vida das pessoas com quem me fui cruzando.