Finanças Sem Medo: Transformar a Relação dos Portugueses com o Dinheiro
Numa altura em que a literacia financeira em Portugal continua a ser um dos maiores desafios para famílias, investidores e até empresas, há nomes que se destacam pela coragem de quebrar barreiras e falar de finanças de forma humana, clara e acessível. Entre eles, surge Pedro Pedrosa, Fundador e Diretor Geral de O Senhor do Banco, uma marca que já se tornou sinónimo de confiança e esclarecimento num setor onde a informação, muitas vezes, chega tarde — ou chega complicada.
A trabalhar em parceria com as maiores instituições financeiras e imobiliárias do país, Pedro Pedrosa assumiu uma missão que vai muito além do aconselhamento tradicional: empoderar os portugueses, ensinando-os a compreender aquilo que afeta todos os dias as suas vidas — créditos, decisões imobiliárias, taxas, riscos e oportunidades.
“Sempre gostei de ensinar e o que tento é simplificar o que normalmente é de difícil compreensão para quem não está dentro do assunto”, partilha, num momento que reflete exatamente a raiz da sua abordagem.
Nesta entrevista à Business Voice, Pedro Pedrosa desmonta mitos, expõe verdades e revela porque acreditar que “não se percebe nada de finanças” é um mito cultural que urge desfazer. Uma conversa que promete abrir horizontes, desafiar mentalidades e mostrar que a literacia financeira não é um luxo — é um direito.
O conceito de literacia financeira tem ganho destaque nos últimos anos, mas ainda parece distante da realidade de muitos portugueses. Como define, na prática, o que é ser financeiramente literato nos dias de hoje?
Quando foi efetuado o estudo que deixou os portugueses no penúltimo lugar a nível de literacia financeira, foram considerados conceitos básico de finanças, nada de muito complexo, por isso diria que ser financeiramente literado, será ter o mínimo de conhecimentos de literacia financeira, no que diz respeito a conceitos como poupanças, investimentos, impostos, crédito. Não me refiro a nada pormenorizado, como derivados financeiros e outros mais complexos, mas coisas básicas como spreads, TAN, inflação, tabelas de IRS, coisas que são completamente desconhecidas para a maioria dos portugueses. É no básico, que temos de procurar melhorar!
Em Portugal, existe uma perceção de que falar sobre dinheiro continua a ser quase um tabu. Na sua opinião, que impacto tem esta “cultura do silêncio” sobre finanças pessoais na forma como os portugueses gerem o seu dinheiro?
Muitas pessoas sentem vergonha de falar sobre dinheiro, umas vezes por não ganham o suficiente, outras porque se endividaram a mais, outras até ganham, mas não querem que se saiba. Tudo isso é aceitável, mas não deveria impedir que se troquem ideias sobre o tema. Falar sobre dinheiro, não tem de se limitar a dizer quanto ganhamos ou quanto temos na conta. Nós temos um projeto que teve a primeira edição em setembro, em que num jantar, reunimos 65 pessoas, para “falar de dinheiro à mesa”, precisamente para incentivar a que o tema do dinheiro deixe se ser um tabu e ainda criámos um jogo, que para já, só está disponível no evento, com 120 perguntas relacionadas com dinheiro, para motivar as pessoas a falarem sobre o tema. Acho que seja qual for o tema, quanto mais abertos estivermos a debater sobre ele com outras pessoas, mais podemos aprender sobre ele.
O Senhor do Banco tem-se afirmado como uma plataforma de referência na educação financeira. Quais são os maiores desafios que enfrenta ao tentar simplificar temas complexos como crédito, poupança e investimento para o público em geral?
Eu tenho um gosto especial por ensinar e sempre tentei e tento simplificar tudo em palavras simples e de fácil compreensão. Não diria que enfrento propriamente desafios a tentar simplificar, isso é fácil, o verdadeiro desafio é conseguir falar sobre tudo o que se deveria falar, porque há um “mundo” de informação que deveria ser partilhada com todos e nós, sozinhos, não temos capacidade para o fazer.
Que papel acredita que as escolas e universidades deveriam ter na formação financeira dos jovens? Considera que o sistema educativo português está a preparar as novas gerações para lidar com o dinheiro de forma consciente?
Não, não está, de todo. O que se fala nas escolas não é de todo, suficiente para o que deveria ser necessário. Não falo das Universidades, porque não faz parte do ensino obrigatório, mas até ao 12º, deveria ser obrigatório haver uma disciplina de literacia financeira que abordasse todos os temas que referi na primeira questão e não apenas coisas básicas como poupar para um mealheiro.
Num contexto de inflação, crédito caro e poder de compra reduzido, que erros financeiros mais comuns têm identificado entre as famílias portuguesas? E que conselhos práticos deixaria para evitar esses erros?
Antes de mais, dizer que a inflação neste momento já está mais controlada e dentro dos valores ditos como normais. Além disso, o crédito não está de todo caro. Nós é que estivemos (mal) habituados a anos de taxas de juro negativas, mas o que vemos hoje, é o que deveria ser normal de uma economia “saudável”. Agora, inflação, as taxas que temos, aliada aos ordenados que são desproporcionais, isso sim, juntamente com a iliteracia financeira, leva a um descontrolo que inúmeras vezes, leva a um endividamento das famílias e esse é o maior dos perigos. O melhor conselho que posso dar, é que procurem informar-se de todos estes temas, antes da tomada de decisão. A facilidade com que se compra qualquer coisa hoje, aliado a um consumismo já habitual nas famílias, leva a perigosas situações de endividamento, muitas vezes sem solução que não seja a insolvência. Poupar e adiar o consumo até que se possa evitar o crédito, deve ser a regra, não a exceção.
A tecnologia e as fintech têm vindo a democratizar o acesso a produtos e informação financeira. Considera que estas ferramentas estão realmente a aumentar a literacia financeira ou, pelo contrário, a criar uma ilusão de conhecimento?
Tudo o que hoje está disponível na internet, deve ser analisado cuidadosamente. Há informação boa e credível e muita outra que não é positiva. A tecnologia permite chegar a mais informação, isso, por si só, é ótimo, mas sem garantir a credibilidade da mesma, aumentamos o risco de tomada de decisão desinformada. Assim, acho que é muito positivo haver cada vez mais informação financeira, mas também acho que deve haver algum controlo da informação que é passada. Os reguladores, nomeadamente CMVM e Banco de Portugal, terão uma palavra a dizer no futuro sobre isso, certamente.
O Senhor do Banco tem uma comunicação direta, acessível e por vezes descontraída — algo pouco comum no setor financeiro. Que importância tem a linguagem na missão de educar financeiramente os portugueses?
Como já referi, sempre gostei de ensinar e o que tento é simplificar o que normalmente é de difícil compreensão para quem não está dentro do assunto. Limito-me a fazer exatamente o que gostaria que me fizessem a mim, caso estejamos a falar de um qualquer assunto que eu não domino. Detesto que me tentem explicar coisas com termos técnicos que é óbvio que não domino, por isso evito fazê-lo e se por algum motivo tenho de o usar, tento logo explicar do que se trata e simplificar a informação. Se todos tivermos este cuidado, creio que não só facilita a compreensão, como também motiva as pessoas a quererem saber mais.
Por fim, olhando para o futuro, como imagina o nível de literacia financeira em Portugal daqui a 10 anos? Acredita que estamos a caminhar para uma geração mais informada e financeiramente independente?
Acredito que sim, mas não porque se esteja a fazer algo de concreto da parte do ensino, mas sim porque há cada vez mais informação disponível na internet e há cada vez mais gente interessada em aprender e isso poderá levar a que daqui por 10 anos, a fatia da população com iliteracia financeira, seja consideravelmente menor do que a que temos hoje, ainda assim, sem que se faça nada obrigatório nas escolas, será sempre algo que vai ficar muito aquém do que gostaríamos que fosse.