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Cuidar da Saúde Mental desde a infância é investir no Futuro


Durante muito tempo, a saúde mental das crianças e dos adolescentes foi um tema quase invisível, muitas vezes secundarizado em comparação com outras dimensões do desenvolvimento. Hoje, esse paradigma mudou — ou está, felizmente, a mudar. Falar de emoções, compreender as fragilidades e reforçar competências socioemocionais já não é visto como sinal de fraqueza, mas sim como um caminho essencial para construir adultos mais equilibrados, resilientes e capazes de enfrentar os desafios da vida.
É precisamente neste contexto que o trabalho de Filipa Rouxinol assume uma relevância crescente. Psicóloga especializada em Psicologia Infantil e da Adolescência, com um percurso que integra ainda a coordenação de equipas multidisciplinares em áreas como a Terapia da Fala, a Terapia Ocupacional, a Psicomotricidade e a Nutrição, defende uma visão integrada e preventiva do acompanhamento clínico. Para a nossa entrevistada, cada criança é um universo singular, e compreender esse universo exige escuta, empatia e, sobretudo, diálogo aberto com a família.
Nesta entrevista à Business Voice, convida-nos a refletir sobre o papel decisivo que os pais, cuidadores e educadores desempenham na criação de um ambiente saudável e seguro, onde os mais novos sintam que podem falar sem medo sobre as suas emoções, dúvidas e dificuldades. Mais do que recomendações teóricas, partilha connosco estratégias práticas para que o espaço familiar seja um lugar de confiança, comunicação e partilha — um verdadeiro alicerce para que cada criança e adolescente cresça com equilíbrio, autoestima e ferramentas para lidar com os desafios do presente e do futuro.

Ao longo da sua experiência, que mudanças mais significativas tem observado na forma como a sociedade olha para a saúde mental das crianças e adolescentes?
A transformação mais relevante é a passagem de uma visão reducionista, centrada no comportamento, para uma leitura neurocompatível, que integra desenvolvimento cerebral, vínculos relacionais e contexto social. Há alguns anos, falar de ansiedade numa criança de 8 anos parecia “exagerado”; hoje sabemos que a ansiedade, a irritabilidade ou a apatia são expressões de um sistema nervoso em luta para se organizar. Começamos a compreender que não se trata de “falta de regras” ou “mimos a mais”, mas sim de respostas adaptativas a ambientes imprevisíveis ou exigências acima da maturidade disponível. A literacia social em saúde mental cresceu, e isso abriu espaço para uma procura mais precoce de ajuda. 

Quais são os principais sinais a que pais, professores e cuidadores devem estar atentos para identificar precocemente dificuldades de saúde mental em crianças e adolescentes?
Os sinais aparecem, muitas vezes, primeiro no corpo: dores de cabeça e de barriga repetidas, dificuldades em adormecer ou manter o sono, respiração curta e acelerada. Outro indicador precoce é a alteração do brincar: quando deixa de ser criativo e se torna rígido, repetitivo ou solitário. Mudanças súbitas no apetite, irritabilidade sem explicação aparente, perda de interesse por atividades antes prazerosas, períodos de atenção que não se prolongam mesmo em tarefas motivadoras, ou um “olhar ausente” frequente são sinais de alerta. Nos adolescentes, acrescenta-se o risco de comportamentos auto-lesivos, alterações alimentares, consumo de substâncias ou recurso compulsivo a tecnologia. Não se trata de dramatizar qualquer alteração, mas de reconhecer padrões que se repetem e que indicam um corpo e uma mente em esforço.

Na sua perspetiva, quais são hoje os fatores de risco mais relevantes para o desenvolvimento de problemas de saúde mental nesta faixa etária? E que fatores de proteção podem ser reforçados pelas famílias e escolas?
Sabemos que não são apenas eventos traumáticos isolados que fragilizam, mas a acumulação de microadversidades: rotinas imprevisíveis, ambientes familiares tensos, escolas centradas apenas no desempenho, ausência de sono reparador, tempo excessivo em ecrãs sem contrapeso de experiências de corpo inteiro. A estes juntam-se vulnerabilidades neurodesenvolvimentais, como PHDA, dificuldades de linguagem ou alterações sensoriais. Como fatores de proteção, destacam-se a qualidade da co-regulação (um adulto capaz de se manter previsível e responsivo funciona como “córtex pré-frontal externo” da criança), o brincar livre, o contacto com a natureza e rotinas que transmitam segurança. Relações de pertença, previsibilidade e sentido de significado são, em termos neurobiológicos, os maiores organizadores do desenvolvimento.

De que forma a pandemia de COVID-19 influenciou a saúde mental das crianças e adolescentes que acompanha? Notou mudanças nos tipos de casos ou na intensidade dos sintomas?
A pandemia funcionou como um teste de stress prolongado. Nas crianças pequenas, trouxe atrasos nas competências sociais e na autonomia; nos adolescentes, acentuou sintomas ansiosos, depressivos e perturbações do sono. Um dos aspetos mais críticos foi a perda da ligação pessoal: a ausência de contacto espontâneo com pares e adultos de referência quebrou rotinas de pertença e de regulação relacional. Essa quebra fragilizou o sentido de apoio mútuo, intensificando sentimentos de solidão e insegurança. Muitas crianças e jovens passaram a viver num paradoxo: sentiam-se sobrecarregados, mas ao mesmo tempo desvalorizavam as próprias dificuldades, como se não houvesse espaço para “mais um problema” quando já tudo parecia demasiado. Este silêncio interno aumentou a complexidade dos quadros, com sobreposição de ansiedade, dificuldades atencionais e irritabilidade, sinais claros de um sistema nervoso em sobrecarga.

Que papel a escola deve assumir não apenas na identificação, mas também na promoção ativa da saúde mental dos alunos?
A escola pode promover saúde mental no dia a dia com medidas simples: rotinas claras no início e fim das aulas, pequenos momentos de regulação coletiva (respiração, alongamentos, música), uso de linguagem emocional nas várias disciplinas, e espaços de mediação de conflitos focados em reparar relações em vez de punir. Professores atentos a sinais de agitação ou dissociação podem encaminhar cedo para apoio. A ciência mostra que estas práticas reduzem o stress tóxico e aumentam a capacidade de aprender, porque um aluno que se sente seguro e pertencente está disponível para crescer académica e socialmente.

Muito se fala sobre o impacto da tecnologia e das redes sociais na vida dos mais jovens. Do ponto de vista clínico, quais são os benefícios e os riscos mais evidentes que tem identificado?
A tecnologia é um campo paradoxal. Os benefícios são claros: pode reforçar a pertença social, desenvolver competências cognitivas, permitir criatividade e até apoiar funções executivas (por exemplo, através de agendas digitais ou apps de estudo). Mas os riscos são igualmente evidentes. O cérebro precisa de experiências sensoriais integrais — subir árvores, sentir diferentes texturas, interagir com pares presencialmente — para consolidar redes neuronais essenciais à atenção e à autorregulação. Quando o tempo de ecrã substitui estas experiências, surgem défices na integração motora e sensorial. Nas redes sociais, o maior risco é a comparação permanente num “espelho distorcido” que amplifica falhas e invisibiliza vulnerabilidades dos outros. 

Ainda existe alguma resistência dos pais em procurar psicoterapia para crianças pequenas? Como explica a importância de intervir cedo?
Sim, ainda existe resistência, e muitas vezes assenta em mitos profundamente enraizados. Um dos mais comuns é a crença de que as crianças “não deviam sentir tristeza, ansiedade ou solidão” e que estas emoções são exclusivas da vida adulta. Outro mito frequente é o de que a infância é, por natureza, um período sempre feliz, e que qualquer sofrimento “passa com o tempo”. Além disso, muitos pais não tiveram, eles próprios, acesso a apoio psicológico em crianças; cresceram num contexto em que se dizia “aguenta” ou “não penses nisso”. Por isso, torna-se difícil imaginar que o seu filho possa beneficiar de psicoterapia sem que isso signifique “rotular” ou “fragilizar”.
O que procuro transmitir é que intervir cedo não significa patologizar. Significa ajudar a criança e os cuidadores a encontrarem recursos de regulação antes de os padrões de resposta se cristalizarem, a traduzirem o comportamento em necessidades, em vez de o verem como provocação ou uma falha. Uma birra intensa não é apenas “falta de regras”; é o corpo a descarregar energia que não consegue organizar, ou que não se sente segura naquele contexto. 
Na prática clínica, vejo repetidamente que quando os adultos se permitem quebrar o ciclo de silêncio e procuram apoio, não só aliviam o sofrimento imediato da criança, como também reparam feridas transgeracionais. É um gesto de cuidado que tem impacto para além daquela infância: abre a possibilidade de um futuro adulto mais seguro, mais empático e mais capaz de pedir ajuda quando precisar.

Que estratégias recomenda às famílias para promover um ambiente de comunicação saudável e aberto, que ajude os filhos a falar sobre emoções e dificuldades?
A comunicação saudável nasce de pequenos momentos consistentes. Pode ser algo tão simples como reservar cinco minutos por dia sem telemóveis nem distrações, apenas para estar disponível para a criança. Nesses instantes, é importante nomear o que observamos na criança, e quando damos palavras às sensações, ajudamo-la a ligar o corpo e emoção, diminuindo a confusão sobre o que sente.
Outro passo essencial é o adulto mostrar como se repara: reconhecer quando errou, pedir desculpa e mostrar que o erro não destrói a relação. Pequenos rituais familiares, como ao jantar cada um partilhar um momento fácil e difícil e a forma como se acalmou, ajuda a normalizar os sentimentos de vulnerabilidade.
Também recomendo práticas de co-regulação simples: respirar juntos, libertar a tensão com o corpo ou criar em casa um “canto seguro” com almofadas e objetos de conforto. Mais do que estratégias educativas, estas experiências ensinam ao cérebro da criança que é possível viver emoções difíceis com segurança, porque há sempre alguém presente para a acompanhar.

Apesar dos avanços, ainda existe estigma em torno da saúde mental. Como esse estigma se manifesta em relação a crianças e adolescentes e de que forma podemos combatê-lo?
O estigma surge de forma subtil: “ele é preguiçoso”, “falta-lhe disciplina”, “vai passar com a idade”. Estas frases parecem inofensivas, mas invalidam o sofrimento da criança e atrasam a procura de ajuda. Combater o estigma exige mais do que campanhas: implica mudar a linguagem quotidiana em escolas e famílias. Quando um professor pode dizer numa sala de aula “todos temos partes ansiosas, e isso não nos define”, está a criar cultura de normalização. Quando um pai consegue partilhar com o filho como lida com a sua própria ansiedade, está a quebrar o silêncio. A ciência já nos mostrou que saúde mental é saúde integral; o desafio agora é tornar esta ideia prática e visível no dia a dia.

Que mensagem gostaria de deixar a pais, professores e sociedade em geral sobre a importância de cuidar da saúde mental desde a infância?
Cuidar da saúde mental desde a infância é investir no futuro. A saúde mental infantil não é apenas responsabilidade das famílias ou das escolas: é um compromisso coletivo. Uma sociedade que valoriza a infância cria adultos mais empáticos, resilientes, criativos e capazes de cuidar dos outros. Cuidar da saúde mental desde cedo significa reconhecer que uma criança que se sente segura aprende melhor, brinca com mais liberdade e constrói relações mais saudáveis. Significa também quebrar o ciclo de silêncio que tantas vezes se transmite entre gerações. Se quisermos mudar o futuro, temos de começar por aqui: olhar para cada criança como alguém que merece crescer a sentir-se vista, escutada e valorizada.

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