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Paula Costinha - O Impacto vai muito além dos Números

Durante demasiado tempo, a intermediação de crédito foi vista apenas como um exercício de números, taxas e contratos. Mas, na verdade, por detrás de cada decisão financeira existem pessoas, famílias, sonhos e recomeços. É precisamente nesta dimensão humana que muitas mulheres têm vindo a marcar a diferença, transformando cada processo numa relação de confiança e cada solução numa oportunidade para construir um futuro mais seguro. Nesta edição, a Business Voice conversa com Paula Costinha, Intermediária de Crédito, sobre o impacto da liderança feminina num setor em constante evolução. Uma conversa onde o crédito deixa de ser apenas uma operação financeira para assumir o seu verdadeiro propósito: devolver tranquilidade, criar confiança e dar às pessoas o conhecimento necessário para tomarem decisões mais conscientes e sustentáveis.

A sua missão sempre foi muito mais do que encontrar soluções de financiamento: passa por ajudar pessoas a recuperar margem financeira, tranquilidade e qualidade de vida. Num país onde muitas famílias ainda vivem sob elevada pressão económica, considera que a intermediação de crédito deveria ser vista como um verdadeiro instrumento de educação financeira e inclusão, e não apenas como um serviço de apoio ao financiamento? O que continua a faltar para que esta perceção mude?
Sim, considero que a intermediação de crédito deveria ser considerada um instrumento de educação financeira e inclusão. Pelo menos é assim que eu o vejo e atuo perante os meus clientes e até no dia-a-dia em conversas com amigos e conhecidos.
Quando exercida com rigor, ética e foco nas necessidades dos clientes, torna-se um importante instrumento de educação financeira, prevenção do sobre-endividamento e promoção da inclusão financeira.
Quando uma família procura os meus serviços, pensa que precisa apenas de um crédito. Mas muitas vezes precisa de compreender a sua situação financeira. Por isso, procuro ajudar as pessoas a tomar decisões conscientes. Uma prestação mensal mais baixa pode significar uma maior capacidade de poupança, menos ansiedade perante imprevistos e mais qualidade de vida. O impacto vai muito além dos números.
Para que essa perceção mude, na minha opinião, faltam três aspetos. Em primeiro lugar, reforçar a literacia financeira desde cedo, nomeadamente conhecimento sobre crédito, orçamento familiar, poupança e gestão financeira.
Em segundo lugar, é importante dar maior visibilidade ao trabalho dos intermediários de crédito. Que somos um setor regulado pelo Banco de Portugal.
E finalmente, promover uma cultura em que pedir ajuda financeira seja visto como um sinal de responsabilidade e não como uma solução apenas para quem enfrenta dificuldades.

Ao longo da sua experiência, tem acompanhado centenas de histórias pessoais e familiares. Existe um padrão de erros financeiros que se repete independentemente da idade, profissão ou nível de rendimento? De que forma é que uma maior literacia financeira poderia alterar, de forma estrutural, a relação dos portugueses com o crédito e com o dinheiro?
Há um padrão que encontro frequentemente: muitas pessoas tomam decisões financeiras sem compreenderem as consequências a médio e longo prazo.
Não depende da idade, da profissão, nem do rendimento. Já acompanhei famílias com rendimentos elevados e pouca organização financeira, assim como pessoas com rendimentos modestos que fazem uma gestão exemplar.
Acredito que uma maior literacia financeira mudaria profundamente a relação dos portugueses com o dinheiro. As pessoas deixariam de tomar decisões por impulso ou apenas porque “sempre foi assim” e passariam a questionar, comparar e planear.
O conhecimento não elimina todas as dificuldades, mas ajuda as pessoas a fazerem melhores escolhas. E melhores escolhas trazem maior estabilidade, maior autonomia e maior tranquilidade ao longo da vida.

Na sua opinião, que competências têm as mulheres trazido para a intermediação de crédito que hoje fazem uma diferença real na experiência dos clientes e na forma como se constrói confiança neste mercado?
A empatia, a capacidade de escuta e a atenção ao detalhe são as maiores competências que podemos ter quando estamos a lidar com decisões que envolvem sonhos, receios e projetos de vida. Saber ouvir, compreender preocupações e explicar processos complexos de forma simples cria uma relação de confiança que faz toda a diferença. Claro que estas competências não pertencem exclusivamente às mulheres.
No final, o cliente recorda-se menos da taxa que conseguiu e muito mais da forma como foi acompanhado durante todo o processo.

Um dos projetos que desenvolve passa pela realização de workshops de finanças pessoais junto de empresas, ajudando colaboradores a gerir melhor os seus recursos e a reduzir situações de sobrecarga financeira. Considera que a saúde financeira dos trabalhadores já deveria integrar as estratégias de bem-estar organizacional? Que impacto tem observado nas empresas que decidem investir nesta dimensão?
Sem dúvida. As preocupações financeiras acompanham os colaboradores para o local de trabalho. Quando se vive preocupado com dívidas, orçamento familiar ou dificuldades financeiras, isso reflete-se na concentração, produtividade e até nas relações dentro da empresa.
Nos workshops procuro descomplicar temas que parecem difíceis: orçamento familiar, poupança, crédito e tomada de decisões.
O objetivo desses workshops não é apenas transmitir conhecimento. É também dar ferramentas práticas para que cada pessoa consiga melhorar a sua relação com o dinheiro.
Só esse olhar, já traz uma clareza enorme e o passo seguinte poderá ser de pedir ajuda mais facilmente pois desbloqueou-se a crença de não se deve falar de dinheiro.
E reduzem os níveis de ansiedade associados ao dinheiro e sentem-se mais preparados para enfrentar desafios futuros.
Investir em literacia financeira, é investir em pessoas. E quando as pessoas estão melhor, as empresas também beneficiam.
Agora também sabemos que o nosso tecido empresarial é muito vasto e nem todos os responsáveis das empresas têm esta visão de bem-estar organizacional, principalmente ao nível da saúde financeira dos colaboradores. Diria que depende da cultura da empresa. Mas ainda há um longo caminho a percorrer neste capítulo.

Vivemos numa época em que existem simuladores online, inteligência artificial e uma enorme quantidade de informação disponível. Ainda assim, muitas pessoas continuam a tomar decisões financeiras pouco informadas. Porque continua a ser indispensável o acompanhamento humano na intermediação de crédito e quais são os riscos de confiar exclusivamente em soluções digitais?
Muita informação não significa que consigas aplicar de forma correta. Como sabemos, o crédito habitação continua a ser uma das decisões financeiras mais importantes da vida de uma pessoa e essa decisão não deve ser tomada apenas com base em algoritmos.
Essas ferramentas não conseguem compreender o contexto de cada família, os seus objetivos de vida, a sua tolerância ao risco e até antecipar situações futuras.
A inteligência artificial deve ser considerada uma aliada, mas não um substituto de acompanhamento especializado e personalizado.
Muitas vezes ao utilizar essas ferramentas não se sabe quais as perguntas exatas a fazer e o resultado dessa pergunta, poderá já não ser a mais indicada para aquele cliente.
Na intermediação de crédito, o verdadeiro valor não está apenas em encontrar uma taxa competitiva, mas sim em acompanhar o cliente em todo o processo, defender os seus interesses, explicar cada passo e garantir que a solução escolhida é a mais adequada à sua realidade atual.

Poupar dinheiro nem sempre depende apenas do rendimento, mas também das decisões que se tomam ao longo da vida. Na sua experiência, qual é a decisão financeira que mais frequentemente impede as famílias de construir estabilidade a médio e longo prazo? E que mudança de mentalidade gostaria de ver acontecer na sociedade portuguesa nos próximos anos?
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a estabilidade financeira não depende exclusivamente do dinheiro, mas da forma como gerimos os recursos que temos.
Uma das decisões que mais compromete o futuro das famílias é assumir compromissos financeiros acima da sua capacidade real, pois olham apenas para o presente e não para aquilo que pode acontecer daqui a dois, cinco ou dez anos.
Devemos perceber que o crédito deve ser um instrumento para concretizar objetivos e nunca uma fonte permanente de pressão financeira.
Gostaria que as pessoas encarassem o planeamento financeiro da mesma forma que encaram outras decisões importantes da vida.
Poupar não significa deixar de viver. Pelo contrário, significa liberdade de escolha, preparar o futuro e construir segurança para enfrentar imprevistos com maior tranquilidade.
Por isso quanto mais cedo começarmos a falar naturalmente sobre dinheiro, maior será a capacidade das próximas gerações para tomar decisões conscientes.

Se pudesse deixar uma mensagem às mulheres que pretendem construir carreira na intermediação de crédito — um setor onde diariamente se influencia o futuro financeiro de pessoas e famílias — que competências considera verdadeiramente indispensáveis para exercer esta profissão com impacto, ética e propósito? E que legado gostaria de deixar através do trabalho que desenvolve?
Diria que esta é uma atividade onde o conhecimento técnico é indispensável, mas, acima de tudo, é preciso gostar genuinamente de pessoas.
A nossa atividade influencia decisões que terão impacto durante muitos anos na vida de uma família. Essa responsabilidade exige ética, transparência, empatia e compromisso.
A confiança constrói-se todos os dias, através de pequenas ações: ouvir antes de falar, explicar antes de decidir e colocar os interesses do cliente em primeiro lugar.
Um dia, espero ser lembrada não apenas pelas soluções de crédito que ajudei a encontrar, mas pelas pessoas que ganharam mais tranquilidade, confiança e conhecimento para gerir melhor a sua vida financeira.



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