“O Neurofeedback é uma técnica não invasiva e extremamente segura”
O Neurofeedback tem vindo a transformar a forma como se olha para o desenvolvimento e bem-estar infantil, assumindo-se como uma abordagem inovadora no apoio a crianças com dificuldades emocionais, comportamentais e de aprendizagem. Nesta entrevista à Business Voice, Tiago Corujo, Fundador da Neuromente | Centro Clínico e de Diagnóstico, partilha a sua visão sobre o impacto desta metodologia na saúde mental infantil, destacando a importância de intervenções cada vez mais personalizadas e centradas nas necessidades de cada criança.
A Neuromente | Centro Clínico e de Diagnóstico nasce com uma abordagem diferenciadora na área da saúde cerebral; que missão está na base deste projeto e que necessidades identificou no acompanhamento de crianças que o levaram a criar este conceito?
A Neuromente nasceu de uma visão muito clara: criar um espaço clínico onde a saúde cerebral fosse avaliada e acompanhada de forma integrada, rigorosa e verdadeiramente personalizada. Desde o início, reconhecemos a necessidade de aproximar áreas que frequentemente evoluem em paralelo — a neurofisiologia, a medicina do sono, a psicologia, a psiquiatria, a pedopsiquiatria e a intervenção no neurodesenvolvimento. A evidência científica demonstra que os processos neurobiológicos, cognitivos, emocionais e comportamentais resultam da interação dinâmica entre múltiplos sistemas cerebrais e contextos de desenvolvimento. Nesse sentido, uma abordagem clínica integrada e interdisciplinar torna-se essencial para uma avaliação e intervenção mais completas e individualizadas. A nossa base inicial esteve muito ligada à neurofisiologia clínica e à medicina do sono, área em que a Neuromente se afirmou como o primeiro centro de Medicina do Sono certificado no distrito de Aveiro. Com o crescimento do projeto, fomos percebendo uma procura cada vez maior por parte de famílias com crianças com dificuldades de atenção, hiperatividade, alterações do sono, ansiedade, instabilidade emocional, dificuldades de aprendizagem e desafios no desenvolvimento. Muitas destas crianças chegavam-nos com manifestações comportamentais visíveis, mas o que procurámos sempre compreender foi o que estava por trás desses comportamentos: como estava a funcionar o cérebro, que padrões de atividade cerebral poderiam estar desregulados e que papel tinham o sono, o ambiente familiar, a carga emocional e os estímulos do dia a dia. Foi dessa necessidade que nasceu o nosso centro de neuromodelação: um centro que integra diagnóstico, neurofisiologia, saúde mental, sono e neuromodulação, permitindo olhar para cada criança e cada família de forma mais completa. Hoje, nas unidades de Aveiro e Porto, a nossa missão é precisamente essa: avaliar, compreender e intervir no funcionamento cerebral de forma ética, científica e humana, ajudando crianças, jovens e adultos a alcançar maior equilíbrio, desenvolvimento e qualidade de vida.
Para quem ainda não está familiarizado com o tema, como explicaria de forma clara e acessível o que é o Neurofeedback e de que forma esta abordagem pode influenciar positivamente o desenvolvimento cerebral das crianças?
Costumo explicar o Neurofeedback de uma forma simples: se treinamos o corpo para melhorar a condição física, porque não treinarmos também o cérebro para melhorar atenção, equilíbrio emocional, capacidade cognitiva e qualidade de vida? O Neurofeedback é uma técnica de neuromodulação não invasiva que permite ao cérebro aprender a regular melhor a sua própria atividade. Através da leitura da atividade elétrica cerebral, conseguimos perceber como determinadas áreas cerebrais estão a funcionar e identificar padrões de maior desregulação funcional. Em algumas crianças, áreas ligadas à atenção, organização, controlo emocional ou sono podem funcionar de forma menos eficiente ou excessivamente ativada e é aqui que o Neurofeedback ajuda o cérebro a reorganizar esses padrões de funcionamento através de treino e autorregulação. O mais fascinante é que o cérebro infantil tem uma enorme capacidade de adaptação e neuroplasticidade. Quando conseguimos melhorar a forma como o cérebro comunica e se regula, muitas vezes observamos melhorias significativas na concentração, aprendizagem, comportamento, estabilidade emocional e qualidade do sono. Mais do que “estimular o cérebro”, o objetivo é ajudá-lo a funcionar de forma mais equilibrada e eficiente.
Quais são os principais sinais comportamentais, emocionais ou cognitivos que podem indicar aos pais que o Neurofeedback pode ser uma solução relevante para os seus filhos?
Existem vários sinais que podem indicar que o cérebro da criança está com maior dificuldade em regular determinadas funções. Os mais frequentes são dificuldades persistentes de atenção e concentração, impulsividade, hiperatividade, ansiedade, irritabilidade, alterações do sono, instabilidade emocional, dificuldades de aprendizagem ou baixa tolerância à frustração. Em muitos casos, aquilo que observamos é que áreas cerebrais relacionadas com atenção, autorregulação emocional e controlo comportamental não estão a funcionar de forma totalmente equilibrada. Por exemplo, em crianças com hiperatividade e défice de atenção é relativamente comum existir menor eficiência em regiões cerebrais responsáveis pelo foco, planeamento e controlo da impulsividade. Já em quadros de ansiedade, o cérebro tende frequentemente a permanecer num estado constante de alerta, como se tivesse dificuldade em desacelerar. Mas é importante perceber que o cérebro da criança não funciona isoladamente. O sono, ambiente familiar e escolar, excesso de estímulos digitais, carga emocional e ritmo de vida têm um impacto enorme no funcionamento cerebral. Por isso, mais do que olhar apenas para sintomas, procuramos compreender o funcionamento global da criança e aquilo que o cérebro nos está a tentar mostrar através desses sinais.
Na sua prática clínica, quais têm sido os benefícios mais consistentes e transformadores observados em crianças que realizam sessões de Neurofeedback?
Os benefícios mais consistentes acabam por refletir-se sobretudo no dia a dia da criança e da família. Muitos pais começam por relatar melhorias na capacidade de atenção, maior estabilidade emocional, redução da impulsividade e uma melhor capacidade de autorregulação. Em contexto escolar, é frequente os professores referirem que as crianças conseguem estar mais focadas, menos agitadas e mais disponíveis para aprender. Do ponto de vista neurofuncional, aquilo que procuramos é ajudar o cérebro a funcionar de forma mais organizada e eficiente. Quando o cérebro deixa de estar constantemente em estados de desregulação ou hiperativação, a criança tende a sentir-se mais equilibrada cognitivamente e emocionalmente. Há também melhorias muito importantes na qualidade do sono, ansiedade e gestão emocional. E isso acaba por ter impacto em tudo: rendimento escolar, autoestima, relações familiares e confiança da própria criança. Aquilo que mais impacto tem muitas vezes não é apenas a melhoria clínica, mas perceber que a criança volta a sentir-se confortável consigo própria e com o mundo à sua volta.
De que forma o Neurofeedback pode contribuir para melhorar dificuldades como défice de atenção, impulsividade, ansiedade ou perturbações do sono nas crianças?
O Neurofeedback ajuda o cérebro a desenvolver maior capacidade de autorregulação. Na hiperatividade e défice de atenção, por exemplo, existem frequentemente áreas cerebrais ligadas ao foco, organização e controlo da impulsividade que funcionam de forma menos eficiente. O treino cerebral ajuda o cérebro a desenvolver padrões mais organizados de atenção e controlo executivo. Nos quadros de ansiedade, o cérebro tende muitas vezes a permanecer excessivamente ativado, num estado quase permanente de alerta. Isso dificulta a desaceleração mental, aumenta a tensão emocional e interfere frequentemente com o sono e o equilíbrio emocional. Ao trabalhar estes padrões de funcionamento, o Neurofeedback pode ajudar o cérebro a encontrar maior estabilidade funcional e emocional. Nas perturbações do sono acontece algo semelhante. Muitas crianças apresentam dificuldade em “desligar” cerebralmente, sobretudo devido a estados persistentes de hiperativação mental e emocional. Quando o cérebro aprende a regular melhor esses estados, a qualidade do sono tende também a melhorar. Apesar disto, o Neurofeedback não deve ser visto como uma solução isolada e pode até nem resultar se aplicado isoladamente. O cérebro é influenciado por múltiplos fatores biológicos, emocionais e ambientais. Por isso defendemos sempre uma abordagem integrada entre neuromodulação, psicoterapia, Medicina do sono, ambiente familiar/escolar e saúde emocional.
Como é vivida a experiência de uma sessão de Neurofeedback por uma criança e de que forma o caráter interativo ou lúdico do processo influencia a adesão ao processo terapêutico?
A experiência costuma ser muito positiva e até divertida para as crianças. O Neurofeedback funciona através de estímulos visuais e interativos, normalmente sob a forma de jogos ou desafios adaptados à idade da criança. Pode ser um jogo de corridas, futebol, aviões, balões ou várias outras dinâmicas. O mais interessante para elas é perceberem que conseguem “controlar” o jogo através da própria atividade cerebral, sem comandos físicos. Isso cria um enorme envolvimento e motivação ao longo do processo terapêutico. As crianças vivem a experiência de forma natural, dinâmica e estimulante, o que facilita muito a adesão às sessões. Existe também um sentimento de conquista e evolução, algo extremamente importante no desenvolvimento da confiança e autoestima. Quando conseguimos associar intervenção terapêutica a uma experiência positiva, os resultados tendem naturalmente a ser mais consistentes.
Qual é o papel dos pais ao longo de todo o processo de Neurofeedback e de que forma o ambiente familiar pode potenciar os resultados alcançados?
O papel dos pais é absolutamente fundamental. O Neurofeedback pode ajudar o cérebro a desenvolver melhores mecanismos de autorregulação, mas a criança continua inserida num contexto emocional, familiar e social que influencia diretamente o seu funcionamento cerebral. Por isso, para existirem resultados consistentes e duradouros, é essencial existir um trabalho conjunto entre equipa clínica, criança e família. Muitas vezes é necessário ajustar rotinas, higiene do sono, gestão emocional, exposição digital e estratégias comportamentais no ambiente familiar. Quando os pais compreendem o processo terapêutico e participam ativamente, os resultados tendem a ser muito mais positivos. Mais do que tratar sintomas, procuramos criar equilíbrio no contexto global em que a criança vive e se desenvolve.
Num contexto em que as crianças estão cada vez mais expostas a estímulos digitais e ritmos acelerados, que impacto observa no funcionamento cerebral infantil e como pode o Neurofeedback ajudar a restabelecer o equilíbrio?
O cérebro infantil não foi desenvolvido para viver permanentemente em hiperestimulação. Hoje temos crianças expostas desde muito cedo a excesso de estímulos digitais, ritmos acelerados, multitasking constante e pouca capacidade de pausa cerebral e principalmente tempo para serem crianças e BRINCAREM. Isso tem impacto direto na atenção, na regulação emocional, na qualidade do sono e até na forma como o cérebro aprende a lidar com frustração e silêncio. Na prática clínica observamos cada vez mais crianças cognitivamente cansadas, emocionalmente mais reativas e com dificuldade em desacelerar mentalmente devido aos estímulos e recompensa imediata (baixa tolerância à frustração). O problema não é apenas o tempo de ecrã. É sobretudo a intensidade e velocidade dos estímulos. O cérebro precisa de pausas para consolidar aprendizagem, regular emoções e reorganizar-se funcionalmente. Todas estas funções acontecem durante o sono, daí ser de extrema importância a componente de avaliação do sono nas crianças. O Neurofeedback pode ajudar muito na reorganização destes estados de hiperativação cerebral, promovendo maior estabilidade emocional, capacidade de foco e autorregulação. Mas considero importante dizer algo que muitas vezes esquecemos: não devemos usar neuromodulação para compensar estilos de vida completamente desregulados. Antes de tratar o cérebro, temos também de olhar para o ambiente em que esse cérebro vive. Precisamos de começar a olhar para a saúde cerebral infantil de forma preventiva e não apenas quando já existe sofrimento emocional ou dificuldade instalada.
Quais são os principais mitos ou ideias erradas que ainda persistem em torno do Neurofeedback e que considera importante esclarecer junto do público?
Um dos principais mitos é a ideia de que o Neurofeedback altera a personalidade ou “controla” o cérebro da pessoa. Isso não corresponde à realidade. O Neurofeedback é uma técnica não invasiva e extremamente segura. Não introduz corrente elétrica nem modifica artificialmente o cérebro. O que fazemos é ajudar o cérebro a reconhecer os seus próprios padrões de funcionamento e a desenvolver formas mais equilibradas de autorregulação. Existe também algum receio relativamente à segurança, sobretudo em crianças, mas trata-se de uma abordagem indolor, com um perfil de segurança favorável quando aplicada por profissionais qualificados e após avaliação adequada. Outro mito é pensar que estas abordagens servem apenas para tratar patologia. Hoje sabemos que a neuromodulação pode também ajudar na otimização cognitiva, gestão emocional e melhoria da performance mental. O cérebro humano tem uma enorme capacidade de adaptação. Muitas vezes, aquilo que fazemos é simplesmente ajudá-lo a reencontrar equilíbrio funcional.
De que forma a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) se diferencia do Neurofeedback em termos de funcionamento, objetivos terapêuticos e tipo de intervenção no cérebro?
Embora ambas pertençam à área da neuromodulação, funcionam de formas bastante diferentes. O Neurofeedback baseia-se num processo de treino cerebral e autorregulação. O cérebro recebe informação em tempo real sobre a sua própria atividade e aprende progressivamente a reorganizar padrões de funcionamento. Já a Estimulação Magnética Transcraniana atua de forma mais direta sobre determinadas áreas cerebrais através de campos eletromagnéticos. Dependendo da região cerebral estimulada e dos protocolos utilizados, conseguimos modular a atividade de circuitos neuronais associados a depressão, ansiedade, dor crónica ou alterações cognitivas. De uma forma simples, costumo dizer que o Neurofeedback funciona mais como um treino funcional do cérebro, enquanto a EMT permite uma modulação cerebral mais direcionada e profunda. São abordagens diferentes, dentro de uma medicina cada vez mais personalizada e focada na regulação cerebral.
No caso dos adultos, em que tipo de condições ou desafios a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) tem demonstrado maior eficácia e que impacto pode ter na qualidade de vida dos pacientes?
A EMT tem vindo a demonstrar resultados muito relevantes sobretudo na área da saúde mental, nomeadamente na depressão resistente ao tratamento convencional. Em muitos quadros depressivos podem existir alterações na atividade funcional de áreas cerebrais associadas à motivação, energia, processamento emocional e funções executivas. A EMT permite modular essas regiões e promover reorganização funcional dos circuitos neuronais envolvidos. Existem também outras áreas de intervenção como a ansiedade, dor crónica, burnout e recuperação neurológica, sempre integradas numa avaliação clínica adequada e em abordagens multidisciplinares. Mais recentemente, a EMT tem mostrado resultados muitíssimo interessantes na recuperação pós-AVC, potenciando mecanismos de neuroplasticidade e reorganização cerebral. Aquilo que considero mais interessante nesta área é perceber que estamos progressivamente a entrar numa medicina cerebral mais funcional, personalizada e menos centrada apenas na medicação.
Tendo em conta o crescente interesse por soluções não invasivas na saúde mental, que papel acredita que a EMT poderá assumir no tratamento de perturbações como depressão, ansiedade ou burnout no público adulto?
Acredito que a EMT terá um papel cada vez mais importante no futuro da saúde mental. Durante muitos anos, o tratamento da depressão e ansiedade esteve muito centrado e ainda está, exclusivamente na medicação. Hoje começamos a perceber que o cérebro pode ser modulado de forma mais direcionada, personalizada e funcional. Os estudos mais recentes mostram que a EMT pode trazer benefícios significativos, especialmente em casos que existe resposta insuficiente às abordagens convencionais, ajudando a melhorar sintomatologia, funcionalidade e qualidade de vida. Em alguns casos, poderá também contribuir para reduzir carga farmacológica, sempre sob decisão médica e dentro de um acompanhamento clínico adequado. Vivemos numa sociedade em que o burnout, ansiedade e exaustão emocional aumentaram drasticamente. O cérebro moderno vive muitas vezes em sobrecarga constante. A neuromodulação permite-nos olhar para a saúde mental de uma forma diferente: não apenas tratar doença, mas ajudar o cérebro a recuperar equilíbrio, regulação e funcionalidade. E acredito sinceramente que esse será um dos caminhos mais importantes da neurociência clínica nas próximas décadas.
Que mensagem final gostaria de deixar aos pais que procuram soluções inovadoras e eficazes para apoiar o desenvolvimento emocional, cognitivo e comportamental dos seus filhos?
A principal mensagem que deixaria é que não devemos normalizar o sofrimento emocional ou as dificuldades cognitivas das crianças. Quanto mais cedo existir acompanhamento e intervenção adequada, maior tende a ser a capacidade de recuperação, adaptação e equilíbrio. Hoje existem abordagens inovadoras, não invasivas e com crescente evidência científica que podem fazer uma diferença muito significativa na vida das crianças e das famílias. Naturalmente, cada caso deve ser avaliado individualmente e nenhuma terapêutica deve ser encarada como solução isolada ou milagrosa. Mas acredito profundamente que, quando bem indicadas e integradas numa abordagem multidisciplinar, estas ferramentas podem ter um impacto muito positivo na qualidade de vida e no desenvolvimento infantil. Cuidar da saúde cerebral deve ser visto com a mesma naturalidade com que cuidamos da saúde física. Porque quando ajudamos uma criança a regular-se melhor emocionalmente, estamos também a ajudá-la a crescer com mais equilíbrio, confiança e qualidade de vida.