"O Neurofeedback é uma ferramenta complementar, integrada num plano terapêutico mais amplo"
A Psicologia Clínica infantil tem vindo a integrar novas abordagens terapêuticas capazes de responder, de forma mais precisa e personalizada, aos desafios emocionais, comportamentais e cognitivos das crianças. Entre essas abordagens, o Neurofeedback destaca-se como uma ferramenta inovadora que alia ciência, tecnologia e acompanhamento clínico especializado, promovendo uma melhor autorregulação cerebral e emocional.
Na entrevista que concedeu à Business Voice, Marisa Marques, Psicóloga Clínica e da Saúde, explica como esta metodologia tem ganho relevância na saúde mental infantil, reforçando, contudo, que a técnica só faz sentido quando integrada numa visão clínica humanizada e individualizada. “Para mim, o Neurofeedback nunca deve ser uma técnica aplicada de forma isolada ou mecânica. Deve fazer parte de um raciocínio clínico individualizado, centrado naquela criança, naquela família e naquele momento do desenvolvimento”, sublinha a especialista. Uma conversa esclarecedora sobre inovação terapêutica, desenvolvimento infantil e a importância de olhar cada criança como única.
O Neurofeedback tem vindo a afirmar-se como uma abordagem inovadora na área da saúde mental infantil. De forma clara, em que consiste esta técnica e como é que funciona na prática com crianças?
O Neurofeedback é uma técnica de treino da autorregulação cerebral. Gosto de o explicar aos pais de uma forma muito simples: é como se déssemos ao cérebro da criança um “espelho” do seu próprio funcionamento, para que, pouco a pouco, ele aprenda a regular-se melhor.
Na prática, colocamos pequenos sensores no couro cabeludo da criança, semelhantes aos utilizados num eletroencefalograma. Estes sensores não provocam dor, não emitem choques, não introduzem qualquer corrente elétrica e não são invasivos. Apenas registam a atividade cerebral. A criança está sentada, habitualmente diante de um ecrã, a ver uma animação, um vídeo ou a interagir com uma tarefa lúdica.
Quando o cérebro se aproxima do padrão que pretendemos treinar, por exemplo, maior estabilidade atencional, menor agitação ou melhor capacidade de autorregulação, o sistema dá uma resposta imediata, muitas vezes visual ou sonora. A imagem pode ficar mais nítida, o jogo pode avançar ou a criança pode receber uma recompensa no próprio ecrã. Quando o cérebro se afasta desse padrão, esse reforço diminui.
É através desta repetição, sessão após sessão, que o cérebro vai aprendendo. Não é magia, não é uma solução instantânea, nem substitui o acompanhamento clínico. É um processo de treino, muito semelhante ao que acontece quando ensinamos uma criança a desenvolver uma nova competência: exige tempo, consistência, vínculo terapêutico e objetivos bem definidos.
Aquilo que considero particularmente bonito nesta abordagem é que muitas crianças sentem, pela primeira vez, que podem ter algum controlo sobre aquilo que antes lhes parecia impossível controlar: a distração, a impulsividade, a agitação interna, a ansiedade ou a dificuldade em parar. E isso, do ponto de vista emocional, pode ser profundamente reparador.
Tendo em conta a sua experiência enquanto Psicóloga Clínica e da Saúde, que tipo de dificuldades ou perturbações nas crianças mais beneficiam do Neurofeedback, nomeadamente em casos de défice de atenção, ansiedade ou TDAH?
Na prática clínica, o Neurofeedback tem sido procurado para tudo e mais alguma coisa, mas em especialmente em situações em que a criança apresenta dificuldades de atenção, impulsividade, hiperatividade, desorganização, baixa tolerância à frustração, dificuldades de autorregulação emocional ou alterações do sono.
É muito frequente chegar-nos uma criança que já ouviu demasiadas vezes frases como “não estás atento”, “não paras quieto”, “tens de te esforçar mais” ou “não controlas as tuas emoções”. Muitas destas crianças não estão simplesmente a “portar-se mal”. Muitas vezes, estão a revelar dificuldades reais no funcionamento executivo, na capacidade de inibir respostas, na gestão da ativação interna ou na regulação emocional.
Por isso, o Neurofeedback pode ser uma ferramenta interessante em casos de PHDA, dificuldades atencionais, ansiedade, agitação psicofisiológica, impulsividade e instabilidade emocional. A investigação tem-se debruçado particularmente sobre a PHDA, existindo estudos que apontam benefícios em algumas áreas, nomeadamente em sintomas atencionais e funções executivas, embora a evidência deva ser lida com rigor e prudência.
Mas é importante deixar claro: nem todas as crianças precisam de Neurofeedback e nem todas respondem da mesma forma. Antes de iniciar qualquer intervenção, é fundamental compreender a criança no seu todo: história de desenvolvimento, contexto familiar, escola, sono, ansiedade, autoestima, perfil cognitivo, linguagem, aprendizagem e estado emocional.
Para mim, o Neurofeedback nunca deve ser uma técnica aplicada de forma isolada ou mecânica. Deve fazer parte de um raciocínio clínico individualizado, centrado naquela criança, naquela família e naquele momento do desenvolvimento.
Sendo uma intervenção baseada na autorregulação cerebral, de que forma o Neurofeedback contribui para melhorias concretas na concentração, no controlo emocional e no desempenho escolar?
O Neurofeedback procura ajudar o cérebro a tornar-se mais flexível, mais estável e mais eficiente. Quando trabalhamos com crianças com dificuldades de atenção, por exemplo, o objetivo não é apenas que “estejam quietas” ou que “se concentrem porque sim”. O objetivo é ajudá-las a alcançar estados internos mais favoráveis à aprendizagem, à escuta, à persistência e à organização.
Na prática, quando há uma boa resposta ao processo, os pais podem começar a notar pequenas mudanças: a criança consegue permanecer mais tempo numa tarefa, termina atividades com menos interrupções, reage com menos explosividade, recupera mais rapidamente depois de se frustrar ou mostra maior disponibilidade para aprender.
Na escola, isto pode traduzir-se numa maior capacidade de acompanhar instruções, menos impulsividade nas respostas, melhor organização dos trabalhos, maior resistência ao esforço mental e menor desgaste emocional. Mas é importante sublinhar que o desempenho escolar nunca depende apenas do cérebro em treino. Depende também da relação com o professor, das adaptações pedagógicas, da motivação, da autoestima, do sono, da ansiedade e do ambiente familiar.
Por isso, quando falamos de melhorias escolares, eu gosto de ser muito cuidadosa. O Neurofeedback pode ajudar a criar melhores condições internas para a aprendizagem, mas não substitui a intervenção psicopedagógica, a avaliação neuropsicológica, o apoio familiar ou a articulação com a escola.
A criança não é um sintoma. É uma pessoa em desenvolvimento. E qualquer intervenção eficaz tem de respeitar essa complexidade.
Muitos pais procuram alternativas à medicação. O facto de o Neurofeedback ser um método não invasivo torna-o uma opção viável como substituto ou deve ser encarado sobretudo como complemento a outras abordagens terapêuticas?
Compreendo muito bem que muitos pais procurem alternativas à medicação. Na maioria das vezes, essa procura nasce de uma preocupação legítima: querem ajudar o filho, mas têm receios, dúvidas e, por vezes, sentem-se emocionalmente divididos.
O facto de o Neurofeedback ser uma abordagem não invasiva é, sem dúvida, um aspeto muito valorizado pelas famílias. No entanto, clinicamente, considero essencial transmitir uma mensagem equilibrada: o Neurofeedback deve ser encarado sobretudo como uma ferramenta complementar, integrada num plano terapêutico mais amplo.
Em crianças com PHDA, as recomendações clínicas continuam a apontar para intervenções multimodais, que podem incluir orientação parental, estratégias comportamentais, apoio escolar e, quando indicado, medicação. Tal como sabemos, de acordo com, as recomendações da Academia Americana de Pediatria, refere que, em crianças a partir dos 6 anos, o tratamento pode incluir medicação aprovada, treino parental em gestão comportamental, intervenções comportamentais e apoios escolares.
Isto significa que o Neurofeedback não deve ser apresentado como substituto direto da medicação em todos os casos. Pode, sim, ser uma resposta complementar muito interessante e de “ouro”, sobretudo quando queremos trabalhar autorregulação, atenção, impulsividade e consciência interna.
Acima de tudo, não se trata de escolher entre “medicação ou intervenção psicológica” ou entre “Neurofeedback ou terapia”. Trata-se de perceber o que aquela criança precisa, naquele momento, para sofrer menos, funcionar melhor e desenvolver mais recursos.
Que tipo de resultados podem os pais esperar ao longo do processo? Existem mudanças visíveis a curto prazo ou trata-se de um trabalho mais progressivo e contínuo?
O Neurofeedback é um processo progressivo. Não é uma intervenção de resultados imediatos, nem deve ser comunicada às famílias como uma promessa rápida. É um treino. E, como qualquer treino, exige repetição, regularidade e tempo para que o cérebro vá consolidando novos padrões.
Alguns pais começam por notar pequenas mudanças nas primeiras semanas: a criança parece mais tranquila, dorme melhor, está ligeiramente menos reativa ou consegue manter-se mais tempo numa atividade. Outras vezes, as mudanças são mais subtis e só se tornam claras quando olhamos para o percurso ao longo de várias sessões.
É importante que os pais saibam que a evolução pode não ser linear. Há semanas melhores, semanas mais difíceis, momentos de maior estabilidade e momentos em que o contexto externo (escola, sono, conflitos familiares, ansiedade, mudanças de rotina) interfere muito.
Por isso, gosto sempre de definir objetivos muito concretos desde o início. Em vez de dizermos apenas “queremos melhorar a atenção”, podemos observar: consegue terminar os trabalhos de casa com menos ajuda? Tolera melhor a frustração? Interrompe menos? Recupera mais depressa depois de se irritar? Está mais autónoma nas rotinas? Dorme melhor? Está emocionalmente mais disponível?
Estes indicadores ajudam-nos a perceber se o processo está a fazer sentido. E ajudam também os pais a olhar para a criança com mais esperança, mas sem expectativas irreais.
Para mim, um bom resultado não é transformar a criança noutra pessoa. É ajudá-la a sentir-se mais capaz dentro de si própria.
Há alguma idade ideal para iniciar este tipo de intervenção ou o Neurofeedback pode ser eficaz em diferentes fases do desenvolvimento infantil?
Não existe uma idade única ideal. Mais importante do que a idade cronológica é a maturidade da criança para colaborar com a sessão, tolerar os sensores, compreender minimamente a tarefa e manter alguma disponibilidade para participar.
Em idade escolar, o Neurofeedback tende a ser mais fácil de aplicar, porque a criança já consegue envolver-se melhor no processo e existem, muitas vezes, queixas mais claras ao nível da atenção, aprendizagem, comportamento ou regulação emocional.
Nas crianças mais novas, tudo precisa de ser mais lúdico, mais breve e muito adaptado ao seu nível de desenvolvimento. Nos adolescentes, por outro lado, já é possível trabalhar com maior consciência, ajudando-os a compreender como o seu cérebro e o seu corpo respondem ao stress, à pressão escolar, à ansiedade ou à exigência emocional.
O essencial é que a intervenção seja sempre ajustada à criança. Não existe um protocolo “igual para todos”. Há crianças mais ansiosas, crianças mais impulsivas, crianças mais desligadas, crianças mais rígidas, crianças com baixa autoestima, crianças que chegam cansadas de serem corrigidas.
Antes de qualquer técnica, temos de olhar para a criança. O Neurofeedback pode ser uma ferramenta, mas a intervenção começa sempre na relação, na escuta e na compreensão clínica.
Numa altura em que a saúde mental das crianças está cada vez mais em foco, que mensagem considera essencial transmitir aos pais e educadores sobre a importância de investir em abordagens como o Neurofeedback?
A mensagem que considero mais importante é esta: precisamos de deixar de olhar apenas para o comportamento da criança e começar a olhar para o que está por trás desse comportamento.
Uma criança desatenta pode estar sobrecarregada. Uma criança agitada pode estar desregulada. Uma criança oposicionista pode estar frustrada, ansiosa ou sem recursos para responder de outra forma. Uma criança que “não quer fazer” pode, muitas vezes, ser uma criança que já se sente incapaz antes mesmo de tentar.
O Neurofeedback é uma das abordagens que nos convida a olhar para a autorregulação cerebral e emocional de uma forma mais integrada. Mas, para mim, o mais importante não é a tecnologia em si. O mais importante é a mudança de olhar: compreender que muitas crianças precisam de ser treinadas, acompanhadas e reguladas antes de conseguirem controlar-se sozinhas.
Investir em saúde mental infantil é investir no futuro emocional das crianças. É ajudá-las a crescer com mais consciência de si, mais capacidade de lidar com a frustração, mais autoestima, mais segurança e mais recursos internos.
Genuinamente, todas as abordagens devem ser utilizadas com rigor, ética e base científica. Devem ser conduzidas por profissionais qualificados, com avaliação adequada e objetivos realistas. Mas não devemos ter medo de inovar quando essa inovação está ao serviço da criança, da família e do seu bem-estar.
Enquanto psicóloga, acredito que nenhuma criança deve ser vista apenas pelo sintoma ou pelo diagnóstico. Por trás da desatenção, da agitação ou da ansiedade, existe sempre uma criança que precisa de ser compreendida, orientada e ajudada a desenvolver recursos internos. O Neurofeedback pode ser uma ferramenta muito valiosa nesse caminho, mas é o olhar clínico, humano e individualizado que transforma verdadeiramente a intervenção.
Porque quando uma criança aprende a regular-se, não muda apenas o seu comportamento: muda a forma como se sente consigo própria, com a escola, com a família e com o mundo.