“O acompanhamento Psicológico é um lugar Seguro para Refletir”
Num tempo em que o ritmo acelerado da vida quotidiana desafia constantemente o equilíbrio individual, a saúde mental afirma-se como uma prioridade incontornável — não apenas no plano pessoal, mas também social e profissional. Ainda assim, persistem estigmas, resistências e uma falta de literacia emocional que dificultam uma abordagem verdadeiramente preventiva e integrada. É neste contexto que Márcia Santos, Psicóloga Clínica, partilha a sua visão em entrevista à Business Voice, sublinhando a importância de normalizar a conversa sobre saúde mental e de promover uma relação mais consciente com as emoções. Mais do que reagir ao sofrimento, importa desenvolver competências que permitam lidar com a complexidade do dia a dia de forma mais equilibrada e sustentável. Uma reflexão que reforça uma ideia essencial: cuidar da saúde mental não é um ato pontual — é um compromisso contínuo com o próprio bem-estar.
A saúde mental tem ganho cada vez mais visibilidade nos últimos anos. Na sua perspetiva, quais são os principais fatores que têm contribuído para este aumento de casos de ansiedade, depressão e outros transtornos psicológicos na sociedade atual?
O aumento da visibilidade da saúde mental é, reflexo de um progresso social e de uma crise silenciosa, que a sociedade portuguesa e mundial tem vindo a passar. A progressão constante de transtornos psicológicos, na sociedade atual, não é apenas um fenómeno estatístico, mas também um resultado de desadaptação entre as nossas estruturas neurobiológicas e as exigências do nosso contexto atual.
Este aumento, pode ser analisado através dos seguintes fatores:
• Pressão Socioeconómica e a Incerteza: A incerteza quanto ao futuro financeiro e precariedade, derivado da instabilidade laboral, a dificuldade à habitação e ao custo de vida.
• Sobrecarga e Desequilíbrio entre a Vida Pessoal e Profissional: A hiperconectividade e valorização produtiva contínua, tem vindo a ser o desequilíbrio. Onde é possível, observar um aumento significativo nos níveis de stress, pela acumulação das responsabilidades profissionais com a parte pessoal.
• Desigualdades de Género: A discrepância, pode ser explicada, na distribuição de responsabilidades familiares, somadas às exigências profissionais, contribuem para um estado de sobrecarga e exaustão persistente, principalmente nas mulheres.
• Barreiras no Acesso e Estigma Constante: Apesar, de a saúde mental, tenha cada vez mais uma maior visibilidade, ainda existe o estigma de abordar o tema com amigos ou familiares. Assim como, a procura de ajuda de um profissional de saúde mental.
• Impacto Tecnológico e Isolamento: A mudança da forma como estabelece relações e comparação social constante, através das redes sociais. Tem vindo a contribuir para o isolamento e dissonância cognitiva, principalmente das gerações mais novas.
Em suma, deparamos com uma sociedade que exige ritmos de adaptação e resiliência que, maioria das vezes, ultrapassam os limites psicológicos do ser humano. O aumento dos transtornos psicológicos, são sintomas de uma sociedade que, priorizam a funcionalidade em detrimento da humanidade. É urgente e importante, que a saúde individual, tenha a mesma prioridade que a saúde pública e responsabilidade social.
Ainda existe algum estigma associado à procura de apoio psicológico. Quais são, na sua opinião, os maiores mitos sobre a psicoterapia e como podemos contribuir para uma maior normalização do cuidado com a saúde mental?
Apesar do aumento da procura de serviços de saúde mental, nos últimos anos, o estigma contínua presente - sobretudo o autoestigma, ou seja, forma como a própria pessoa julga e invalida o seu sofrimento.
Um dos mitos mais enraizados, é: “O psicólogo é só para malucos ou para quem está louco”. Este é um dos maiores mitos, que ouvimos vezes e vezes, nos dias que correm, chega a ser paralisante para quem o ouve. A internalização deste mito, impede que a pessoa reconheça e que procure ajuda psicológica, mesmo encontrando-se em sofrimento.
“Ires aos Psicólogo é sinal de fraqueza”. Este mito, é um mito muito presente. Procurar ajuda psicológica requer coragem- coragem para enfrentar os desafios e a vulnerabilidade. Muitas vezes, acreditamos que somos capazes de resolver todos os nossos problemas sozinhos. Essa crença, pode dar sensação momentânea de controlo, mas acaba por transformar-se em sobrecarga emocional, sofrimento e isolamento. Tal, como recorremos ao médico para uma questão física, procurar psicólogo é cuidar da nossa saúde mental. É um espaço que permite reflexão, compreensão e desenvolvimento pessoal. Pedir ajuda, não diminuí ninguém- pelo contrário, é um sinal de consciência e maturidade.
“O Psicólogo só vai dizer-te o que deves ou não fazer, ou dar-te conselhos” Este é um dos mitos que confunde o papel do psicólogo com um amigo ou um simples conselheiro. O psicólogo, intervém na saúde mental, com base em evidências científicas, com objetivo de promover autonomia e a capacidade de decisão da própria pessoa. O papel do psicólogo, não passa por impor soluções ou caminhos, o objetivo não passa por dizer o que deve ou não fazer, mas sim capacitar a pessoa, para uma escolha mais consciente e ajustada.
“O tempo é o teu melhor amigo, ele cura tudo! Não precisas de ir ao psicólogo.” O tempo pode trazer algum distanciamento emocional, mas só ele não basta. O mito sobre o tempo, pode levar ao evitamento de procurar de ajuda psicológica. Experiências traumáticas não processadas, crenças disfuncionais ou ansiedade, tendem a enraizarem-se e pode complicar a sua resolução no futuro. O acompanhamento psicológico adequado, pode ser importante.
A normalização do cuidado com a saúde mental, implica uma mudança constante, tanto a nível pessoal como coletivo. Em primeiro lugar, é fundamental investir na literacia sobre a saúde mental, clarificando conceito e desconstruindo crenças, que persiste na sociedade atual. Em simultâneo, a utilização de uma linguagem mais rigorosa e menos estigmatizante, beneficia uma perceção mais ajustada do sofrimento psicológico. Assim, como a validação pessoal, é um fator importante porque permite reconhecer e legitimizar as experiências emocionais do outro e permite abertura para a procura de ajuda psicológica.
Nos contextos profissionais e educativos, a integração de práticas promotoras de bem-estar psicológico, contribuir para a mudança cultural. Por último, reforçar acessibilidade aos serviços e combater o autoestigma. A procura de apoio psicológico, contribuiu para a promoção e manutenção da saúde mental.
Vivemos numa era digital, marcada pelo uso intensivo de redes sociais. Que impacto tem esta realidade na saúde mental, especialmente em jovens e adolescentes, e que sinais de alerta devem pais e educadores ter em atenção?
O uso intensivo das redes sociais assume cada vez mais um papel central, entre jovens e adolescentes. Apesar, das redes sociais serem facilitadores de comunicação e o acesso à informação, estão cada vez mais associadas a riscos para a saúde mental. Principalmente, na comparação social constante, na procura de validação externa, imagem social e exposição irrealista de padrões de vida. Estes fatores, contribuem para o aumento de sintomas de ansiedade, depressão e diminuição da autoestima.
Assim como, a hiperconectividade pode influenciar na rotina de sono, na concentração e na qualidade de relações interpessoais, contribuindo para sentimentos de isolamento.
Os pais e os educadores, devem estar atentos aos sinais de alerta, sendo esses: humor, irritabilidade, isolamento social, perturbações do sono, necessidade excessiva de validação, preocupação com a autoimagem, diminuição do desempenho académico, diminuição por atividades de interesse e resistência na limitação do tempo de ecrã.
A intervenção, começa pela promoção de um uso mais consciente e equilibrado das tecnologias, bem como o reforço de competências emocionais e pensamento crítico face aos conteúdos digitais.
O stress crónico tem sido apontado como um dos grandes problemas da vida moderna. Que estratégias práticas recomenda para que as pessoas consigam gerir melhor o stress no dia a dia?
A gestão do stress crónico, passa por reconhecer precocemente os sinais de sobrecarga e ajustar as expectativas às exigências profissionais e pessoais.
Estratégias práticas recomendadas, destaca-se o estabelecimento de limites, promovendo momentos de pausa e relaxamento. A organização do tempo, para estabelecer prioridades realistas, para a redução de sensação de descontrolo. O suporte social, como papel significativo na manutenção das relações interpessoais. A prática de exercício físico, técnicas de relaxamento e cumprimento da rotina de sono, para que haja uma redução dos níveis de ansiedade. Com as estratégias de práticas recomendadas, permitem uma maior flexibilidade e regulação as exigências do meio.
A pandemia trouxe mudanças profundas nas rotinas e relações sociais. Que efeitos ainda persistem ao nível da saúde mental e que desafios novos têm surgido desde então?
A pandemia provocou alterações pessoais e sociais, dos quais os efeitos da mesma continuam a ser sentidos, principalmente na saúde mental. Todos nós, experienciamos o isolamento e perdas de referências sociais, o que contribuiu para um maior aumento de sintomas de ansiedade, depressão e stress pós-traumático, em que alguns casos persistem após o retorno à “normalidade”.
As dificuldades que persistem, estão relacionadas com dificuldade de readaptação as interações presenciais e o impacto prolongado do teletrabalho, que tende em refletir na vida pessoal e profissional. Observa-se, desde então, um aumento da sobrecarga parental e familiar, preocupações e vulnerabilidade de familiares, o que intensifica a perceção de responsabilidade e aumenta os níveis de exaustão.
Houve um aumento significativo da dependência da tecnologia, como forma de compensação social, agravando o sono, atenção e regulação emocional.
Estes desafios, chamam atenção para o desenvolvimento de estratégias adaptativas, que assegurem o suporte psicológico contínuo e implementação de políticas de promoção ao bem-estar, que reconheçam o contexto pós-pandémico como um período que contribuiu para efeitos na saúde mental, que persistem atualmente.
Qual é a importância da prevenção na saúde mental? Que hábitos ou comportamentos considera fundamentais para promover o bem-estar psicológico a longo prazo?
A prevenção à saúde mental é crucial porque permite identificar situações de risco, antes de se tornarem problemáticas, promovendo o bem-estar e diminuindo o desenvolvimento de perturbações psicológicas.
Adotarmos hábitos e comportamentos preventivos permite fortalecer a resiliência emocional e a capacidade de enfrentar desafios. Os hábitos e comportamentos, podem começar pelos cuidados com sono e a alimentação; atividade física regular; gestão do stressa, através de técnicas de relaxamento ou mindfulness; manutenção das relações interpessoais saudáveis; estabelecimentos de limites- profissional e pessoal; e reflexão e autoconhecimento.
A prevenção permite à pessoa, promover um estilo de vida psicológico mais saudável, contribuindo para que a mesma, se sinta mais resiliente, competente e capaz de enfrentes os desafios do dia-a-dia.
Para quem sente que precisa de ajuda, mas ainda hesita em procurar um profissional, que mensagem deixaria? Como dar o primeiro passo no caminho do cuidado da saúde mental?
Para todas as pessoas que sente a necessidade de pedir ajuda, mas ainda hesitam em dar o grande passo, é importante lembrar, que reconhecer que precisam de ajuda psicológica é um ato de coragem e autocuidado- e nunca um sinal de fraqueza. A dificuldade de dar este grande passo, está associado a crenças, a estigmas ou a medos, que a sociedade incutiu.
O primeiro passo, pode ser o facto de admitir para si mesmo, que existe um sofrimento ou um desconforto, que merece atenção. Após este primeiro passo dado, procurar um psicólogo ou falar com alguém de confiança, sobre este passo pode auxiliar, no processo de iniciar o acompanhamento psicológico.
O acompanhamento psicológico, é um lugar seguro para refletir, compreender e desenvolver estratégias. Cada passo, por mais que pequeno que seja, em direção à procura de ajuda psicológica, é um investimento próprio do seu bem-estar e na qualidade de vida.