“Na Saúde Mental a Prevenção continua a ser o tratamento mais Poderoso”
Há conversas que nos desafiam a olhar para a realidade sem filtros. Esta é uma delas. Na qualidade de personalidade de capa desta edição da Business Voice, Eduarda Figueiras faz uma reflexão profunda sobre o percurso que construiu ao longo da sua carreira enquanto Psicóloga, mas também sobre um dos temas mais urgentes da atualidade: a saúde mental em Portugal.
"Se tivesse de fazer um retrato da saúde mental em Portugal em 2026, diria que já existiram alguns avanços, mas que ainda existe muito a fazer para melhorar a saúde mental." É desta convicção que parte uma entrevista marcante, onde a especialista analisa o estado da literacia em saúde mental, os desafios que continuam por superar e a influência crescente das redes sociais na forma como pensamos, sentimos e vivemos as nossas emoções.
Numa época em que a informação circula à velocidade de um clique, mas a compreensão nem sempre acompanha esse ritmo, Eduarda Figueiras convida-nos a refletir sobre a importância de promover uma cultura de maior conhecimento, prevenção e cuidado psicológico. Uma conversa lúcida, inspiradora e profundamente atual com uma profissional de reconhecido mérito e excelência, que nos recorda que investir na saúde mental é investir no futuro das pessoas e da sociedade. Uma entrevista indispensável. Não perca.
Toda a escolha profissional nasce, de alguma forma, de uma história pessoal. O que a levou a seguir Psicologia e em que momento percebeu que queria dedicar a sua vida a compreender e a cuidar da saúde mental dos outros?
A minha escolha pela Psicologia nasceu muito antes de eu lhe saber dar um nome. Posso dizer que cresceu silenciosamente até a uma certa altura da minha vida. Mas com o tempo tudo começa a ficar mais claro. Comecei a estar mais atenta, por exemplo, à forma como os outros se sentiam, escutava atentamente as preocupações que as pessoas tinham e “tentava dar conselhos” para aliviar a bagagem que elas carregavam. Além disso, sempre fui muito curiosa em perceber porque sentimos o que sentimos, porque nos comportamos como nos comportamos e claramente que a vontade de aliviar a tristeza e a preocupação que os outros apresentavam era sempre muito grande mesmo quando não tinha ferramentas para tal. Na verdade, e agora olhando para trás a decisão de ingressar em psicologia não foi uma decisão súbita, foi um caminho que se foi revelando, quase como se a vida me estivesse a mostrar, passo a passo, que era ali (à psicologia) que eu queria chegar e que seria a ajudar pessoas que me sentiria realizada.
Houve um momento decisivo: quando percebi que compreender a mente humana não era apenas fascinante, mas sim transformador. Vi, pela primeira vez, que uma conversa segura, uma presença estável, uma escuta verdadeira podiam mudar a forma como alguém se via. E que a psicologia baseada em evidencia científica podia ajudar pessoas a libertarem-se do sofrimento que carregavam. E nesse instante entendi que queria dedicar a minha vida a isso: a criar espaços onde as pessoas pudessem respirar, compreender-se e reencontrar força dentro de si. E isso aconteceu em 2012 quando decidi ingressar no mestrado Integrado em Psicologia na Universidade do Minho.
Se tivesse de fazer um retrato da saúde mental em Portugal em 2026, qual seria o diagnóstico? Estamos perante uma sociedade mais consciente das suas emoções ou apenas mais disponível para falar sobre elas?
Se tivesse de fazer um retrato da saúde mental em Portugal em 2026, diria que já existiram alguns avanços, mas que ainda existe muito a fazer para melhor a saúde mental. Na minha opinião, há mais pessoas a perceberem que a saúde mental é igualmente importante como a saúde física, mas ainda existe muito estigma e tabu em falar sobre a mesma. Há ainda dificuldade em perceber quando devemos recorrer ao psicólogo e isso pode acontecer por falta de informação, pouca literacia em saúde mental, ou porque as pessoas ainda tentam ir por caminhos alternativos e que possam “ser mais fáceis”.
Noto ainda que muitas pessoas têm dificuldades em identificar, validar e falar sobre emoções. Quando falamos em ansiedade, depressão, entre outras perturbações ainda existe julgamento e estigma e muitas vezes não existe compreensão por aquilo que as pessoas estão a sentir.
Na nossa sociedade era importante haver um despertar no que diz respeito à compreensão do stress, da ansiedade e do cansaço na saúde mental, e mais consciência da importância de pedir ajuda antes de chegarmos ao limite. Ainda existem pessoas que continuam a carregar a sua bagagem sozinha, que confundem força com silêncio e que ainda acreditam que cuidar da saúde mental é um luxo ou um sinal de fraqueza.
Concluindo: estamos num caminho onde já houve alguns avanços, mas ainda em construção. Falamos mais em saúde mental, sim e isso abre portas. Agora precisamos aprender a entrar nessas portas com coragem, responsabilidade e apoio profissional, para que a saúde mental deixe de ser apenas um tema de conversa e passe a ser uma prática diária de cuidado.
Nunca se falou tanto de ansiedade, depressão, burnout. Este aumento do discurso reflete uma sociedade emocionalmente mais fragilizada ou simplesmente uma maior capacidade de reconhecer problemas que sempre existiram?
É verdade, em 2026, fala-se mais de ansiedade, depressão, burnout. Mas isto não significa, necessariamente, que estamos perante um aumento significativo o que pode estar a acontecer é que a sociedade pode estar a começar a reconhecer com mais facilidade estes problemas que sempre existiram, mas que durante décadas foram silenciados, normalizados ou até confundidos com “falta de força” ou “falta de resiliência”.
Gradualmente, tem existido uma mudança importante: as pessoas começam a estar mais conscientes de que o sofrimento emocional não é um defeito, é uma experiência humana, isto é, que não é fraqueza, falta de força de vontade ou motivação e sobretudo que não é preguiça. Este reconhecimento faz com que cada vez mais pessoas peçam ajuda, para nomear o que sentem e para admitir que não conseguem carregar tudo sozinhas. E, claramente que isto não é fragilidade é maturidade emocional.
Ao mesmo tempo, é verdade que vivemos num contexto social exigente, rápido e muitas vezes desregulado, que aumenta o risco de burnout, ansiedade e exaustão. Mas a diferença é que se tem vindo a falar mais nestas questões nas redes sociais, nos meios de comunicação. E essa informação chega até às pessoas, existe mais acesso a profissionais de saúde mental, embora aqui ainda estejamos, na minha opinião, abaixo das expetativas e mais abertura para reconhecer que a saúde mental é uma necessidade para o bem-estar e qualidade de vida.
A sociedade está mais consciente da importância da saúde mental, mas não podemos ficar pela consciência têm de passar à prática, fazer o básico bem feito e sempre que precisarem pedir ajuda junto dos profissionais certos.
As redes sociais aproximam pessoas, mas também amplificam comparações, validação externa e a necessidade de corresponder a padrões muitas vezes irreais. Até que ponto acredita que estas plataformas estão a moldar a forma como nos vemos a nós próprios e como vivemos a nossa saúde mental?
As redes sociais aproximam-nos, mas também nos expõem a uma pressão constante para corresponder a padrões que muitas vezes não têm ligação com a vida real. E isso tem impacto direto na forma como nos vemos e na forma como cuidamos ou deixamos de cuidar da nossa saúde mental.
Hoje, vivemos numa sociedade em que a comparação deixou de ser ocasional e passou a ser diária, automática e inevitável. As pessoas são confrontadas com vidas aparentemente perfeitas, corpos idealizados, rotinas impecáveis e sucessos contínuos. E mesmo sabendo que grande parte disso é construído, editado ou filtrado, a nossa mente reage como se fosse verdade.
As redes sociais moldam a nossa autoimagem porque criam uma sensação permanente de palco: sentimos que estamos sempre a ser observados e avaliados. Isso aumenta a necessidade de validação externa e diminui a capacidade de escutar o que realmente sentimos. Muitas pessoas começam a confundir valor com desempenho, aceitação com likes, pertença com visibilidade o que pode ter um impacto muito negativo na autoestima das pessoas e consequentemente levar a sentimentos de inadequação, inferioridade, desvalorização, tristeza e ansiedade.
Mas também acredito que estas plataformas têm um lado bom: permitem que temas como ansiedade, autoestima ou limites emocionais cheguem a pessoas que, de outra forma, nunca teriam acesso a esta linguagem. Há mais informação, mais consciência e mais abertura para pedir ajuda. Até porque, pessoas com mais visibilidade partilham nas suas páginas a importância de fazer terapia e também já existem cada vez mais pessoas a mostrar a vida real.
O objetivo não é abandonar as redes é sim aprender a filtrar a informação que nos chega. Sermos críticos em relação ao que vemos: será que é mesmo assim? Será que é normal estarmos sempre bem? Além disso, filtrar os perfis que nos impulsionam de forma positiva e deixar de seguir aqueles que nos fazem sentir inferiores ou mal connosco próprios. A saúde mental fortalece se quando deixamos de usar as redes para nos medir e começamos a usá las para nos inspirar, aprender e conectar de forma real.
Vivemos ligados quase 24 horas por dia. Entre notificações, conteúdos infinitos e a pressão para estarmos sempre presentes, o cérebro parece nunca desligar. Que consequências tem esta hiperconectividade na nossa capacidade de concentração, descanso, relações e equilíbrio emocional?
Vivemos num ritmo em que o cérebro raramente descansa. A hiperconectividade trouxe-nos muitas oportunidades, mas também nos colocou num estado de alerta quase permanente. Entre notificações, conteúdos infinitos e a sensação de que precisamos de estar sempre disponíveis, o sistema nervoso acaba por funcionar como se estivesse constantemente “em serviço”, mesmo quando o corpo tenta parar.
As consequências são claras. A concentração torna-se mais difícil porque o cérebro está habituado a saltar de estímulo em estímulo, sem tempo para aprofundar cada um deles. O descanso deixa de ser verdadeiro descanso (muitas pessoas deitam-se, mas não desligam, não têm um sono reparador, e mesmo estando na cama 8h acordam de manhã com a sensação de que estão cansadas); estão fisicamente paradas, mas mentalmente aceleradas. E isso cria um cansaço que não se resolve com uma noite de sono.
Nas relações, esta hiperconectividade cria distância disfarçada de proximidade. Estamos juntos, mas distraídos com os telemóveis com as redes sociais em vez de estarmos a priorizar uma conversa cara a cara. Presentes, mas divididos entre ouvir a pessoa que está a falar connosco e o vídeo que estamos a ver no tik tok. A atenção está fragmentada e isso faz com que seja mais difícil escutar ativamente o outro. E quando a presença emocional diminui, a qualidade das relações também diminui.
No equilíbrio emocional, o impacto é ainda mais profundo. O cérebro precisa de silêncio e pausas para recarregar energia. Sem isso, ficamos mais reativos, mais ansiosos, mais vulneráveis ao stress. A hiperconectividade não nos fragiliza porque somos fracos fragiliza-nos porque nenhuma pessoa foi feito para estar ligada 24 horas por dia.
Acredito que o grande desafio não é desligar do mundo, mas aprender a desligar de forma consciente. Criar momentos de pausa real, recuperar a capacidade de estar presente e permitir que o cérebro volte ao seu ritmo natural. A saúde mental fortalece-se quando recuperamos o direito ao silêncio, ao descanso e ao tempo sem estímulos porque é aí que a mente se reorganiza e volta a respirar.
Há uma geração que cresceu sem redes sociais e outra que nunca conheceu um mundo sem elas. Que diferenças observa entre estas gerações na forma como lidam com a autoestima, a solidão, os conflitos e a construção da identidade?
Na minha opinião há uma grande diferença entre quem cresceu sem redes sociais e quem nunca conheceu um mundo sem elas e essa diferença vê se sobretudo na forma como cada geração constrói a autoestima, lida com a solidão, atravessa conflitos e forma a própria identidade.
A geração que cresceu sem redes sociais aprendeu a construir a autoestima a partir de experiências reais: relações presenciais, feedback direto, erros vividos sem testemunhas e sucessos que não precisavam de ser exibidos. A identidade formava se com mais tempo, mais silêncio e mais espaço para experimentar quem se era sem comparação constante. A solidão era vivida como parte natural da vida, não como sinal de falha social. E os conflitos eram resolvidos cara a cara, com mais tolerância à frustração e ao desconforto emocional.
Já a geração que cresceu com redes sociais vive num cenário completamente diferente. A autoestima é muitas vezes moldada por validação externa, por likes nas redes sociais e por comparações diárias. A identidade constrói se num contexto permanente, onde tudo pode ser observado, comentado ou medido. A solidão é mais difícil de reconhecer, porque a presença digital cria a ilusão de companhia mesmo quando falta a ligação emocional real. E os conflitos tendem a ser mais rápidos, mais impulsivos e mais expostos, com menos espaço para reparar e mais medo de errar em público.
Na minha opinião é importante dizer que nenhuma destas gerações está “certa” ou “errada”. A verdade é que são gerações que cresceram em contextos muito diferentes. Cada uma destas aprendeu a sobreviver ao contexto em que cresceu. A geração sem redes desenvolveu mais tolerância ao silêncio e ao tempo; a geração com redes desenvolveu mais linguagem emocional, mais consciência e mais capacidade de pedir ajuda.
O desafio atual é unir o melhor das duas, ou seja, a profundidade das relações presenciais com a abertura emocional que as redes trouxeram. Quando conseguimos equilibrar estes dois mundos, criamos identidades mais sólidas, relações mais seguras e uma autoestima menos dependente do olhar externo.
Muitos conteúdos nas redes sociais recorrem a conceitos da Psicologia para explicar comportamentos ou emoções, nem sempre de forma rigorosa. Considera que a popularização destes temas contribui para democratizar o conhecimento ou pode criar uma perigosa banalização da saúde mental?
Enquanto psicóloga tenha uma opinião ambivalente relativamente à popularização dos conceitos da Psicologia e de saúde mental nas redes sociais. Isto porque, por um lado, permite que as pessoas, em geral, tenham o acesso a temas que antes estavam restritos a contextos clínicos ou académicos, ou seja, páginas de confiança permitem que mais pessoas aprendam, por exemplo, mais sobre emoções, reconheçam sinais de sofrimento emocional, consigam estar mais atentas a sinais de ansiedade e depressão e procurem ajuda mais cedo. Nesse sentido, é um avanço importante porque quando a Psicologia e a saúde mental chega ao dia-a-dia das pessoas, deixa de ser cada vez mais tabu e passa a fazer parte da vida, diminuindo assim o estigma e o julgamento ainda existente relativamente às questões de saúde mental.
Mas há também um risco real. Por exemplo, quando os conceitos mais complexos são simplificados em frases rápidas ou até em checklist de sintomas pode-se estar a generalizar determinados aspetos da psicologia. Termos como “trauma”, “ansiedade”, “limites”, “narcisismo” ou “burnout” podem começar a ser usados fora de contexto, sem rigor e, muitas vezes, sem responsabilidade porque as pessoas podem não entender o que significam estas palavras e não queremos de todo cair numa banalização destes termos. Além disso, pode criar confusão, diagnósticos informais, interpretações erradas e até uma banalização do sofrimento emocional.
O problema não é falar de Psicologia é falar sem cuidado e sem evidencia científica. A saúde mental merece precisão, ética e contexto. Acredito que o caminho saudável está no equilíbrio assim como tudo na vida. Conteúdos acessíveis, sim, mas com responsabilidade; linguagem simples, sim, mas sem perder verdade; informação democratizada, sim, mas sempre com a consciência de que a Psicologia é uma ciência e que o acompanhamento profissional continua a ser insubstituível.
No fundo, quanto mais falarmos de saúde mental, melhor, mas atenção desde que falemos com respeito pela complexidade humana e com a intenção de cuidar, não de simplificar.
Existe ainda muito estigma associado ao acompanhamento psicológico. Quais continuam a ser os maiores preconceitos que encontra na sua prática clínica e o que falta fazer para que cuidar da saúde mental seja encarado com a mesma naturalidade que cuidar da saúde física?
Apesar de já termos avançado no que diz respeito à saúde mental, o estigma e o julgamento ainda existe e manifestam se de formas subtis, mas profundamente enraizadas na nossa sociedade. Na prática clínica, continuo a encontrar preconceitos que mostram que muitas pessoas ainda veem o acompanhamento psicológico como algo “para quem é maluco”, “para quem é fraco” ou “para casos muito graves”. Há quem acredite que pedir ajuda é sinal de fraqueza, que falar de emoções é exposição excessiva ou que procurar um psicólogo significa falhar na capacidade de gerir a própria vida. E a verdade é que tudo isto é uma grande mentira. Quem procura apoio psicológico não é maluco(a), não é fraco(a) e também podem não ter uma perturbação grave. Muito pelo contrário quem procura ajuda é forte e corajoso(a) e dou os parabéns a todos(as) os que já o fizeram ou estão a pensar fazê-lo porque mostram que estão a lutar pelo bem-estar deles próprios e de todas as pessoas que os rodeiam; porque procuram sentir-se bem com eles próprios e ter qualidade de vida, uma vida mais leve e serena! Além do mais, não precisamos de ir ao psicólogo quando estamos numa depressão severa podemos ir ao psicólogo para prevenir, entrar numa depressão severa e assim termos pouca qualidade de vida e entrarmos num enorme sofrimento.
Outro preconceito comum é a ideia de que a saúde mental é opcional, enquanto a saúde física é obrigatória. As pessoas não hesitam em ir ao médico quando sentem dor no corpo, mas hesitam ir ao psicólogo quando a dor é emocional. Porquê? Será que isto faz sentido. Até quando vamos continuar a fazer esta divisão. É importante relembrar que não existe saúde sem saúde mental. O sofrimento psicológico não é menos legítimo ou menos digno de cuidado.
Também encontro o receio do julgamento social: o medo de que alguém descubra, o medo de ser visto como “sensível demais”, o medo de admitir que não se consegue carregar tudo sozinho. Este silêncio imposto é, muitas vezes, o que prolonga o sofrimento.
O que falta fazer? Falta normalizar a ideia de que cuidar da mente é tão natural como cuidar do corpo. Falta ensinar que pedir ajuda é um ato de responsabilidade, não de fragilidade. Falta integrar a saúde mental na educação, nas empresas, nas famílias e nas conversas do dia-a-dia (naquele jantar ou almoço de domingo) sem dramatizar, sem romantizar e sem transformar a Psicologia numa tendência.
Se pudesse implementar uma única medida em Portugal para melhorar significativamente a saúde mental da população nos próximos dez anos, qual seria e porquê?
Se pudesse implementar apenas uma medida para melhorar significativamente a saúde mental em Portugal nos próximos dez anos, escolheria integrar literacia emocional de forma estruturada e contínua nas escolas desde a infância até ao final da adolescência. Não como um projeto pontual, mas como parte do currículo, tal como matemática ou português.
Porquê? Porque grande parte do sofrimento emocional que vemos na vida adulta nasce da ausência de ferramentas básicas: por exemplo, reconhecer o que sentimos (ex. estamos tristes, ansiosos, frustrados, entre outros); regular as emoções intensas com estratégias adequadas, comunicar as necessidades de forma assertiva e eficaz, lidar com a frustração, aprender a colocar limites saudáveis, pedir ajuda e relacionar nos de forma segura. Estas competências não são inatas, mas sim aprendidas. E quando não são ensinadas cedo, tornam se grandes desafios durante a vida adulta.
Uma educação emocional consistente teria impacto direto na ansiedade, na depressão, no bullying, na violência relacional, na autoestima e até na capacidade de concentração. Criaria adultos mais conscientes, mais regulados, mais empáticos e mais preparados para lidar com a complexidade da vida. E, acima de tudo, reduziria o estigma e o julgamento. Se todas as crianças crescessem a falar de emoções com naturalidade, a saúde mental deixaria de ser vista como exceção e passaria a ser entendida como parte essencial do desenvolvimento humano. Que é assim mesmo que ela deve ser vista.
Acredito que esta medida teria um efeito multiplicador, isto porque, ao falarmos com as crianças, chegaríamos também a famílias inteiras. Ao chegarmos a famílias inteiras, mudaríamos as comunidades. E ao mudarmos as comunidades, criávamos uma sociedade mais saudável, mais consciente e mais capaz de cuidar de si.
A saúde mental melhora quando deixamos de atuar apenas na crise e começamos a atuar na prevenção. E a prevenção começa sempre na educação, mas isto na minha opinião.
Vivemos numa sociedade que valoriza produtividade, rapidez e sucesso, mas onde muitas pessoas se sentem emocionalmente esgotadas. Se pudesse deixar uma reflexão aos leitores sobre o que significa, verdadeiramente, ter uma mente saudável no mundo atual, qual seria essa mensagem?
Vivemos num mundo que nos pede velocidade, produtividade e resultados constantes. Mas uma mente saudável não nasce da capacidade de fazer mais nasce da capacidade de sentir melhor. E isso exige algo que a nossa sociedade raramente valoriza: pausa, presença, limites e humanidade.
Para mim, ter uma mente saudável hoje significa recuperar o direito de ser pessoa antes de ser desempenho. Significa reconhecer que não somos máquinas e que o corpo dá sinais muito antes de a exaustão chegar. Uma mente saudável é uma mente que sabe parar, que sabe dizer “não”, que sabe pedir ajuda e que não confunde valor com produtividade.
Também significa aprender a viver com mais verdade interna e menos comparação externa. No meio de tantos estímulos, tantas expectativas e tantas vidas idealizadas, cuidar da mente é escolher voltar ao essencial: o que sentimos, o que precisamos, o que nos faz bem e o que nos desequilibra. É ter coragem de olhar para dentro, mesmo quando o mundo nos empurra para fora.
E, acima de tudo, ter uma mente saudável é lembrar que não precisamos de estar sempre fortes. Precisamos de estar presentes. Precisamos de estar conscientes. Precisamos de estar vivos dentro da nossa própria vida.
Se pudesse deixar uma mensagem aos leitores, seria esta: cuidar da mente não é um luxo é um ato de respeito por tudo aquilo que somos e por tudo aquilo que ainda podemos ser. Num mundo que acelera, a verdadeira força está em saber abrandar.